O inconsciente em Nietzsche. Pontes com Bion.

No aforismo 354 da Gaia Ciência, Nietzsche avança uma série de hipóteses sobre o funcionamento mental do ser humano – hipóteses muito profundas, aliás -, invertendo postulados tradicionais da filosofia. Alguns desses postulados, quase como uma espécie de ‘preconceito’, continuam vigentes até hoje. Seria porque servem para enaltecer o ‘humano’, ou seja, nossa vaidade?

Neste post quero discutir uma parte dessas hipóteses nietzschianas, fazendo um link entre o que ele nos sugere e a proposta de Bion para o inconsciente em psicanálise.

Ele se insere, portanto, no contexto dos posts sobre “o inconsciente depois de Freud”, e pode ser lido em conjunto com eles.

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Indo direto ao assunto, Nietzsche discute nesse famoso texto aquilo que seria o “gênio da espécie” – o que, aliás, é o título do aforismo – , de forma um tanto sarcástica, me parece. Pois aquilo que, tradicionalmente, se considera como o “gênio” da espécie humana – a razão, a consciência, o pensamento – para Nietzsche, será OU desvalorizado – como no caso da consciência – OU generalizado, sendo um atributo de toda criatura viva.

Assim, o autor argumenta que a maior parte de nossa vida – mesmo da vida subjetiva – acontece de forma inconsciente. Para quê, então, consciência? Ou seja, se a consciência não é condição necessária para a maior parte de nossa subjetividade, para quê serve ela, afinal?

Sua resposta liga a existência da consciência à necessidade de comunicação entre os seres humanos. A comunicação, por sua vez, estaria vinculada à precariedade da vida humana, ou seja, à necessidade que o ser humano tem de ajuda.

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Assim, num movimento bem típico, aquilo que geralmente é pensado como nosso diferencial, um motivo de orgulho – a consciência, que seria a nossa “força” frente às demais espécies – em Nietzsche aparece como resultado de nossa fraqueza: é porque somos fracos perante os demais animais que precisamos nos comunicar. E isso nos levou à consciência.

O ponto que me interessa nessa argumentação nietzschiana é que não haveria ligação entre consciência e verdade. Mais precisamente, o próprio pensamento não teria nada a ver com a consciência. Pois, para Nietzsche,

“Toda criatura viva pensa continuamente; o pensar que se torna consciente é apenas a parte menor, mais superficial, a pior, digamos, pois apenas esse pensar OCORRE EM PALAVRAS” (Nietzsche, Gaia Ciência, § 354. Grifos meus)

Vamos repetir, para enfatizar: “toda criatura pensa continuamente“. E se “pensar” não tem a ver com a consciência, é porque esse pensar ocorre de forma inconsciente.

“Quem” pensa, então? Nietzsche diria: “o corpo”. Para a psicanálise, isso não estaria errado, embora haja nuances e entendimentos divergentes entre os vários teóricos.

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Mas o grande ‘passo adiante’ que Nietzsche dá, na minha leitura, é separar duas coisas que costumam andar juntas: o pensamento e a consciência – ou também o pensamento e a linguagem.

Pois a consciência e a linguagem costumam ser pensados como essencialmente humanos. Mas o pensamento não. Temos inúmeros exemplos de atividade inteligente entre os animais, inclusive entre bactérias (aqui e aqui alguns exemplos).

Nosso ‘preconceito’ tende a igualar as duas coisas, fazendo o pensamento depender da consciência ou da linguagem – que só nós teríamos… Assim, de certa forma, é como se disséssemos: “só nós pensamos”… só nosso pensamento interessa.

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Nietzsche está dizendo, no fundo, que nosso conceito de “pensamento” (ou de “consciência”) é apenas uma forma de gratificar nosso orgulho. É nossa vaidade que nos faz ‘perceber’ o pensamento assim; se nos afastamos disso, o pensamento pode ser toda uma outra coisa. Pode ser que o corpo pense, afinal. Pode ser que exista muito mais “pensamento” do que aquela pequena parte que conseguimos traduzir em palavras…

Se deixarmos Nietzsche e avançarmos uns 100 anos no futuro, reencontramos a intuição nietzschiana, dessa vez sob a pena de Bion: para esse teórico da psicanálise, o pensamento existe antes do pensador: isto é, quando “pensamos” (de forma consciente), o que acontece no fundo é apenas a tradução para a consciência de um pensamento que já existia no inconsciente.

Vale dizer, existiria uma série de pensamentos “não pensados” – isto é, não assumidos, não traduzidos para a consciência – no inconsciente. A questão do pensar teria a ver mais com a construção de um sujeito que possa asumir tais pensamentos, do que com o pensamento em si (a lógica, a associação, a estrutura… essas seriam coisas do inconsciente).

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Para os dois autores, portanto, o pensar é uma função extremamente subjetiva. Nossa subjetividade participaria da própria formação do pensamento (como argumentei mais longamente aqui), mas também da assunção desse pensamento.

Donde uma série de estranhas consequências surgem. Existem pensamentos, por exemplo, que podem habitar meu inconsciente, mas que eu não esteja em condições de assumir… Ou então, mudar minha estrutura subjetiva implica em mudar a forma do meu pensar… Finalmente, talvez existam pensamentos somente acessíveis para uma certa estrutura subjetiva… Algo um pouco difícil de aceitar pelo viés igualitário de nossas democracias –

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