Nossa cultura dos prazeres – ou a falta dela…

Tenho falado bastante, ultimamente, sobre como acho que nossa cultura está em “plena decadência”, para falar como Nietzsche (aqui, aqui e aqui, alguns exemplos). Neste post quero trabalhar um pouco essa percepção, organizando-a em torno das noções de prazer & sexo.

Para começar, preciso definir o que estou entendendo por “cultura”.

“Cultura” significa, para mim, aquele conjunto de valores e ideias que intermedeiam as relações entre o ser humano individual e o seu entorno. Como aprendemos a nos relacionar conosco a partir das relações que estabelecemos com os outros, a cultura também acaba influenciando na maneira como cada um lida consigo mesmo.

Assim, por exemplo, existem os fatos – o sexo, a alimentação, as coisas que me dão prazer – e existe a apreensão cultural dos fatos – essas coisas são permitidas? Como tenho acesso à elas? devo praticá-las? é bom ou mau gostar disso? etc.

Observe que “permissão”, “bom ou mau”, “dever”, são todas noções que implicam o social, a cultura. Poderíamos discutir essa separação entre ‘fatos’ e ‘interpretação de fatos’, mas ela está ai apenas para facilitar a compreensão. Na realidade, só há interpretações de fatos.

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Prosseguindo, quando digo que nossa cultura está decadente, quero dizer que a maneira como ela apreende e estrutura os fatos da vida é pobre, limitada, estreita. E creio que isso fica bem claro quando analisamos nossa maneira de nos relacionar com os prazeres. O sexo, por exemplo.

Porque todos gostamos de sexo, não é verdade? E como pertencemos à uma época onde, a princípio, tudo é permitido – desde que consensual -, ou seja, onde não há tabu religioso sobre o sexo, poderíamos imaginar que há, em nossa cultura, uma árvore frondosa, cheia de maneiras e propostas as mais diversas para viver o prazer sexual.

A realidade é muito diversa disso. Nossa maneira de vivenciar o sexo é de uma pobreza evidente. Quando comparamos nossa cultura sexual com a cultura de outros tempos – a cultura tântrica, por exemplo – chega a ser ridícula a comparação.

Nossa cultura sexual é tão pobre que parece que não temos cultura alguma sobre o prazer; que o vivemos da forma mais crua possível, como o faria qualquer animal. Mas, mesmo aí, existe cultura; ela apenas é raquítica. Poderíamos resumi-la assim: primeiro, ela é masculina, quase desconhecendo a mulher. Segundo, ela idealiza a penetração, a submissão. Terceiro, ela é “natural”, ou seja, trata-se do sexo tal como se apresenta, sem caminhos, sem aprendizagem, sem estilo.

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Podemos dizer o mesmo de quase tudo, em nossa cultura. O comer, por exemplo: porque não temos escolas que nos ensinem a comer? Isto é, que nos ensinem a fazer desse aspecto da vida um prazer maior? Isso parece estranho? Pois bem, essas escolas existiram.

Aquilo que conhecemos como alta gastronomia se originou dessa busca por ampliar o prazer na alimentação. Toda tradição antiga tem um modo específico de se alimentar. Mas, obviamente, é preciso conhecer esse caminho. É preciso aprendizagem, é preciso tempo, é preciso… cultura. Até mesmo PARA poder aproveitar a cultura do outro.

Sem educação culinária, eu não consigo aproveitar a alta gastronomia… porque ela não funciona sem educação, sem conhecimento dos ingredientes, da história dos ingredientes. O vinho é outro exemplo: você acha que, sem experiência nenhuma, você vai desfrutar de um vinho “chique” da mesma forma que um enólogo ou um sommelier?? Claro que não, porque o prazer da experiência não é “natural”, ele depende de um aprendizado.

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Com isso chego ao meu ponto. Nossa cultura, que para muitos é individualista e hedonista, se caracteriza por uma ausência quase completa de “cultura” na experiência dos prazeres. Ou seja, embora supostamente o indivíduo seja o “rei” em nossa época, ele vive da maneira mais pobre possível seu próprio prazer.

O que, a meus olhos, constitui um paradoxo interessante, que pretendo desenvolver em outros posts. Por hora, quero ressaltar que as duas coisas – individualismo e desvalorização da cultura – poderiam estar relacionadas. Na formação de nosso individualismo e de nossa “des-cultura” dos prazeres, existe uma mesma recusa: é a cultura como tal que recusamos.

Nós – nossa visão de mundo – não acredita na cultura. Não acreditamos na educação, na importância da transformação subjetiva (acreditamos apenas no diploma, essa parte “prática” da educação). Não acreditamos nem na subjetividade, no limite. Eis um dos motivos porque a psicologia é tão estrangeira em nossa época (ao mesmo tempo temida e desvalorizada). Em troca, acreditamos, com todas as nossas forças, no ideal do indivíduo soberano, no seu desempenho ‘natural’, na sua ‘força’ – como se isso bastasse para tudo.

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Assim, para nós, não há nada para aprender, no sexual. Basta ter potência, basta ter um bom ‘desempenho’. A mulher, que tem todos os motivos para não concordar com isso, é simplesmente desconsiderada – ou torna-se um ‘problema’. Toda a nossa pornografia é uma espécie de “ode” à essa premissa. Também não há nada para aprender na alimentação, basta estar com fome. A música, desde que seja alta o suficiente, pode ser qualquer coisa. A pintura tornou-se, literalmente, qualquer coisa.

Daí a supremacia do “visível”. A cultura é o invisível, está ligada à educação, à algo que não está exposto, que não se vê de imediato. É preciso cultura até para apreciar a cultura no outro… Mas isso não nos interessa. Importa mais que eu tenha um peito gigantesco, um corpo musculoso, seja magro(a), ou ostente os sinais de riqueza. Tudo precisa estar visível, explícito. Porque o implícito, aquilo que depende de aprendizado, de cultura, não interessa.

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Quando um erro é sustentado constantemente, é provável que exista algum ganho, ali. E nossa cultura é um erro; porque simplesmente não existe “humano natural”. Isto é, aquilo que nos define como humanos, basicamente, é dado pela nossa cultura, pela sociedade. A crença – ingênua – que temos na “naturalidade” do humano é apenas a expressão da crença profunda que temos na nossa própria cultura, junto com a recusa de qualquer outra. Ou seja, acreditamos tanto no nosso ponto de vista que o “naturalizamos”.

O paradoxo vai tão longe que abdicamos de nosso prazer, potencialmente, por simplesmente não ser possível aprender a ter prazer – o que todas as culturas, até aqui, sempre fizeram… Justamente o prazer, que seria supostamente um valor fundamental para o indivíduo.

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Não estou pensando em nenhuma ‘recusa estrutural’, aqui, do tipo que é comum em psicanálise. Algo como “recusamos o prazer porque, no fundo, tememos esse encontro com o objeto, com a falta”, etc. Meu ponto é salientar que, culturalmente, existe um paradoxo na nossa formação subjetiva: acreditamos que vivemos a expressão máxima do indivíduo, mas no fundo aproveitamos apenas uma extensão bem limitada dessa individualidade.

Quem sabe até que ponto nossa subjetividade não é, ainda, estruturada por uma visão religiosa do mundo, que recusou, por milênios, justamente o feminino, a possibilidade de aprendizado no prazer e a “desnatureza” do homem (fruto, como disse, da cultura) – isto é, recusou a cultura, em si mesma?

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Poderíamos bem ser, ainda, filhos dessa religião, apenas tendo trocado de “Deus”. O que hoje todos crêem, com crença inabalável, é justamente no “individuo”.

Só que aquilo que chamamos de “individualidade” pode bem ser apenas um modo bem pobre – e aprisionante – de construção subjetiva. Como se, com essa imagem de ‘indivíduo’, nos fosse vendida uma ideia de liberação de todos os prazeres, mas nos fosse entregue apenas um prazer bem pequeno.

É apaixonante pensar nas relações que esse tipo de estruturação poderá ter com a cientificidade de nossa época – também uma espécie de “não-cultura”, na medida em que se centra no objeto ou na realidade, e não nos sujeitos -, com nossa economia – pois indivíduos que desconhecem o potencial de seu prazer podem se dedicar mais ao trabalho – e até com nossa educação – onde o prazer é simplesmente excluído por princípio. Mas isso são temas para outros posts…

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