Sensações corporais & autismo

Acredito que todo mundo já pensou um dia em como seria bom não sentir dor; perceber as coisas e se relacionar com elas, mas sem sofrer. Sem machucados, sem doenças, sem sofrimento.

Acontece que existe uma condição médica que é parecida com isso, mas, ao contrário do que muitos possam imaginar, ela é terrível. Tanto que seus portadores raramente vivem até a idade adulta.

A “Analgesia congênita” é justamente uma condição rara onde o sujeito não sente nenhuma dor. Nessa matéria, da revista SuperInteressante, você pode ler um pouco mais sobre o assunto. O que me interessa, nesse post, é chamar a atenção para como não dispôr desse parâmetro no corpo faz falta.

***

Tenho certeza que, para muita gente, a dor é uma sensação dispensável. No entanto, se você leu a matéria da Super, ficou sabendo que ela é imprescindível. Não sentir dor fez com que um dos portadores da condição quebrasse o punho dormindo; outra, comeu partes da própria língua, quando criança.

Não ter esse parâmetro faz com que muitos portadores dessa condição não sobrevivam até a vida adulta. Outros, precisam inventar soluções substitutas, como a mãe que etiquetou todos os objetos da casa com cores diferentes, conforme o grau de “perigo” que eles representavam.

Obviamente, essa solução é impraticável em ambiente aberto. Não tendo a dor como parâmetro dos limites do próprio corpo, esses sujeitos vêem-se privados de informações essenciais para a simples sobrevivência.

***

O autismo pode ser pensado como um efeito da dissociação entre aspectos do corpo e a mente. A percepção corporal até pode funcionar normalmente, mas algo no processamento dessa percepção parece ser disfuncional.

Assim, em minha experiência, os autistas costumam ser sensíveis – e sensíveis até demais. Isto é, não é que eles não percebam as coisas. Eles as percebem, mas com uma intensidade tão elevada, que facilmente essa percepção se torna insuportável.

Então – em reação à intensidade da percepção – eles se “fecham”. Defendem-se, evitam o percebido, podendo dar a impressão, a um observador externo, que não estão percebendo o que se passou.

***

Seja pelo motivo que for – ainda há poucos consensos sobre o autismo – o fato é que muito comummente os autistas têm dificuldades para se relacionarem com o próprio corpo. Tendo em mente o que acontece com os portadores de Analgesia Congênita, poderíamos perguntar quanto das dificuldades relacionadas ao autismo não teriam a ver com essa dificuldade de relação corpo / mente ?

Imagine que você tem um controle remoto nas mãos, e com ele consegue controlar o volume de todas as coisas que ouve. O problema é que só há dois volumes disponíveis: o “5” – muito baixo – e o “50” – altíssimo. É muito provável que, cansado de brigar com os esses limites pouco utilizáveis, você acabasse usando mais o “power”, ou seja, ‘desligasse’ a sua audição, fosse fazer outra coisa.

Agora imagine que você tem um controle para cada uma de suas sensações corporais. Mas sempre na mesma condição: ou uma percepção muito baixa, ou uma extremamente alta. A tendência seria você se fechar, desligar todos os ‘inputs’ corporais inúteis.

Mas como se orientar sem eles? Com substitutos. Como a mãe que etiquetou todos os objetos, você teria que inventar relações, percepções, que servissem de auxiliares. Comer não quando sente que tem fome, mas quando todos comem; ou quando está na hora; ou quando passa tal programa na TV. Ir ao banheiro não quando sente que precisa, mas quando bate o intervalo no trabalho. Ouvir apenas quando percebe que estão olhando para você. Olhar apenas quando precisa de alguma coisa…

***

Enfim, você estaria limitado, em comparação aos demais. Seu comportamento poderá parecer estereotipado, simplesmente porque aquilo foi o substituto que você conseguiu construir – no lugar de uma percepção, que tornaria tudo muito mais fácil.

Não percebemos, mas nossas percepções corporais nos permitem muitas coisas. Elas são um referencial constante – eu sempre sinto fome quando devo comer, por exemplo -, e isso facilita tudo. Ter os olhos, as narinas e os ouvidos abertos significa ter uma constante rede de informações confiáveis, a partir das quais uma série de reações se torna possível.

Mas você não dispõe dessas percepções. Elas lhe machucam; lhe invadem. Sentir tudo no volume “50” simplesmente ia enlouquecer você. Não ia ajudar. É melhor manter todas as coisas no volume “5”, beeeem baixinho. Mesmo que você pareça surdo, é a única coisa a se fazer.

***

Não sabemos exatamente porque faltam os “volumes intermediários” na percepção do autista, nem SE esse é o problema central. A ideia que levanto aqui é apenas interessante; permite organizar certas experiências comuns nesse quadro, mas não deve ser tomada pelo que não é.

Se levássemos a ideia um pouco mais longe, poderíamos pensar que inclusive a formação do “self” do autista sofreria distorções em função da indisponibilidade de certos parâmetros corporais. Poderíamos perguntar até mesmo se essas distorções no “self” não corresponderiam exatamente aos volumes que “faltam” na nossa metáfora do processamento da informação.

Ou seja, a falta de integração da percepção corporal ao “Self” acarretaria na impossibilidade de uso dessa percepção, pelo sujeito. A integração corpo / self corresponderia, no plano manifesto, à novos “volumes intermediários”, que facilitariam a relação do autista com as sensações.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s