O problema da ação moral em psicanálise – parte dois : a identificação

Na primeira parte dessa série, apresentamos uma maneira pela qual o problema da ação moral pode ser lido na psicanálise. Basicamente, haveria uma série de pré-requisitos maturacionais / emocionais, necessários para que um indivíduo possa agir moralmente. Sem esses pré-requisitos, não teríamos ação moral (ao menos não uma ação moral identificada ao self, sentida como própria).

Nos focamos em três desses requisitos: a criação de uma externalidade; a identificação com um objeto; e a preocupação com o mesmo. Ainda no primeiro post, trabalhamos o problema da externalidade e mostramos como, em Winnicott, a resolução dessas três tarefas envolve o trânsito e a manutenção de opostos. Nos apoiamos em Nietzsche para ponderar que isso não invalida necessariamente o argumento.

Nesse post, a ideia é trabalhar um pouco o conceito de identificação.

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A identificação é um conceito fundamental em psicanálise, mas que demorou a ser trabalhado teoricamente. Freud fala dele já em sua correspondência com Fliess, e também n’A interpretação dos Sonhos’, mas é somente a partir da década de 1920, em especial na “Psicologia das massas e análise do Eu” e em “A dissolução do complexo de édipo”, que o conceito recebe tratamento mais consistente. [1]

Em Freud, a identificação é entendida como uma forma muito primitiva de relação com o objeto, a ponto de ser confundida com o investimento (libidinal) no mesmo. Entretanto, no texto sobre o édipo mencionado acima, Freud elenca a identificação como uma das possibilidades de solução do problema edípico, qual seja, quando o sujeito inibe suas tendências libidinais sobre o objeto (os pais), e identifica-se com um deles. [1] Nesse caso, a identificação seria um evento psíquico relativamente tardio.

Seriam esses dois momentos a mesma ‘identificação’? O próprio Freud não estava satisfeito com suas elaborações sobre o conceito (cf, op. cit., pg 365). Na minha maneira de entender a questão, o problema residiria no caráter duplo que a relação com o outro mantém em Freud. Por um lado, o outro aparece como ‘objeto’, isto é, simples suporte de uma pulsão quase autosuficiente. Ao mesmo tempo, o próprio Freud percebe como a relação com o outro tem algo de estruturante, formador, inclusive da pulsão.

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Esquematicamente, diria que Freud parte da ideia de um sujeito já integrado, cuja problemática seria, então, relacionar-se com os outros. Winnicott, por seu turno, partiria de uma situação relacional já estabelecida entre o sujeito e o ambiente, e seu problema seria ‘como constituir um sujeito separado’ a partir disso.

A diferença é enorme, porque enquanto Freud “monta” seu sujeito a partir de pulsões e estruturas quase automáticas, deixando o “outro” como um problema mal resolvido, Winnicott já parte da importância desse “outro”. Ele levará a relação ‘eu – outro’ às últimas consequências, entendendo que não há formação de “eu” sem formação de um “outro”, e vice-versa.

Mas no ponto que nos interessa, sua grande contribuição foi mostrar que ainda antes desse jogo de espelhos que estrutura o “eu – outro” há toda uma montagem subjetiva que mistura ambos os extremos. E é nessa fase do desenvolvimento que se enraíza, entendo eu, a possibilidade da identificação.

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O objeto (o outro) começa como objeto subjetivo, em Winnicott. Isso não quer dizer que ele é percebido como “interior”, porque nessa fase muito inicial ainda não há interioridade. Isso quer dizer, precisamente, que a experiência de “subjetivo” se dá em qualquer parte onde exista uma vivência de integração.

Vale dizer: não é que as coisas com as quais o bebê entra em relação sejam sentidas como ‘internas’; é que o bebê viverá as coisas com as quais se relaciona como parte dele. O “interno” do bebê estará espalhado pelas coisas. A mãe, seus cuidados, o seio, serão vividos como “subjetivos”, como parte do bebê. Ele não separa bem, ainda, o que é “eu” e o que é “outro”.

O que quase equivale a dizer que a identificação é o estado inicial do ser. A essência de nosso sentimento de “sermos” alguma coisa estaria vinculada a essas primeiras experiências onde o gesto espontâneo e algum objeto real se sobrepõe, fazendo com que o bebê viva a experiência como se ele a tivesse criado. Como se ele fosse a experiência.

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O bebê sente um desconforto. Busca, espontaneamente, um “algo”, que ele ainda não sabe o que é, e, nesse momento, a mãe lhe oferece o seio. Para nós, é claro que apenas o desconforto do bebê é interno. Do ponto de vista do bebê, ele “é” a experiência inteira – o desconforto, a busca, o encontro, a satisfação. Tudo isso é integrado, à medida que se repete, como parte, como fundamento, do ‘self’. Diz Winnicott: “o bebê é o seio“.

O que me parece fundamental nessa experiência é a sugestão de que a identificação é anterior ao “eu”. Vale dizer, para que possa se constituir um “eu” no sujeito – e também um “outro” – é preciso, antes, que ele tenha experiências consistentes de “identificação“, isto é, muitas sobreposições entre seu gesto criativo e algum objeto do real.

Essas experiências de sobreposição – essas identificações – é que constituem o objeto como “subjetivo”. E somente após a aquisição dessa “subjetividade difusa”, formada tanto de partes internas quanto externas (do nosso ponto de vista), o sujeito poderia começar a separar, efetivamente, o interno do externo.

Aí, ao “interno” pertencerá o “eu”. O “externo” será o campo do “outro”. Mas ambos, tanto o ‘eu’ quanto o ‘outro’, foram vividos como “objeto subjetivo” na origem.

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Essa primeira experiência de identificação, anterior mesmo à separação entre “eu” e “outro”, seria o que Winnicott chamava de “identificação primária”[2]. Ela seria a base para que, depois da separação entre o “eu” e o “outro”, pudéssemos novamente nos identificar com o outro. Essa identificação, no entanto, não é a mesma da primeira, que fez parte da formação do “Eu”. Agora, já existe um “Eu” separado. Podemos chamar essa segunda identificação de “Identificação secundária”.

Ocorre que, para simplificar a exposição, facilitamos um pouco as coisas. Na realidade, a identificação primária só ocorre quando há facilitação pelo ambiente. Ou seja, é necessário que o gesto do bebê e alguma parte da realidade entrem em relação, e que essa relação respeite os limites estreitos da tolerância do bebê à frustração.

Assim, por exemplo, o bebê só vivenciará a experiência de amamentação como um “eu SOU o seio” se essa experiência corresponder ao seu gesto, tanto de aproximação, quanto de afastamento. Isto é, o ambiente precisa sustentar a ilusão de sobreposição entre os âmbitos interno e externo, adaptando-se suficientemente bem ao gesto da criança. Sem essa adaptação “suficiente”, não há manutenção da ilusão, e a identificação primária com o objeto ficará prejudicada.

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Não é difícil de entender que a identificação secundária com um objeto (por exemplo, no amor ou na amizade) retoma algo daquela co-participação difusa do sujeito no outro (isto é, da identificação primária). o “Eu” nasce a partir de uma diluição no outro. Nesse segundo momento, ele apenas retoma isso. Ele sente o outro com o qual se identifica como parte do “Eu”, e, então, não tem dificuldade em cuidar do outro como cuida de si mesmo.

O que estou tentando dizer é que para poder agir moralmente o sujeito precisa estar identificado com o outro, pelo menos em alguma medida. Quando isso acontece, cuidar do outro é como cuidar de si; queremos o bem do outro como queremos o nosso bem, e, portanto, não sentimos a ação moral como um peso. Ao contrário, desejamos agir moralmente com o outro, na mesma medida em que estamos identificados com ele.

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É claro que, na saúde, essa identificação secundária avança somente até certo ponto, e somos capazes de manter nossa individualidade, o que nos permite traçar alguns limites quanto ao alcance de nossa identificação e de nossa ação moral.

Mas em casos menos favorecidos, tanto pode acontecer de a pessoa nunca ter conseguido estabelecer a identificação primária com o outro, quanto de não ter chegado a se separar do ‘outro’, efetivamente.

Em ambos os extremos, a ação moral ficará dificultada. Seja porque, sem nenhuma identificação, agir moralmente parecerá sempre um peso, uma coerção arbitrária – porque vou tratar bem esse “outro” que não tem nada a ver comigo? Tal ação não poderá ser vivida como parte da subjetividade do sujeito, simplesmente porque sua subjetividade foi “montada” sem esse vínculo ao outro. O extremo oposto também trás dificuldades, na medida em que, misturado ao “outro”, fica difícil ao sujeito separar as demandas que são legítimas de esperar dele, daquelas que não o são. Uma série de conflitos intermediários entre o sujeito e a moral pode se intercalar entre esses extremos.

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Concluindo, a identificação seria um momento fundante do desenvolvimento emocional, com peso decisivo para formar os alicerces que permitem à uma ação moral ser experienciada como parte da subjetividade dos sujeitos. Ela pode ser aproximada do amor, onde parte da identificação primária retorna: todos entenderão que é muito mais fácil cuidar de um sujeito que eu amo, em comparação a cuidar de pessoas que não tem nenhuma ligação comigo.

Caberia questionar até que ponto nossa cultura individualista reprime essa possibilidade de identificação com o outro, dificultando a ação moral em seus fundamentos.

Por fim, é claro que, em complemento à essa moralidade integrada à subjetividade, existe a moralidade imposta, aquela que é esperada pela sociedade, e que não depende de nosso nível de identificação. São situações exteriormente semelhantes, mas inteiramente diferentes do ponto de vista subjetivo.

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Notas

[1] Estou me baseando no “Dicionário de Psicanálise” de Elisabeth Roudinesco e Michel Plon – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. O verbete “identificação” encontra-se nas páginas 363/366.

[2] Conforme Elsa Dias de Oliveira, em “A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott”, 4. ed. São Paulo: DWW Editorial, 2017. pg 144

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