Bergson, Damásio & Nietzsche – sobre a criação de sentido

Num livro fenomenal (Matéria e Memória), Bergson discorre sobre como vê a relação entre nossa percepção e nossa memória. Para ele, ambas seriam os extremos abstratos de um ato que, em nossa mente, acontece indiviso.

Para o filósofo, a percepção de um objeto não é nada mais do que nossa ação virtual sobre ele. Ou, dito de outra maneira, nossa preparação para o agir, as disposições que o objeto evoca em nosso corpo, dada nossa bagagem genética, digamos assim.

Cada uma dessas ações possíveis de nosso corpo sobre o objeto vão criando uma série de memórias, reforçadas ou atenuadas a partir das experiências do organismo.

No ato “puro” de perceber, digamos assim, não haveria memória. Mas, à medida que o organismo ganha experiência e constitui um arsenal de registros, mais e mais a percepção vai se misturando à memória do mesmo objeto, até chegarmos à um misto, uma mistura, que é a nossa experiência cotidiana de percepção: um meio do caminho entre a percepção pura do objeto, e a exteriorização das nossas memórias sobre ele.

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As intuições de Bergson são tanto mais impressionantes, para mim, quanto mais vão sendo validadas hoje, pela neurociência. Antônio Damásio, no livro sobre “O mistério da consciência”, apresenta a exata mesma noção sobre nossa relação com os objetos, só que calcado, agora, em experimentos e aparelhos de última geração.

Para Damásio, os objetos com os quais nos relacionamos disparam uma série de ajustes e mecanismos automáticos no corpo – que Bergson chamaria de “preparações para a ação” – os quais são percebidos pelo nosso organismo como sendo “o” objeto. Isto é, o corpo mistura, na percepção, tanto a informação que vem do objeto quanto as alterações que o objeto produz em nosso corpo, no esforço por percebê-lo.

É o mesmo que dizer que “perceber” implica em “colocar-se” em relação, estabelecer alguma perspectiva, ser “injusto” com o objeto – na medida em que, para perceber O objeto, eu preciso ME colocar na percepção. E o “Eu” simplesmente não faz parte do objeto…

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Chegamos, assim, à Nietzsche, que argumentava que, em toda percepção, existe a inserção – não necessariamente verídica – de uma perspectiva: a da nossa relação com o objeto.

Vale dizer: percebemos o objeto a partir do tipo de relação que estabelecemos com ele. Não é que, primeiro, exista uma percepção (“pura”), e, depois, estabeleçamos uma relação com esse percebido. A proposta nietzschiana é que para perceber eu preciso estabelecer uma relação. Não há percepção pura. Perceber é, sempre, instaurar a sua perspectiva pessoal, a sua “injustiça”, a sua relação específica com o objeto.

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Dado tudo isso, fica difícil pra mim entender como se pretende, justamente em relação à nossa história e nossas valorações pessoais, que elas tenham sentido “em si”, que elas pudessem ser “compreendidas” e ter o mesmo peso e efeito pra todo mundo.

Se a percepção física de um objeto já é um processo “subjetivo”, na medida em que mistura minha memória e minha experiência com o objeto; que dizer da percepção “psicológica”, isto é, do peso, da valoração e do sentido pessoal que cada memória e experiencia tem, para cada sujeito.

Isto é, quando se reclama que “fulano é muito sensível, fica fazendo caso de tal coisa, que é tão simples”… , se está supondo que a tal experiência simples tem um peso, valor e sentido em si; e, como acabamos de argumentar, isso não é tão simples assim.

Cada experiência que temos vai construindo uma perspectiva individual. E por mais que existam muitas experiências gerais, comuns à espécie (nascer na dependência absoluta, ter pais, viver conflitos entre nossos desejos e a realidade, sofrer com nossos limites, etc), essas experiências serão vividas desde uma perspectiva única. E isso dará, para elas também, um sentido único, pessoal.

Mas isso quer dizer, ao mesmo tempo, que todos somos um pouco artistas. E que há sempre, em nós, algo que não se comunica, que não é compartilhável.

4 Respostas para “Bergson, Damásio & Nietzsche – sobre a criação de sentido

    • Opa, obrigado pelo comentário! Então, o conceito de ‘transferência’ em psicanálise bebe da mesma fonte, eu diria… ele supõe justamente que o perceber NÃO É um ato abstrato e asséptico, isto é, que não existe percepção sem sujeito, sem perspectiva, sem valoração… e se atém a um caso particular desse “subjetivismo” na percepção: a relação com os “outros fundamentais”. A ideia é que tendemos a repetir a ESTRUTURA de nossas relações com sujeitos diferentes. Por exemplo, se na relação com meu pai eu ME estruture dei forma a sempre desconfiar dele, pode ser que eu “transfira” essa estrutura desconfiada para outras pessoas, e passe a ser desconfiado com todo mundo… Não tanto por um “erro de percepção” – eu não estou achando que os outros são o meu pai – mas porque A ESTRUTURAÇÃO DO “EU” ASSUME PARTE DE NOSSA RELAÇÃO COM OS OUTROS. Isto é, o “Eu” seria formado por essas relações; ele “guarda”, em si mesmo, a estrutura das relações que nos constituíram… e, na transferência, isso se exterioriza, se atualiza, em outros objetos (outras pessoas)… Há mais para dizer sobre isso, mas aí viraria um novo post, rsrsrs… quem sabe?

      Curtido por 1 pessoa

  1. Sim, acho que é um tema para um novo post… ou até um livro! mas uma coisa de cada vez. Gostei de pensar no termo nietzschiano força… quando você diz “não existe percepção sem sujeito, sem perspectiva, sem valoração” leio assim: não existe percepção sem força. Esta força é a um só tempo, um micro- “interno”, um fractal, um desejo, “algo quer” e também um produto histórico, no sentido preciso que comentaste em que a memória vem a ajudar/atrapalhar a formar as percepções presentes. Belo entrelaçamento de teorias!

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  2. Pingback: O inconsciente em Nietzsche. Pontes com Bion. | eu(em)torno·

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