A religiosidade, hoje

“Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria

isso pra mim é viver”

(Djavan / Caetano)

À primeira vista poderíamos pensar que a religião está cada vez menos presente em nossa apressada rotina atual. De fato, talvez a religião como instituição decline a olhos vistos. Mas e a necessidade de religião das pessoas? A necessidade de espírito, de alma?

Essa, creio eu, continua viva. Está por aí, mas nem sempre é reconhecida como tal. O objetivo desse post é mostrar como ainda precisamos de “alma”, mesmo numa cultura tão pobre quanto a nossa.

Separei, então, alguns exemplos inusitados de ‘alma’ ou de ‘espírito’; experiências onde as pessoas experimentam algo próximo ao religioso, sem se dar conta. Na sequência, discuto a ideia.

***

  1. A bebida : sim, o álcool, também chamado de “spirit” em inglês (não por acaso…), é um artifício de longa data, utilizado para induzir estados da alma diferenciados. Você pode dizer que isso não tem nada a ver com religião, mas penso que uma boa ‘dose’ do nosso consumo alcoólico tem a ver com a busca por um ‘além’. Obviamente, esse além não precisa ser o além-túmulo, mas pode ser simplesmente o ‘além-da-rotina’, o ‘além-do-controle’… Queremos algo mais do que nossa simples realidade, e o álcool nos ajuda a entrar em contato com isso.
  2. Música alta: outro artifício para nos deixar um pouco fora de nosso estado normal de consciência. Você vê esses caras passeando de carro ouvindo som a níveis ensurdecedores? Eles estão buscando, de alguma forma, algo que não encontram na lucidez. Eles precisam ser levados, motivados, induzidos, pela música. A intensidade do som tem efeito hipnótico, exatamente na mesma linha do álcool.
  3. Idealização do amor / sexo : estou pensando aqui nas músicas sertanejas, mas quase toda arte, especialmente as populares, acaba operando uma idealização do amor. Os poucos raps/funks que conheço idealizam o sexo, mais ou menos nessa mesma direção. O que está sendo mantido aqui é a promessa de um paraíso: existe um paraíso, ele é alcançável, mas exige algum esforço. Seu nome é amor/sexo, e isso dá sentido à sua vida…
  4. Idealização do sucesso: da mesma maneira que a idealização do amor, o que está sendo vendido aqui é a “garantia” de um sentido para a vida – de um ‘paraíso’. É necessário esforço, dedicação, superação, mas cada um pode ser seu próprio profeta, rumo ao céu pessoal da independência… A vida ‘normal’, mediana, não faz sentido, é preciso um algo mais, que você pode alcançar…
  5. Idealização do consumo: esta, não precisa nem dizer. Vai no mesmo sentido das duas anteriores, e basicamente promete uma entrega de sentido e felicidade a partir do pagamento de alguns carnês mensais… “Ter” tal coisa vai te levar a “ser” tal coisa… e o inverso também, porque eles jogam muito com nossa vaidade/vergonha: “não ter” tal coisa = “não ser” tal coisa…

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E a lista poderia continuar : “idealização da saúde”, “idealização das viagens”, “idealização da experiência”, “idealização da felicidade”… Há uma série de “promessas” culturais pairando sobre nossas cabeças, que são uma espécie de alternativa pobre para aquilo que a religião sempre fez: estruturar um além, um algo mais. Dar sentido espiritual para a vida das pessoas.

Perceba, nunca houve consenso sobre esse “além”; cada religião tem a sua definição. Porém, sempre houve consenso sobre a insuficiência da vida cotidiana, concreta, material. O homem precisa de algo mais. Não nos basta simplesmente sobreviver & passar adiante nossos genes. Somos seres de cultura, como dizia Lacan. Como tal, necessitamos de cultura, e cultura é… alma, é espirito. É algo que está sempre para além da vida concreta e apenas ‘real’.

A vida concreta não deixou de ser insuficiente, apenas porque deixamos de acreditar na religião. Apenas trocamos de crença… acreditamos num “além” mais conforme ao nosso momento, um além mais “imanente”, como diríamos em filosofia… mas ainda um além!

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