Psicanálise, ciência e introspecção : os neurônios-espelho

Relendo estudos sobre os neurônios-espelho (aqui e aqui alguns deles) fui naturalmente levado a pensar sobre a questão da dualidade corpo x mente, ou, para dizê-lo de outro modo: sobre o problema da hipótese da ‘psique’ ou ‘mente’.

De forma simples, essa hipótese diz que, para além das estruturas que possamos ter em termos biológicos ou cerebrais, existe uma ‘mente’ ou uma ‘psique’ que não se confunde com isso, e que teria a ver com outros âmbitos da nossa experiência.

Assim, por exemplo, temos estruturas cerebrais relacionadas à linguagem. Mas elas não funcionam sozinhas; não são suficientes para que a linguagem se produza. Para isso, é necessário que a criança humana tenha experiências linguísticas, seja mergulhada num ambiente de linguagem. Então, e só então, a função se completa, e a linguagem se produz.

Para além desse aprendizado social da língua, existe ainda o modo específico como o uso da função se relaciona com o self do sujeito. Esses dois aspectos, especialmente o último, caracterizam o “essencial” daquilo que chamamos de ‘mente’ ou ‘psique’, na minha leitura.

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Isso pode parecer irrelevante à primeira vista, mas muda de aspecto quando nos damos conta de que, por mais sofisticadas que sejam as estruturas cerebrais / corporais de que dispomos, elas em geral estão colocadas “à disposição” de uma estrutura psicológica, encarregada do “comando”, e até da formatação, da função.

Dito de outra forma: a natureza parece ter pretendido deixar a finalização de uma série de capacidades biológicas em aberto: ela poderia ter construído uma linguagem “padrão”, que não precisaria ser aprendida. Ela poderia ter determinado biologicamente o que iríamos comer, ou como iríamos caminhar. Mas nada disso existe. Precisamos aprender. Precisamos entrar numa relação social, onde a função já existe e é desempenhada de uma maneira específica, para então “aprendermos” a desempenhar a função.

Vale dizer: a função só se completa numa relação social. É o ‘outro’, são as formas da cultura, que vão nos permitir dar o formato final ao desempenho de uma série de funções. E quando essa aprendizagem, essa estruturação relacional, falha, a função inteira pode desandar.

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Uma vez que o desempenho das funções está “aberto”, isto é, incompleto, demandando um relacionamento com o ambiente para se “completar”, inserimos na fisiologia da função uma indeterminação. Ela já não é um mecanismo de ação fechado, independente e autônomo; ela precisa de uma relação com o ambiente, que por sua vez também não é estático, definitivo.

Isso faz com que, à medida que as funções se abram para esse indeterminado, também sua integração precise levar em conta a indeterminação. Quer dizer, a instância que organiza e unifica essa várias funções – que, aqui, será igualada ao EGO – também precisa ser uma instância aberta.

Disso se depreende que nosso EGO precisa ser ao mesmo tempo um reflexo daquilo que nós somos / vivemos – e aí se incluem as funções semi-automáticas, as emoções & memórias, etc – e desse ambiente onde “completamos” o desempenho da função. Dito de outro modo, um reflexo do estado do nosso corpo e dessa abertura ao ‘outro’, ao indeterminado.

Isso explica também porque muitas funções complexas não se desenvolvem à contento quando essa “finalização” da função – sua relação com a mente e com o grupo social – não ocorre de maneira satisfatória. A mente pode parecer pouca coisa diante da complexidade gigante do corpo, mas ela tem sua importância. É como o ponto final de uma frase; é apenas um ponto, mas muda tudo, dependendo do lugar aonde for colocado.

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Voltando, então, ao início do texto, diria que há, sim, uma dualidade corpo x mente – pelo menos fenomenológica. Não sabemos ainda o suficiente para dizer que isso corresponde à alguma divisão no ‘em si’ do corpo, mas essa dualidade nos autoriza a sempre questionar, para cada estrutura do corpo, como a mente se relaciona com isso.

É o mesmo que dizer que a mente não está dada no corpo. Isto é, que existe um “para além” daquilo que está configurado nas estruturas corporais. Esse para além, na leitura da psicanálise, seria a relação ao outro, a relação com o ambiente. Nesse “entre”, nesse meio do caminho ‘eu – outro’, estaria a mente ou psique, essa instância encarregada de organizar as funções do corpo em função daquilo que foi aprendido no ambiente.

Assim, não admira que existam desencontros, desentendimentos entre a psicologia (e a psicanálise) e a neurologia, ou o estudo das estruturas cerebrais. Simplesmente, eles muitas vezes não estão estudando o mesmo objeto. Por outro lado, é claro que existem pontos de sobreposição entre o cerebral e o psicológico. Não temos como saber de saída o quanto do psicológico corresponde à funções cerebrais ainda não conhecidas, ou vice-versa.

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É interessante perceber, para concluir, como nossa cultura parece ter dificuldade de aceitar a importância da relação com o ‘outro’ quando isso é apresentado como um dado psicológico, mas aceita o mesmo paradigma sem dificuldade quando ele aparece como resultado dos “neurônios-espelho”.

Não quero, com isso, desvalorizar a descoberta de estruturas cerebrais que suportam experiências já altamente valorizadas na psicologia. Meu ponto aqui é que não precisamos ter medo da introspecção, como um dos meios de se adquirir conhecimento sobre o ser humano.

A psicanálise é uma mistura de elementos da introspecção, teorias do funcionamento mental e uma constante avaliação da própria eficácia no consultório. As descobertas sobre o cérebro podem sim, no longo prazo, provocar alterações nesses elementos, mas sua experiência continuará válida.

Ter provocado uma alteração benéfica no paciente não é um dado irrelevante, por mais que nossa explicação desse fenômeno seja falha. Nosso contexto cultural parece trabalhar no sentido de desvalorizar inclusive aquilo que o próprio sujeito sente, se isso não está validado pelas ‘estruturas cerebrais’. É preciso cuidado com o dogmatismo das teorias psicanalíticas, sim. Mas também precisamos nos precaver de cair no dogmatismo oposto –

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