Amor : o encontro da falta com o excesso

Num de seus textos mais famosos, Platão narra um banquete que reuniu alguns dos filósofos mais prestigiados da época em torno da questão do amor. Ao lado de muitas concepções profundas e longevas – algumas das quais persistem até hoje -, a resposta de Sócrates se coloca como um algo estranho; como um questionamento.

Minha ideia nesse post é comentar essa estranha resposta socrática, e fazer algumas pontes entre ela e a psicanálise (aqui um bom resumo do texto platônico).

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Pois bem: o cenário do livro (que, aliás, se chama “O Banquete”) é justamente esse: um figurão da cidade convida um grupo de filósofos para banquetear. Pelo que me consta, o costume da época incluía que os convidados retribuíssem o convite embelezando o jantar. No caso dos filósofos, essa retribuição se dava, claro, pela beleza de seu discurso.

Temos, então, a narração de cada uma das falas, e Lacan fez uma bela leitura desse texto (no Seminário 8) explicitando suas várias implicações tanto para a história da cultura quanto para a psicanálise.

Segundo conta minha memória (nem sempre confiável), as narrativas são interrompidas pelo aparecimento abrupto de um jovem aristocrata (Alcibíades), o qual, aparentemente, estava apaixonado por Sócrates. Sentindo-se ‘escanteado’ pelo filósofo, o rapaz irrompe na cena buscando ‘causar’, e Sócrates se aproveita disso para iniciar sua narrativa.

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E o faz a seu modo: primeiro trata de mostrar, pelo diálogo, como o amor, enquanto desejo, é sempre desejo de algo que falta ao sujeito. Nesse sentido, ocupa um lugar intermediário. O amor é um daimon, dirá Sócrates, um Deus intermediário, uma potência entre os homens e os deuses

Assim, por exemplo, o amor não é o belo, na medida em que aspira ao belo (e, portanto, o belo lhe falta, segundo a lógica socrática). O próprio do amor seria fazer justamente a intermediação entre o sujeito e a beleza. Isto é, o sujeito que ama tem o desejo da beleza, justamente porque ela lhe falta; o belo em si mesmo tem a beleza, mas não o desejo de ser belo (porque já o é). O amor seria a ponte entre esses dois extremos: um sujeito que deseja o belo que não tem, e um objeto que tem a beleza mas não o desejo (a falta).

Isso fica mais claro com a narrativa que Sócrates atribui à Diotima, uma velha sacerdotisa, a qual teria definido o amor através do mito: o amor, segundo Diotima, teria sido concebido no aniversário de Afrodite (ligada à beleza e ao sexo), através da união entre o Deus Póros (recurso) e Pênia, uma jovem mendiga, ligada no mito à pobreza (isto é, à falta).

Assim, ele seria por natureza ligado ao sexo e à beleza (já que concebido no aniversário de Afrodite), ao mesmo tempo que ocuparia um lugar intermediário justamente pela disparidade de seus pais: Póros (recurso, excesso), um Deus ligado à riqueza de meios, e Pênia, uma jovem mendiga, simbolizando aqui justamente a penúria de meios, a precariedade.

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As imagens do texto platônico são tão ricas, que seria possível comentá-las por uma eternidade (de fato, elas estão sendo comentadas a uns bons 2.300 anos…). Mas aqui gostaria de enfatizar apenas um aspecto dessa definição do amor proposta por Sócrates.

É comum ligar o desejo como ‘falta’ ao discurso psicanalítico, porque Freud também foi levado a entender o desejo como uma expressão de um objeto faltante (impossível de [re]encontrar). O que gostaria de salientar, no entanto, não é isso, mas sim o papel de complementariedade que o texto platônico atribui ao funcionamento do amor.

Existe uma diferença entre os dois atores do processo: um, aquele que ama, deseja no outro o que não tem (a beleza, no nosso exemplo). Mas o outro, possuidor do que o primeiro deseja, não tem no entanto, o desejo. Logo, pela lógica socrática, desejará o desejo que não tem...

Assim, embora ambos não desejem a mesma coisa, ambos desejam, ambos são ‘faltantes’, um em relação ao outro. O amor seria essa experiência de encontro entre duas faltas díspares, completadas ou ‘saciadas’ no outro.

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O que liga os amantes é, ao mesmo tempo, a ausência de algo que o outro tem – a beleza, em um, e o desejo, em outro – e a presença de algo que o outro quer. O amor seria, assim, literalmente, filho de Recurso e Penúria, Póros e Pênia.

Ambos os extremos já foram utilizados para pensar o amor. Existe, como já mencionei, uma ligação meio ‘fácil’ entre psicanálise e falta, assim como existe uma vinculação do amor com o excesso, como na esquizoanálise. Nesse último caso, amaríamos como um excedente de potencia.

Os leitores mais antigos do blog perceberão onde eu acho que se situa a resposta mais apropriada: justamente entre os extremos, como queria a narrativa d’O banquete. É verdade, como querem alguns psicanalistas, que o amor é vivido como falta, e que a falta de algo nos move, nos faz desejar. Mas também é verdade, como dizem os esquizoanalistas, que a falta por si só não é suficiente: é preciso construir uma estrutura que suporte essa falta, e essa construção se dá por excesso, por encontros…

Usando uma analogia, uma pilha não sente o ‘desejo’ de ser carregada apenas porque lhe ‘falta’ energia. A falta em si mesmo é um processo positivo, o resultado de uma construção complexa, e não a simples expressão de que algo falta.

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Essa ideia do amor como complementariedade me parece algo extremamente oriental. O ocidente tendeu, na história, a vincular o amor ou à falta, ou ao excesso, dando pouca ênfase ao caráter de precariedade que ligaria o amor ao mesmo tempo a ambos.

Assim, o amor cristão vincula-se à uma ideia de completude do homem com Deus, deixando na sombra a necessidade que Deus teria de ser amado pelos homens. Num certo sentido, portanto, a relação do homem com Deus é uma relação de exclusão do outro, na medida em que Deus não é um ‘outro’, não é um igual. Guardo para um momento futuro a apreciação do peso que isso pode ter para nosso presente, tão marcado pela ausência – e idealização – desse ‘outro’.

É quase desnecessário dizer, para encerrar, que Winnicott se situa justamente nesse ‘entre’ que a tradição socrática desvelou. Ele seria, então, uma espécie de ‘retorno ao oriente’, à uma concepção mais oriental do ser humano. Mas falaremos sobre isso em outros textos…

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