Ciência e misticismo

Jung disse em algum lugar que estudar a religião era estudar o homem; não porque a doutrina “x” ou ‘”y” conteria a verdade sobre o humano, mas porque o homem se projetava nas religiões.

Temos motivos para acreditar que sempre foi assim. O homem olha o mundo, mas o que vê é um espelho: o mundo lhe devolve a sua imagem. Nas religiões, é a imagem da alma que o mundo devolvia ao homem. Ou seja… sua psicologia.

Não por acaso, todas as religiões contém uma dose significativa de saber psicológico. Sem precisarmos pensar na doutrinas em si, acredito que elas conhecem mais sobre o humano – comparadas ao homem médio -, simplesmente porque são o acumulado das experiências de gerações inteiras lidando com nossa difícil psicologia.

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Mas hoje, quando a ciência se tornou uma espécie de preconceito – isto é, mal pensamos nos problemas que ela nos trouxe -, deixamos de ter à nossa disposição toda essa sabedoria que a prática religiosa nos proporcionava. Sabedoria psicológica, vou repetir. E não é impossível que boa parte de nossos sofrimentos modernos se devam à essa ausência.

Porque uma coisa que a religião nos ensinava era a prestar atenção em nossos sentimentos. Podia bem ser que esses sentimentos fossem endereçados a um deus ou um universo um tanto questionáveis, mas o lado bom disso é que tudo que nos acontecia ganhava um colorido pessoal, próprio.

Afinal, tudo que vivíamos era conectado com um ‘além’, que por sua vez se conectava com nossa ‘alma’. Ou seja, nos colocávamos em tudo. Não havia “acaso”, não havia “sem sentido”. O mundo ganhava vida aos olhos do homem, ganhava uma tonalidade humana.

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E há sabedoria nisso. Porque é assim que efetivamente vivemos, ao nível dos sentimentos. Ver cada acontecimento como tendo relação conosco: ora, nós fazemos isso a todo momento, só que, hoje, de forma recalcada, de forma tímida, enviesada, pobre.

Escolhemos a fila mais demorada no supermercado? Automaticamente sentimos que isso foi “injusto” conosco. O trânsito está lento? Sentimos como se fosse uma ofensa pessoal. Perdemos um ente querido? Pensamos: “porque comigo?”. Tudo é vivido de um ponto de vista pessoal, para as emoções. É impossível viver algo emotivamente sem “povoar” o acontecimento com nossas estruturas. Nós humanizamos as coisas, nós transformamos tudo o que acontece até que se relacione conosco.

A diferença é que, antes, havia uma série de construções em cima disso. Havia estradas, caminhos, indicações, metas. Havia exemplos. Hoje, só o que temos são artigos científicos – muitos deles patrocinados pela indústria – e… a mídia. Os quais podem até ter seus interesses legítimos, mas certamente não estão interessados no homem.

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Ou então, o controle. Sim, porque esse é o nosso “Deus”, atualmente: achamos que podemos controlar tudo! Deixamos de acreditar em deuses, mas achamos que nós mesmos somos deuses! Que grande diferença…

Bom, a partir do momento em que cabe a cada um ser o “senhor” do seu destino, uma série de obrigações e cobranças se tornam rotineiras. E, com elas, uma série de pesos.

Eu já não posso me entregar ao devir com uma confiança simples, mas firme. Agora, eu preciso controlar o devir. Como alguém vai ter paz de espírito, vivendo assim?

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Não sou uma pessoa religiosa, mas, às vezes, gostaria de ser. Quanto mais conheço sobre o humano, mais me parece que perdemos algumas coisas, ao abandonar a religião da maneira como o fizemos. O misticismo parece mais verdadeiro com o que somos.

Talvez existam maneiras maduras de não ser religioso. Mas essa certamente não foi a nossa escolha, como cultura. Abandonamos uma crença centrada no humano e adotamos outra, centrada… no que? Num ideal, numa idealização do humano?

Parece contraditório, mas falta humanidade à nossa cultura, falta uma medida concreta, psicológica, do que é o “homem”.

Falando religiosamente: falta alma em nossa cultura.

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