A psicanálise como uma estética da existência & a sexualidade

Este blog surgiu como uma experiência de expressão, um lugar para dialogar, expôr minhas ideias, minhas percepções. Mas nada me obriga a defender um ponto de vista, uma teoria. E apesar de eu sempre falar bem da psicanálise, isso não significa que eu não tenha minhas críticas, ou meu próprio ponto de vista. Procuro defender/expôr aqui a minha visão da psicanálise, não a psicanálise em si.

Dito isso, procuro me orientar sempre pelas minhas experiências. Aquilo que vivo na clínica (e também na vida particular) tem um peso enorme sobre aquilo que penso. Procuro estar sempre pronto para abandonar um ponto de vista quando uma experiência se impõe, mesmo que toda experiência demande, também, uma interpretação teórica. Mas isso é assunto pra outro dia.

Minhas experiências atuais têm me feito pensar bastante na psicanálise enquanto uma estética da existência. Mas o que quer dizer isso?

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Todos temos necessidade de nos alimentar. Mas o que comemos para atender essa necessidade varia enormemente. Em diversas culturas, a alimentação em si mesmo deixa de ser apenas uma necessidade, para se tornar um prazer. Ou seja, já não comemos mais apenas para matar a fome, mas também visando um certo prazer estético, vamos dizer assim.

Então, comemos tal coisa no contexto de uma história gastronômica; provamos sabores diferentes, modos de preparo diferentes, e a satisfação que derivamos disso não se resume àquele “matar a fome” inicial, mas está ligada à esse “para além” da cultura, que adiciona à satisfação da necessidade uma camada à mais de “sabor”.

Essa complexificação da satisfação básica, essa gourmetização ou sublimação, como diríamos em psicanálise, de um impulso inicial, estou chamando aqui de estética, por motivos que tentarei explicar em outro post.

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O vinho é outro exemplo claro. Bebemos provavelmente pelo prazer associado à embriaguez, pelo relaxamento das inibições sociais, pelas experiências que isso nos proporciona, etc.

Mas existe também uma forma de beber o vinho que não se liga apenas com isso, mas que admite uma “estetização”. E então vamos aprendendo a perceber o vinho num contexto mais amplo, onde os vários “terroirs”, a história de cada safra, as experiências compartilhadas dos vários enólogos mundo afora, tudo isso conta.

“Estetizar” a experiência tem a ver, então, com esse “à mais” que é adicionado à experiência inicial, fazendo com que à satisfação das necessidades se some uma série de outros componentes não incluídos na experiência inicial. Comer ou beber sem estética continua possível, mas para quem “estetizou” sua experiência, parece um pouco pobre.

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Pois bem. Penso que a psicanálise também pode estar à serviço de uma estetização. Nesse caso, de uma estetização da existência. Acredito que ela contém uma terapêutica ligada à faltas estruturais da subjetividade, e, nesse sentido, que ela atende a uma necessidade básica dos sujeitos. Embora existam discussões em torno disso, podemos dizer que ela se propõe a curar doenças.

Mas ao lado ou para além disso, existe também um uso estético da psicanálise, similar àquele que exemplifiquei para a comida e para o vinho. Ou seja, para muitos sujeitos, a psicanálise acaba sendo um caminho para a gourmetização da própria existência, para a fruição de ‘notas’ no existir que não seriam possíveis fora dessa aprendizagem estética.

Num sentido mais básico, então, a psicanálise permitiria chegar à uma vida “normal”, uma vida de sofrimentos e potencialidades comuns. Mas, num sentido ampliado, ela também nos permitiria ir além, e saborear a vida de um modo complexificado.

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Acredito que nesse segundo sentido ela acabe dividindo espaço com muitas outras tradições, como a religiosidade ou a filosofia. O oriente é especialmente rico nessas tradições, que, por questões históricas, encontram-se um pouco esvaziadas no ocidente.

É possível pensar, inclusive, que a psicanálise deve parte de seu sucesso ao fato de ter se ligado à sexualidade. Essa experiência foi insistentemente recusada pela nossa cultura, em especial pela religião, e apesar de hoje estar bastante mais presente, essa presença tem mais a ver com banalização do que com estilização, no sentido apontado acima.

Práticas como a do sexo tântrico exemplificam a distância que nos separa de uma vivência estetizada do sexo. E a psicanálise, a seu modo, pode ser compreendida como um “retorno ao oriente”, um convite à estetização da existência – e, porque não, do sexo – que, do ponto de vista da nossa cultura atual, não é nada menos do que revolucionário.

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Retomando a crítica do inicio do texto, estudar as práticas de outras culturas, em contraste com a pobreza cultural que nos caracteriza, envolve uma série de dificuldades para o psicanalista. Em especial, saber até que ponto a psicanálise seria possível (ou mesmo necessária) numa cultura mais permissiva.

Sendo rigoroso, toda verdade, mesmo a científica, precisa de um contexto específico para funcionar. Há pouca utilidade para o conhecimento da eletricidade numa sociedade pré-industrial, por exemplo. Talvez o mesmo valha para a psicanálise: mesmo verdadeira, é possível que sua utilidade esteja ligada a um estado muito particular da cultura – a uma certa pobreza de meios, que simplifica, por um lado, as complexidades da alma, enquanto intensifica, por outro, suas mazelas.

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