Ay, este azul – Mercedes Sosa

Deleuze, em “Crítica e Clínica”, propõe que o escritor escreve para um povo “porvir”, um povo que falta. Longe de a escrita ser apenas sublimação, uma transformação do passado pessoal, ela remeteria ao futuro de um povo, a um ‘por fazer’, a algo que se constrói, e se realiza, na obra mesmo. Escrever seria realizar um pedaço de um futuro no agora, no presente.

É assim que escuto Mercedes Sosa. Muitas de suas interpretações dão voz à um povo ‘porvir’ – que, numa leitura, seria a América Latina enfim unida, a transposição desse passado ameríndio, em sua mistura única do espanhol, do português, do indígena, do negro e desse tipo singular, tão ligado à terra, o gaúcho.

Numa outra leitura, a utopia cantada por Mercedes é o entendimento entre os homens, esse momento em que as pessoas se encontrariam, se ajudariam, se completariam. Não mais um homem contra o outro, não mais discórdia, competição, mas um viver comum.

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Essa utopia, essa cidade porvir, convive, em todo aquele que a almeja, com a triste percepção de que o material humano disponível é ainda muito fraco, muito frágil. O homem necessário para construir essa cidade do futuro ainda não existe. Cabe à música, à arte, aproximar esse sujeito da utopia ao sujeito existente.

Daí o tom nostálgico, as vezes triste, dessas músicas. Atahualpa Yupanqui é o parceiro, filósofo & artista, de Mercedes, nesse trabalho de sonhar o futuro. Em outros posts quero trazer algo de seu trabalho, essa mescla de esperança e um certo sabor amargo, que todo aquele que percebe o tamanho da empreitada entenderá.

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A cidade que Mercedes canta é “este azul”, espécie de reflexo do azul que certas manhãs nos trazem, o azul que colore a bandeira Argentina, seu país de origem, mas também um azul que “é um niño talvez”, uma criança, um futuro que vem, cheio de promessas.

“Azul” como uma miragem, mas também um horizonte, uma meta, a direção para onde poderíamos ir, talvez. Um novo dia, que amanhece, e a tristeza de já estar ali, de se sentir transportado para lá, pela arte, mais a solidão que acompanha o artista nesses longes –

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Segue a gravação de Mercedes, e, abaixo, uma versão, minha.

https://drive.google.com/file/d/1k-eDusFErU9LpM9aFASEyMIs-iFdN0zI/view?usp=sharing

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