Notas sobre o autismo : a integração corpo / mente

A morte do pensamento é a certeza; muitas vezes, a dúvida nos leva mais adiante. No caso do autismo, dúvidas e certezas se encontram. Teorias, temos aos montes : desde falhas na formação da “teoria da mente”, até algo relacionado aos “neurônios-espelho”, sem esquecer a inescapável hipótese, tão ao sabor de nossa época, de que tudo se remeta a um problema neuronal, cerebral.

Temos também as hipóteses psicanalíticas, que não perdem em nada em termos de exotismo. Para alguns, parece ser um problema relacionado a ‘inscrição do significante primordial’; para outros, haveria uma falha no encontro do circuito pulsional com o corpo. Outros, ainda, não diferenciam o autismo da esquizofrenia infantil (como parece ser o caso de Winnicott).

Não podemos excluir nenhuma dessas hipóteses, enquanto não soubermos mais sobre o assunto. O exotismo não é um critério de escolha – ou de recusa -, tampouco a lógica ou a capacidade explicativa. O que conta é a efetividade, a capacidade da teoria de nos aparelhar para uma efetiva mudança.

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É preciso dizer que a psicanálise foi uma das primeiras (senão a primeira) corrente psicológicas a lidar com o autismo, alcançando em alguns casos algo compatível com o que chamaríamos de cura. Melanie Klein é um caso emblemático, tendo publicado ainda em 1930 – antes, portanto, da proposição do termo “autismo” por Kanner, em 1943 -, o “caso Dick”, um dos mais famosos relatos de tratamento de um paciente que poderia ser diagnosticado como autista.

Mais recentemente, Maria Izabel Tafuri ofereceu um belíssimo relato do tratamento de uma menina com todas as características de autismo de grau severo (nível 3) alcançando, também nesse caso, algo muito próximo do que chamaríamos de ‘vida normal’.

É preciso ter cautela com esses sucessos. Tafuri mesmo relata não ter conseguido sempre o mesmo tipo de resultado[1]. É possível – e mesmo provável – que o diagnóstico varie, agrupando sujeitos em condições muito diversas sobre a mesma designação de “autismo”. Podemos pensar ainda em diferentes causas, com diferentes possibilidade de tratamento, sendo agrupadas sob a mesma designação, etc. Portanto, cautela com as conclusões.

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Nesse post, gostaria de registrar alguns traços que minha experiência com autistas tem corroborado, organizados em torno da questão corpo / mente. São pequenos fragmentos que parecem se repetir, e me permitem supor uma certa gestalt, uma certa organização, sempre resguardando a necessária cautela mencionada acima.

Assim, muitos autores relatam, e minha experiência confirma, algo que poderíamos chamar de dissociação – ou não integração – entre o mental e o corporal. Com isso estou designando a dificuldade que o autista parece ter para experienciar e integrar, do ponto de vista subjetivo, aquilo que acontece no corpo.

Eis alguns exemplos: uma paciente relata ter tido uma crise de choro, numa situação de trabalho tensa. Passados alguns minutos, sua mente já tinha se recuperado – palavras dela – mas seu corpo ‘continuava chorando’. Ela (isto é, sua mente) queria parar de chorar mas não conseguia, e assim precisou esperar passar aquele processo todo (que ocorria em “seu” corpo).

Em outro exemplo da mesma paciente, ela apresentava um jogo para um grupo de colegas, e “acha” que ficou ansiosa, porque percebeu (depois, vendo uma filmagem) que começou a tirar a roupa, a suar, ficar vermelha, etc. Mas no momento não vivenciou, não integrou, essa situação corporal.

Outros relatos comuns são os de não percepção de uma situação do corpo: o paciente pode estar fazendo uma atividade numa postura extremamente desconfortável, mas não estar percebendo seu próprio incômodo. Em geral, outras pessoas percebem a situação e a informam ao paciente, que só então se dá conta do próprio sofrimento. Isso parece ser comum nas situações onde o paciente se foca numa tarefa (mentalmente, eu diria).

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Nesse mesmo grupo eu incluiria as dificuldades de elaborar as experiências corporais. Por exemplo, uma paciente relata que, quando não se sente bem fisicamente – dor de barriga, etc – percebe que precisa empregar uma atenção gigantesca sobre as percepções do corpo, o que comumente lhe deixa com dor de cabeça e impossibilitada de fazer outras coisas, tamanho o esforço necessário. Sua atenção entra numa espécie de ‘circuito fechado’ interno, por assim dizer, onde simplesmente não há lugar para percepções relacionadas ao mundo externo.

Outro exemplo da mesma paciente é ainda mais claro: em momentos de estresse emocional ou fadiga mental intensa, qualquer estímulo, mesmo uma simples frase do marido, ou a necessidade de olhar pra ele quando ele pergunta algo, já são sentidas como ‘excessivas’. Minha impressão é que os ‘estímulos sociais’ são mais desgastantes, mas mantenhamos a noção geral de que qualquer estímulo percebido pelo corpo (olhar, escutar, etc) não encontra ‘espaço mental’ para sua elaboração. Ela então se fecha em seu quarto, apaga as luzes, e fica algumas horas assim, protegida, separada, do mundo e suas demandas.

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Nos exemplos acima, parece que a ‘conexão’ com o corpo só se dá através de um esforço dirigido, consciente. Muitos relatos de autistas vão nesse mesmo sentido (ver autobiografia de Naoki). O corpo muitas vezes não é vivido como algo “próprio”, isto é, integrado à personalidade, à subjetividade. É como se a subjetividade tivesse se estruturado em uma direção, isolada, separada, do corpo.

Isso é tanto mais surpreendente quanto, para um autor como Winnicott, a psique seria o resultado da elaboração imaginativa do corpo. Ou seja, o que esse autor chama de “psique” seria o resultado de experiências do corpo, integradas pela elaboração imaginativa.

Nos casos de autismo leve, onde o sujeito fala e parece existir uma personalidade, o enigma fica ainda mais completo, porque mesmo nesses sujeitos – e os exemplos acima são todos de pacientes diagnosticados como Asperger – o corporal e o subjetivo parecem não estar conectados, integrados.

Então, das duas, uma: ou o que esses pacientes constroem não é o mesmo que Winnicott denominava “psique”, ou Winnicott estava errado.

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Relembrando a necessidade de cautela que mencionei acima, gostaria de fazer uma distinção, que poderia integrar a posição de Winnicott com nossa experiência em relação aos autismos. Bastaria, de fato, fazer uma distinção entre o self enquanto resultado da integração, e o self ainda inicial, incipiente, que poderia estar em ação no momento de defesas muitíssimo precoces, como as que poderiam estar relacionadas com o autismo (estamos falando em semanas, dias, de vida).

De fato, para Winnicott, o “self” seria um resultado da integração das experiências do corpo no encontro com o ambiente. Mas, quando esse encontro se dá, por qualquer razão, de maneira traumática, o “pré-self”, ou seja, o self ainda incipiente, poderia se defender do ambiente, apesar de sua imaturidade, mobilizando defesas muito primárias, pouco elaboradas.

Bastaria pensar, então, que no autismo, não temos, em geral, integração da psique com o corpo (e, logo, não temos propriamente “self”) porque os rudimentos do self foram obrigados a rejeitar o ambiente em alguma medida. E a integração da psique com o corpo se dá ancorada na relação com o ambiente. Assim, quanto maior a rejeição do ambiente, menor a integração do corpo com a psique[2]; logo, menor o “self”, e mais severo o autismo.

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Poderíamos pensar que o autismo severo, de nível 3, seria aquele onde as defesas foram tão cruas que toda relação com o ambiente foi cortada. O sujeito parece se defender literalmente do ambiente; e reforça sua recusa ao mesmo por uma série de sintomas. Autismos mais leves, como o Asperger, seriam aqueles onde alguma integração corpo – psique ocorreu, mas esse processo parou no meio do caminho, sendo substituído por formações defensivas, geralmente ligadas a um uso intensivo e precoce do pensamento.

Nesse sentido, a personalidade que se forma nos autismo leves seria, talvez, algo próximo daquilo que Winnicott chamava de “falso self” [3], ou seja, uma parte da subjetividade integrada, mas separada do todo, e formada justamente como medida de proteção contra o ambiente, em defesa do núcleo do self, que continua vivo, mas isolado.

Um fato que pode apoiar essa linha de entendimento é que meus pacientes Asperger sonham, e seus sonhos parecem manter a mesma função que Freud atribuiu ao sonhar em geral, ou seja, a de elaboração das experiências psíquicas.

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Um dos pacientes, num momento de extremo esgotamento físico e mental, que ele ativamente negava, sonhou que estava num ambiente de guerra, cheio de percalços, e de que precisava descansar. O sonho parece ter sublinhado essa necessidade de descanso, mas o paciente optou por não dar atenção a isso, e acabou internado, provavelmente devido a um burnout.

Caberia perguntar “quem”, qual instância psíquica, elaborou esse sonho, tão ligado, como geralmente acontece, com as circunstâncias atuais vividas pelo sonhador? Na medida em que supomos um self pouco desenvolvido, e uma psique em dissociação com as experiências do corpo, ficamos sem respostas claras para essa pergunta.

Uma ideia possível seria atribuir o sonho a essa pequena faixa de integração que ocorreu, e que permitiu a formação do ‘falso self’, como supomos. Outra ideia ainda seria pensar o sonho como resultado da integração ocorrida no corpo, a despeito da pouca conexão deste com a psique. O fato de os sonhos ocorrerem inclusive entre os animais deve ser suficiente para nos sugerir que sonhar não demanda uma integração psíquica enorme. Mas isso, como quase tudo nesse texto, são apenas ideias. Cautela com elas.

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[1] TAFURI, Maria Izabel: “Dos Sons às Palavras: explorações sobre o tratamento psicanalítico da criança autista”. ABRAFIPP, Brasília, 2003

[2] A integração do corpo com a psique seria sempre facilitada pela relação com o ambiente, a ponto de ser possível dizer que, no início da vida, o ambiente é a psique da criança.

[3] O “falso self” seria “falso” não porque formado de partes sem relação com a personalidade “real”, mas porque formado justamente sem ligação com as experiências concretas do corpo. Ele pode ser pensado como um duplo, uma cópia, de partes da personalidade, que a espelham, nesse sentido, mas cuja função não é integrar a personalidade inteira, e sim a defender, colocando-se como anteparo em relação à realidade.

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