Individualismo x subjetividade

Em um post anterior, discuti a ideia de que nossa época viveria uma espécie de paradoxo, onde existiria, ao mesmo tempo, uma exacerbação do individualismo – do qual muita gente reclama – e uma falta de individualidade, de sentido pessoal, nas coisas. Hoje quero tentar tornar mais claro esse estado de coisas.

De fato, quando olhamos para a cultura, e em especial para a propaganda, é comum encontrarmos uma exortação do individual. “Seja você mesmo”, “encontre o seu caminho”, “faça do seu jeito”, são motivos comuns nas propagandas, e quase não percebemos que, paradoxalmente, essa exortação do ‘individual’ está à serviço da venda de um produto que, em geral, é produzido em série.

Se o produto não é individual – já que produzido da mesma forma para uma multidão de consumidores – porque a individualidade é utilizada como “isca”? E mais: porque isso funciona? Porque acreditamos que estamos sendo “individuais” quando compramos a mesma calça jeans que milhares de outras pessoas?

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Há muitos fios interligados, na formação desse “nó”. As situações sociais, como geralmente acontece, não são simples. Para começar a “desfiar” o problema, é preciso entender, primeiro, que há uma necessidade emocional importante ligada à ideia de “indivíduo”.

Todos almejamos nossa individualidade, todos queremos expressar nossa singularidade. Isso porque, como já argumentei em outro lugar, realizar algo de nosso mundo interno no social, no nosso entorno, se confunde com o sentimento de “ser”, de estar vivo. É parte de nossa saúde, de nosso funcionamento, que seja assim.

A propaganda, então, simplesmente utiliza algo que é natural a seu favor. No entanto, o que parece contribuir para o sucesso desse tipo de exortação ao indivíduo é que, justamente, o individual parece faltar em nossa sociedade.

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Num belíssimo livro, que não poderia indicar o suficiente [1], Beatriz Gang Mizrahi argumenta que nossa época, ao contrário do que pensam muitos autores, se caracterizaria por um certo desamparo, pela ausência ou falência dos espaços de suporte da cultura ao indivíduo.

Dito de outra forma: estaríamos perdendo os espaços sociais e as práticas vinculares que tornam possível ao indivíduo existir, e em seu lugar estaria surgindo uma sociedade massificada.

O que me chamou a atenção na argumentação de Mizrahi é que ela vincula claramente a falta de suporte social à desestruturação egóica dos sujeitos. Ou seja, sofreríamos uma espécie de mal-formação subjetiva estrutural, cujas raízes se entrelaçam com nossa cultura de diversos modos.

Nossa montagem subjetiva, nossa construção de self, se daria de forma muito precária, muito frágil. Em consequência, poucos de nós conseguiriam alcançar uma individualidade real. E a grande massa dos que não conseguem tornam-se presas fáceis da propaganda. Eles querem ser indivíduos, porque não o são; e a propaganda vende exatamente isso, a promessa de que “comprando tal coisa, seremos mais indivíduos”.

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A individualidade é importante enquanto expressão do meu gesto criativo, do meu mundo interno. A individualidade seria esse encontro entre mundo interno e mundo externo, essa continuidade entre ambos, que me faria sentir que estou vivo na produção do meu entorno.

Isto é, quando há individualidade, a relação com a realidade é sentida como alguma continuidade. O sujeito vive sua subjetividade ao mesmo tempo como algo separado, independente, e como algo vinculado ao ambiente, com continuidades com ele.

E mais: para Winnicott, autor de referência no livro de Mizrahi, quanto mais individualidade, mais essa relação entre separação e continuidade precisa existir. Vale dizer: o sujeito será tanto mais individual e independente, quanto mais puder sentir que há uma continuidade entre ele e seu entorno.

As experiências de continuidade (interiorizadas) permitem que ele “se afaste” e habite uma individualidade em certa medida descontínua em relação ao ambiente. É porque ele interiorizou uma continuidade que ele pode existir como descontinuidade.

Nesse ponto torna-se mais clara a importância dos espaços de suporte sociais: pois como vou me sentir em continuidade com meu entorno, se nada, na cultura, suporta essa continuidade? Esse encontro, essa identidade, entre o que eu sou e os demais?

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Retomando o início do texto, diria que a individualidade real, aquela que pode ser sustentada e integrar-se ao desenvolvimento emocional do sujeito, é um resultado de experiências de convivência, experiências de sentir-se unido, mesclado, interligado, aos demais. Essa individualidade não é necessariamente oposta ao social. É somente a partir dessas experiências de comunhão, que algo como uma individualidade pode acontecer.

Nossa cultura, no entanto, tem se caracterizado pelo esvaziamento dos espaços de convivência (na família, na grupo social, no trabalho), impedindo uma das principais condições para o surgimento do indivíduo.

Por um lado, então, isso que estou chamando de “individualidade real”, falta. Temos poucos indivíduos nesse sentido, isto é, pessoas maduras emocionalmente, capazes de sustentar uma oposição / diferença aos demais sem precisar odiar o outro por isso. O que temos muito, isso sim, é essa “outra” individualidade, que me parece caracterizada justamente pelo abandono do suporte social, pela precariedade da relação ao outro.

O que chamamos de “individualismo”, portanto, me parece apenas a expressão da falta de individualidade e maturidade na relação com o outro. Todos somos ‘individualistas’, nos apegamos ao “nosso”, ao “meu”, justamente porque não conseguimos construir uma relação com o outro que seja estruturante, e me permita estar seguro de meu lugar nessa relação.

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Queremos o que não temos em suficiência. Queremos garantir o nosso lugar, porque não sentimos o nosso lugar como garantido. Precisamos ser ‘individualistas’ porque não construímos nossa ‘individualidade’ o suficiente. O “individualismo” de nosso tempo, portanto, seria uma espécie de sintoma. Ele apenas expressa aquilo que nos falta, que não está bem resolvido em nosso desenvolvimento emocional.

O paradoxal nisso – ou nem tanto – é que a “cura” para esse individualismo estaria justamente no reforço das relações de suporte, de convívio, de apoio; um reforço da relação com o ‘outro’, para que ele pudesse ser, enfim, vivido, integrado, como algo não incômodo. Porque, na medida em que nossa relação com o outro espelha nossa relação conosco mesmo, é claro que em nosso “individualismo” não falta apenas uma boa relação com o “Eu”; falta o “outro” também.

Uma resposta para “Individualismo x subjetividade

  1. Pingback: Nossa cultura dos prazeres – ou a falta dela… | eu(em)torno·

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