A pobreza da cultura atual. Crítica do cientificismo.

Muito do que somos, como pessoas, deriva daquilo que foram nossos pais. Seja porque herdamos deles modelos, seja porque reagimos a eles, seja, ainda, porque eles nos forneceram os elementos com os quais construímos nosso próprio comportamento.

Podemos aplicar o mesmo raciocínio à cultura. Assim, é possível entendermos que nosso cientificismo atual seja uma espécie de reação à visão de mundo religiosa de onde ele saiu. Vale dizer, a religião seria “o pai” ou “a mãe” da ciência – que seria, nesse exemplo, um filho algo rebelde…

Porque a religiosidade cristã pode ser caracterizada por um humanismo ingênuo. Tudo, qualquer acontecimento, era referido à uma “vontade de Deus”. E todos entendemos o que é uma “vontade”. Isso nos permitia dar significado à qualquer acontecimento – mesmo que fosse o significado errado. Mas tudo tinha sentido – e sentido humano.

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A ciência se rebelou contra isso. Procurou excluir do conhecimento o aspecto “humano”, e se esforçou ao máximo para apreender as relações “em si”, naquilo que elas são, independentemente da presença ou significação humana disso.

Assim, para comparação, uma sentença científica típica seria algo como “um terremoto é o resultado da acomodação das placas tectônicas”. A sentença religiosa correspondente poderia ser: “um terremoto é o resultado de um castigo divino”.

Perceba que a sentença científica não tem relação alguma com seres humanos. Funcionaria tal e qual num mundo onde nem mesmo existisse vida. Mas, principalmente: ela não nos dá elementos para que possamos estabelecer uma significação pessoal, individual, com o fato. Com a sentença religiosa estabelecemos um vínculo muito mais fácil. Todo mundo entende (emocionalmente) o que é um castigo.

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A morte é outro exemplo: por mais abrangente ou exata que seja a definição científica de morte, ela sempre vai estar referida à morte em geral. Ela não diz nada sobre a morte de uma pessoa querida, próxima; ela não me ajuda a estabelecer um significado pessoal com esse fato difícil.

Já a religião atuava melhor nesse aspecto, facilitando justamente o aspecto emocional, pessoal, da perda. Pois se a pessoa querida faleceu porque foi chamada por Deus, fica mais fácil lidar com a dor, especialmente se isso é compartilhado na cultura. É mais fácil entender a morte quando ela representa que um Deus “quis” a pessoa perto de si. Especialmente se nós sofremos porque também queríamos aquela pessoa conosco.

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O ganho que tivemos com o advento da ciência é óbvio. Mas a perda no simbolismo individual também é óbvia, ao menos para quem olha pra isso. Podemos entender que a religião cumpria um serviço essencial à cultura, que é o de fazer a intermediação entre nós e as coisas. Com a perda de seu lugar social, ficamos órfãos de ferramentas culturais que nos ajudem nessa intermediação.

A ciência provavelmente nunca vai ter respostas para coisas como “qual o sentido da vida”, simplesmente porque essa pergunta expressa muito mais um aspecto da experiência humana do que algo da realidade “em si”. E mesmo que a ciência encontrasse essa resposta, ela ainda seria referida à vida em geral, e não à minha vida singular, particular.

Entretanto, as perguntas e as angústias relacionadas à singularidade continuarão aí. E o que, em nossa cultura, nos auxiliará a criar respostas para isso?

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Meu ponto aqui é que, por mais benefícios que a ciência tenha trazido, ela não pode ser a resposta pra tudo. Não basta que saibamos a verdade. Talvez, mesmo, nosso intelecto não tenha sido criado para saber a verdade (é a aposta de Nietzsche, por exemplo). Precisamos também de um sentido pessoal para as experiências maiores da vida. E nada, repito, na nossa cultura, nos ajuda com isso.

Não passamos nem perto dos orientais, com sua miríade de suportes culturais para tudo, do sexo à morte, passando pelo nascimento, pelo envelhecimento, pela pobreza, pelo sofrimento… Pretendemos ver as coisas “pelo que elas são”, em sua crueza “científica”, e então acabamos não estabelecendo relação pessoal nenhuma com elas. Que outra relação é possível estabelecer com um “fato”, que não a submissão?

Winnicott era muito claro nesse ponto. “A realidade é um insulto”, ele dizia. Não estamos preparados, do ponto de vista emocional, para lidar com a realidade. É algo que fazemos com esforço, com sofrimento, e não deveria – ao menos acho eu – ser nossa única alternativa cultural para encarar a vida.

Talvez estejamos doentes de cientificismo, como estivemos doentes, antes, de “religiosismo”. E a psicologia seria um dos caminhos para nos devolver algo que, afinal, sempre existiu na cultura: o nosso sentido pessoal. Pois do ponto de vista da psicologia é obvio que isso é necessário, fundamental. Mas muitas vezes é o óbvio que precisa ser dito –

2 Respostas para “A pobreza da cultura atual. Crítica do cientificismo.

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