O mental e o digestivo – Bion & Nietzsche

Dos autores que conheço, acho que foi Nietzsche quem primeiro comparou a subjetividade humana ao estômago: para o filósofo, o que nosso aparelho mental faz é análogo ao digerir: ele processa as experiências que temos, as dilui, as decanta. Separa aglomerados de experiências em partes menores, e oferece esses pequenos pedaços como nutrição para nosso corpo.

É o mesmo que dizer que, só assim, processadas, as experiências são assimiláveis. Mas e quando não é possível tal assimilação? Nietzsche sugere, algumas décadas antes da psicanálise, que nossas experiências ficam “indigestas” – ficam travadas, enquistadas, em algum lugar, e nem viram alimento para a alma, nem podem ser evacuadas.

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A metáfora digestiva é retomada por Bion um século depois, nesse exato mesmo sentido. Para o psicanalista, nossa primeira atividade mental é a evacuação: mal temos ferramentas para perceber as coisas (do ponto de vista mental / emocional), então todo percebido é evacuado, isto é, projetado para fora.

Se essa projeção encontrar alguém em condições de atribuir-lhe um sentido, a projeção se transforma em comunicação. E, quando o sentido atribuído pelo outro é devolvido ao sujeito, já elaborado (ou seja, já digerido, para manter nossa metáfora), pode ser introjetado pela mente infantil, isto é, apropriado por ela, criando-se assim um circuito simbolizante, uma ‘máquina’ de criação de sentido que passa pelo mental do outro.

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Um exemplo deixa tudo mais claro: imaginemos uma criança pequena que sente fome. Ela não ‘sabe’ ainda o que é essa sensação; ela apenas sente um incômodo, um desconforto, e… chora. Na leitura de Bion, o choro seria a projeção de uma percepção não elaborada. Se alguém escutar esse choro e lhe atribuir um sentido – como a mãe, que pode ‘entender’ que se trata de fome -, ela agirá em conformidade com sua elaboração da projeção da criança (isto é, com a forma como ela entendeu o choro), e então dará alimento para o bebê.

Assim, aquilo que começou como puro desconforto e falta de elaboração – a fome levando ao choro – é elaborado pela mente do outro – a mãe, em nosso exemplo – e retorna como uma resposta, uma ação, que efetivamente resolve a situação inicial.

A criança não precisa entender que “sua projeção não elaborada retornou como significado”, mas, com a repetição de experiências como essa, ela poderá adquirir a confiança de que quando ela mesmo não consegue elaborar algo, existe um mental elaborativo no ‘fora‘, no ambiente, no outro. Ou seja, ela passa a confiar na comunicação; ela passa a confiar no outro; ela se sente mais capaz de enfrentar suas próprias questões, na medida em que confia que existe uma ajuda possível.

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Essa confiança já seria um degrau acima em nossa comparação com a digestão. É como se a criança começasse a sentir que ela também tem um estômago – mental.

Nem sempre a elaboração do outro será perfeita, é claro. Sempre haverá um ‘resto’, maior ou menor, não elaborado. Isso demandará que o próprio sujeito vá aprendendo, aos poucos, a elaborar por si mesmo – a digerir por si mesmo.

Mas, se houve alguém ali, no início, para ajudá-lo, ele já sabe o caminho. Ele já aprendeu que ‘tal’ sensação se liga com a fome, e que isso se resolve com comida… ele já aprendeu que, mesmo que não souber elaborar alguma percepção, sempre poderá pedir ajuda, comunicar sua ‘indigestão’. Finalmente, com a crescente confiança nesses mecanismos, ele passa a tolerar melhor também essa ‘indigestão’ – ou seja, o fato de que algumas experiências são realmente ‘difíceis de engolir’.

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Tolerar a ‘indigestão’ seria um segundo degrau nessa escalada rumo ao ‘mental’. Porque isso pode ser aproximado da nossa tolerância à frustração. Muitas coisas, na vida, não encontrarão nunca elaboração suficiente. Precisamos aprender a conviver com essas experiências, que ficarão sempre um tanto indigestas.

O que Bion nos sugere é que, para tolerar a indigestão, é necessário que a digestão esteja funcionando muito bem. É como se estivéssemos digerindo nossa própria incapacidade de digerir. Dito de outro modo, é como se tolerássemos nossa indigestão, porque confiamos na nossa capacidade de digerir.

A digestão que funciona equilibra a balança em relação à indigestão, por assim dizer.

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Assim como o acolhimento / elaboração que a mãe dá ao choro sem sentido do bebê o transforma em comunicação – o que era simples esperneio torna-se “por favor, me ajuda, tenho fome!!” – também o elaborar que o sujeito aprende a fazer em relação às suas próprias percepções poderia ser comunicação.

Ou seja, elaborando, digerindo, suas próprias percepções e angústias, o que o sujeito faz, no fundo, é comunicar-se consigo mesmo, num nível mais profundo.

Poderíamos dizer que é a consciência se comunicando com o inconsciente? Talvez. Mas gosto de pensar que essa comunicação consigo mesmo é a tradução, momento a momento, das experiências mudas do corpo em pedaços de sentido (sempre em parte culturais).

Assim, a elaboração / digestão junta, num único conceito, o biológico, o cultural e a história de vida de cada um, e nos aponta como o psicológico pode ser, de fato, multifatorial.

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O próximo degrau de nossa escada seria comparar as experiências já digeridas com a alimentação. Pois é claro que nos nutrimos daquilo que vivemos. Nossa subjetividade, no fundo, é isso: o conjunto de nossas experiências, mais os mecanismos que conseguimos introjetar para elaborá-las.

Mecanismos elaborativos desfuncionantes resultarão numa alimentação inadequada / insuficiente. Talvez isso nos deixe “anêmicos da alma”, poderíamos dizer. Mas melhores mecanismos nos permitirão aproveitar mesmo experiências não tão ‘nutritivas’ em si mesmas.

Ou seja, o foco não está na qualidade das experiências, apenas, mas antes na funcionamento de nosso mental elaborativo. Todas as terapias psicológicas poderiam ser entendidas assim, como estratégias de expansão (em alguns casos, de criação) desse mental elaborativo. Afinal, todas elas, de um modo ou de outro, se utilizam desse circuito simbolizante (usar o outro como ‘estômago’ das situações que eu não consigo metabolizar).

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