Contra-movimentos – 1 : construir-se a si mesmo

Com este post quero iniciar mais uma série. A ideia aqui é criticar movimentos que parecem consenso em nossa cultura, tentar olhar pra eles desde outros pontos de vista. Estreando a série, quero falar sobre algo que me parece muito em voga hoje, embora talvez com outros nomes: a noção de que seria possível – e desejável – uma espécie de construção de si.

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Quando saímos um pouco de nosso mundinho (ou das redes sociais), pode acontecer de olharmos para as pessoas à nossa volta com certa estranheza. E isso nem sempre é ruim. Como dizia Aristóteles, ‘a filosofia nasce do espanto’. E às vezes nos espantamos com nossos contemporâneos.

É que parecemos estar todos mergulhados numa busca frenética por alguma coisa. Comparando nosso modo de vida com sociedades tradicionais, ou com povos do oriente – ou mesmo com nossos avós! -, fica parecendo que algo foi adicionado na cultura. Algo ligado à necessidade, que parece premente, de agir, de construir, de comprar, de melhorar – também a si mesmo.

Para ser claro: não é que a vontade de melhorar, de progredir, tenha sido inventada por nossa cultura. Mas a maneira frenética, obsessiva e quase obrigatória com que isso aparece na cultura, isso sim, acho eu, pode ter sido contribuição nossa.

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A vontade de progredir, creio, é algo natural ao ser humano; parte, talvez, de nossa saúde animal, que sempre nos orientará para o crescimento, para a expansão (da prole, dos alimentos, da proteção, etc). O capitalismo parece ter se aproveitado desse impulso natural para resolver um problema importantíssimo: o do preço.

A questão é a seguinte: dada uma sociedade qualquer, como saber qual preço será suficiente para estimular ao mesmo tempo a produção e o consumo de determinado bem? A questão não é simples, e algumas experiências históricas atestam isso [1].

No capitalismo, a solução encontrada foi deixar que produtores e compradores se entendam, teoricamente sem grandes intervenções estatais no preço. Ou seja, é como se deixássemos a vontade de progredir dos dois lados se chocar, numa espécie de disputa: se algo está muito caro, há menos compradores; se está muito barato, diminuem os produtores. E o preço, ao menos na teoria, tende para um equilíbrio sustentável (do ponto de vista da economia).

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Mas, se o capitalismo tal como o caracterizamos trouxe algumas soluções, ele também parece ser o responsável pelo incentivo frenético do consumo com que abrimos o post.

E aqui as coisas mudam um pouco: pois já não se trata mais de resolver a questão do preço, mas sim de estimular a compra, desvinculando-a inclusive da necessidade do comprador.

Com o quê, o próprio mecanismo de ajuste do preço fica pervertido: ele já não se equilibra mais na necessidade real de quem compra, e passa a ser virtualmente ilimitado, desde que se encontre o incentivo certo. O foco passa da relação entre produção e consumo para a relação entre propaganda e consumo.

Haveria muito para se falar sobre isso, mas queria focar agora em apenas um dos aspectos envolvidos nesse contexto: a noção de que nós mesmos somos um ‘produto’, capaz de ser produzido e vendido a qualquer preço, desde que saibamos nos promover adequadamente.

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Bom… tantas coisas se cruzam, para que essa proposta seja minimamente possível, que é até difícil começar o assunto. Mas o meu ponto, aqui, é tentar diferenciar aquilo que pode ser integrado ao processo de amadurecimento subjetivo, daquilo que seria puramente defensivo.

Mal comparando, vou tentar abordar o que pertenceria ao ‘verdadeiro eu’ do sujeito, em contraposição ao que lhe seria imposto. Ou seja, vou “medir” nossa exortação individualista com a “régua” da teoria do desenvolvimento de Winnicott.

Para esse autor (conforme comentamos aqui), a experiência de “ser” envolve o encontro de um movimento criativo pessoal com algo da realidade que dê continuidade a esse movimento.

A proposta winnicottiana enfatiza menos a verdade subjetiva desse movimento do que as condições para que ele seja vivido como verdadeiro. Dito de outro modo: só será sentido como real, como próprio, aquele movimento que, partindo do sujeito, encontrar uma continuidade real no ambiente.

Com o quê, nossa própria experiência de ‘ser’ depende, em alguma medida, daquilo que encontrarmos fora de nós, no nosso entorno. Guardemos isso: “Ser” depende, em parte, do outro, do ambiente. Não é uma questão que se resolve sozinho.

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E aí o capitalismo e aquele incentivo frenético da construção de si se encontram. Pois todos queremos progredir, todos queremos nos expandir. Todos queremos ser algo mais. E essa busca por ‘ser’, que pode ser natural, encontra em nossa cultura cada vez mais apenas uma única resposta: a do ‘self-made man’, a do ‘faça-se a si mesmo’.

– “Ok, e qual é o problema disso?”, alguém poderia perguntar. O problema que eu vejo estaria menos na coisa em si do que na sua intensidade. Ou seja, a partir do momento em que se torna obrigatório que eu seja ‘a melhor versão de mim mesmo’, como saber se esse movimento é a realização de algo que partiu do sujeito ou é algo que lhe foi imposto pela sociedade?

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Tudo isso poderia ser resumido assim: que outras formas de existência nossa cultura disponibiliza para os sujeitos em sua busca por ‘ser’? Será o sucesso comercial, esse que se confunde com uma ‘venda ótima de si mesmo’, a única possibilidade disponível? Será que o fracasso pessoal, nesse sentido comercial, não pode ser mais verdadeiro, emocionalmente falando? E sendo positiva essa resposta, qual lugar social existe para aqueles que apenas querem “ser” sujeitos, sem necessariamente “ser” um sucesso?

Me preocupa especialmente o movimento já em marcha que pretende esvaziar todo sofrimento de significado, entendendo-o como expressão apenas da falta de esforço nessa construção do “self-made man”. Ou seja, se você está sofrendo, é porque não se esforçou o suficiente para ser um homem de sucesso. Não é porque ‘o sucesso’ comercial não corresponde exatamente àquilo que você busca.

E assim o ciclo se fecha. Porque somos seres sociais. Queremos ‘o sucesso’, isto é, queremos ser valorizados pelos nossos semelhantes. Mas, de novo: até que ponto esse sucesso “pronto”, estruturado pela cultura, corresponde também ao meu movimento pessoal de realização do self?

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Acredito, baseado em minha experiência clínica, que para muitos sujeitos essa ‘obrigação’ de sucesso ‘comercial’ é apenas um substituto precário para algo mais fundamental, mais pessoal, que simplesmente nunca encontrou espaço, não se desenvolveu.

Em geral, essas pessoas só vão se dar conta de que buscaram o objetivo errado quando o alcançam – e não obtém a esperada satisfação. Essa insatisfação com o sucesso, do meu ponto de vista, é óbvia, na medida em que simplesmente não há espaço para o subjetivo nessa busca. E o sucesso, para ter sentido, precisa ser o encontro de um movimento interno com algo real, externo.

É muito diferente, por exemplo, eu ter uma rede de amigos e pessoas efetivamente preocupadas comigo, de eu ter uma “rede” de conhecidos profissionais, que até poderá me ajudar a progredir na carreira, mas que simplesmente não tem relação nenhuma comigo enquanto pessoa. Outro exemplo são as redes socais: não é a mesma coisa ter 300 “contatos” e ter 300 amigos… a relação, na rede social, tende a ser muito mediada, muito simplificada, muito superficial. Como esperar que parte da minha vida pessoal se expresse em meu “sucesso”, se nada dá espaço para esse ‘pessoal’, na cultura?

Minha impressão, para concluir, é que vivemos uma recusa cultural da subjetividade, e o ‘self made man’ é apenas uma das consequências disso, no plano pessoal. Do ponto de vista emocional, o ‘self made man’ é a recusa da possibilidade de amadurecimento, de ampliação do self.

No plano das patologias, o ‘self made mad’ seria análogo ao autista, entendido aqui como o esforço da subjetividade por se fazer sozinha, dissociada do ambiente. E quando isso é pregado como modelo a ser buscado, na cultura, algo de muito errado está acontecendo.

Dessa perspectiva, é como se faltasse, aos sujeitos de hoje, justamente o espaço pessoal. Ou seja, a individualidade estaria em falta, apesar das críticas frequentes ao individualismo. Poderíamos então pensar o individualismo (que existe) como uma espécie de sintoma da falta de lugar para o indivíduo, em nosso tempo? Assunto para outros posts…

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Notas:

[1] Me refiro à desorganização da cadeia de preços, fazendo com que, em dado momento, a produção já não valha mais a pena para quem produz, e ao mesmo tempo tudo se torne caro – ou escasso – para quem consome. Há diversos exemplos na história. Estou me baseando no “Livro Negro do Comunismo”, especialmente a primeira parte, ‘O Braço armado da ditadura do proletariado”, pgs 69-89, publicado pela Bertrand Brasil, 17ª Edição, 2020.

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