O problema da ação moral em psicanálise – parte um : a externalidade

Nesta série de três posts procuro fazer uma leitura do problema da moralidade a partir da psicanálise, em especial em Winnicott, mostrando o que seriam os antecedentes maturacionais necessários para que uma ação moral se torne possível para o sujeito – não como obrigação imposta, mas como algo que tenha sentido pessoal.

Vamos então ao texto.

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Em “Além do Bem e do Mal”, logo após colocar em questão a ‘vontade de verdade’, no primeiro aforismo – num capítulo intitulado, justamente, “Dos preconceitos dos filósofos” -, Nietzsche inicia o segundo aforismo assim:

“Como poderia algo nascer do seu oposto? Por exemplo, a verdade do erro? Ou a vontade de verdade da vontade de engano? Ou a ação desinteressada do egoísmo? (…) – Este modo de julgar constitui o típico preconceito pelo qual podem ser reconhecidos os metafísicos de todos os tempos (…). A crença fundamental dos metafísicos é a crença nas oposições de valores” (Nietzsche, 2000, pg 10)

O contexto da crítica nietzschiana é a história da filosofia, onde, segundo sua percepção, primeiro se “conclui” que oposições de valores existem (e até mesmo devem existir), para depois se procurar legitimar essas oposições no mundo (cf. o mesmo aforismo).

Haveria, então, um erro no próprio princípio do pensamento sobre a moralidade. Estaria isso, hoje, superado? Deixemos a questão em aberto, e observemos como procede a psicanálise em relação à essas questões. Ou melhor: como, partindo de suas próprias questões, a psicanálise pode nos ajudar a responder algo da questão moral – reencontrando, surpreendentemente, a crítica nietzschiana pelo caminho.

Em especial, em Winnicott.

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Comecemos pelos opostos: para Winnicott, só alcançamos uma relação objetiva com a realidade a partir da consolidação de uma relação subjetiva com ela. Na saúde, criamos o objeto que, paradoxalmente, encontramos. A passagem subjetivo – objetivo, que ‘dá vida‘ ao objeto, envolve a morte do mesmo, na fantasia. Poder ser agressivo e destrutivo é parte da saúde, e condição fundamental para poder se preocupar com o objeto. A independência é alcançada a partir da introjeção do ambiente do qual dependemos

Enfim, os exemplos são vários: ele não tem problemas com opostos… Não por acaso muitos classificam Winnicott como o autor dos paradoxos. Toda sua teoria envolve o trânsito entre opostos. Não tanto a superação dos mesmos, como na dialética, mas muitas vezes a manutenção de oposições necessárias… De toda forma, o que nos interessa aqui é um grupo de oposições específicas, que podemos relacionar à moralidade.

Por moralidade, estou entendendo a consideração do ‘outro’ como um igual, como algo importante; a busca da conservação do outro, o cuidado com o outro – mesmo quando não envolva benefício direto. Assim, o altruísmo é um típico exemplo de moralidade. Já o egoísmo, geralmente, é tido como um comportamento não moral.

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Do ponto de vista da psicanálise, o problema da ação moral envolve uma série de atos psíquicos que não podem ser pressupostos : eles não são ‘dados’ na nossa natureza. Não nascemos com eles, mas precisamos construí-los. E é nessa construção que, na teoria de Winnicott, nos deparamos com os tais ‘opostos’.

Os atos psíquicos relacionados à ação moral envolvem:


a) a percepção do objeto como externo (sendo que o objeto começa a ser percebido como interno);

b) a identificação com esse objeto (sendo que ele não é, literalmente, o “eu”);

c) o desejo de cuidar desse objeto (sendo que percebê-lo como externo envolve uma certa destruição do objeto na fantasia);

Veremos cada um desses pontos a seguir.

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Em Winnicott, o objeto é primeiro objeto subjetivo. Isso não quer dizer que o sujeito identifica o objeto com algo interno, mas, principalmente, que ele não diferencia bem “interno” de “externo”. No início da vida, a diferenciação “interno” x “externo” não está bem constituída, e o objeto é percebido como “subjetivo” porque, para o bebê, tudo é subjetivo nessa fase, isto é, ele não se separa do ambiente aonde está inserido. A mãe é, para a criança pequena, um ‘objeto subjetivo’, por exemplo. O bebê viveria a relação com a mãe como parte dele, bebê; como parte de sua subjetividade.

Os objetos subjetivos vão adquirindo consistência à medida que o bebê ganha confiança na relação com eles. Vale dizer: sua relação com esses objetos ocorre sobre o signo da continuidade, da previsibilidade. Ele vai aos objetos e os encontra semelhantes à sua experiência; não há muitas surpresas. O objeto é ‘ele mesmo’ e assim deve permanecer por um bom tempo.

Essa permanência do objeto é fundamental para que o bebê estabeleça com ele uma relação singular; para que se aproprie dele; para que o objeto adquira um sentido pessoal. Esse sentido pessoal é que vai ser integrado, vai ser ligado, à imagem que o bebê vai construindo de si mesmo.

O que não puder ser integrado a esse “si mesmo” em construção, ficará não-integrado. O oposto de objeto subjetivo, então, não é “objeto objetivo”, mas objeto não-integrado, o que aproximaríamos de um objeto dissociado ou não-inscrito, algo que não tem registro no âmbito do Ego.

Quanto mais integração, mais liberdade de ação. O que está integrado pode ser percebido, rejeitado, aceito, trabalhado, lembrado, esquecido, modificado, etc… o que não está integrado, de modo geral, só pode ser recusado de forma inconsciente, isto é, rígida, defensiva, mecânica. Não há aprendizagem para aquilo que não está integrado.

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O próximo passo, depois da aquisição dos objetos subjetivos, é a criação de uma externalidade, a criação de um mundo “não-eu”, onde o sujeito irá depositar os objetos que só então, serão objetos ‘objetivos’. A criação dessa externalidade não deve ser pensada como algo puramente cognitivo, mas envolve a capacidade de sustentar emocionalmente – permitir, aceitar – que existe um mundo lá fora que eu não controlo.

Na fase do objeto subjetivo, a relação do sujeito com os objetos foi facilitada pela adaptação do ambiente, de tal forma que a criança podia sentir os objetos como parte de sua criatividade. Vale dizer, o ambiente propiciou à criança a ilusão de que ela controlava os objetos, de que ela era ‘onipotente‘, de que havia uma continuidade entre ela e o real. O ambiente não impediu que essa ilusão se instalasse na criança – sendo confiável, previsível, etc -, e isso é fundamental.

Agora, estaríamos na fase da desilusão. O ambiente já não se adapta mais tão intensamento a todo movimento da criança; o próprio crescimento do bebê lhe permite outros gestos, outros movimentos, que inevitavelmente levarão o sujeito a perceber que existem objetos que não obedecem ao seu comando. Isso envolve frustração; é uma conquista emocionalmente difícil, que experimentamos mesmo na vida adulta. Quem nunca teve a experiência de imaginar que as coisas iam ser de uma maneira, e se frustrou quando elas acabam se mostrando de outra?

Essa frustração será suportada pela criança na medida em que ela já dispuser de um mundo interno onde ela ainda pode se sentir ‘onipotente’; vale dizer, na medida em que a fase dos objetos subjetivos tiver criado confiança suficiente na continuidade entre a criança e o real (os objetos). Esse sentimento é fundamental para que possamos ‘aceitar’ a externalidade, isto é, para que equilibremos a perda de continuidade que está envolvida na percepção objetiva.

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Para resumir, então: para que um objeto / pessoa “exista” para nós, do ponto de vista emocional, é preciso primeiro que estabeleçamos com ele uma relação de subjetivação, onde o objeto é dito “subjetivo” (= está na área do nosso controle onipotente). Somente depois dessa fase será possível criar uma externalidade para o objeto, que então se tornará “objeto objetivo” ( = está fora de nosso controle onipotente), ao custo de um tanto de frustração, que deve poder ser sustentada pelo sujeito.

Saliento aqui, para evitar mal-entendidos: aceitar a objetividade do objeto não é uma questão perceptiva, não é uma questão puramente cognitiva. O ponto aqui não é a capacidade fisiológica da criança de perceber o objeto ali onde ele está, mas a capacidade emocional de suportar a perda de controle sobre o objeto que toda realidade implica.

Na saúde, somos capazes de misturar os mundos objetivo e subjetivo, levando em conta a realidade sem viver na alucinação, mas também sem submissão pura às coisas. Misturamos à nossa percepção objetiva um tanto de subjetividade, colorimos nossa visão, e assim damos sentido pessoal ao que, literalmente, não o tem (o real nu e cru).

Como já comentamos antes, esse lugar de mistura objetivo x subjetivo é onde vivemos a maior parte da vida, isto é, aquilo que Winnicott chamou de ‘espaço transicional’. Esse é o espaço da cultura, que notadamente se faz de parcelas de realidade e de mundo subjetivo. Mas, para isso, é preciso que os dois extremos – o mundo objetivo (a externalidade) e o mundo subjetivo – estejam bem consolidados, e que possamos transitar entre eles.

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A passagem do objeto de subjetivo à objetivo envolverá, ainda, o que Winnicott chamou de ‘morte do objeto na fantasia’. Falaremos disso na terceira parte dessa série.

Gostaria de encerrar salientando que a aquisição da objetividade não termina na infância. Na realidade, ela continua pela vida afora, e será sempre uma experiência difícil, conforme o grau de distonia da realidade em relação à nossa própria estrutura. Sem esquecer que existirão sempre casos onde a estruturação subjetiva foi tão precária que qualquer realidade é sentida como excessiva.

Não é difícil pensar, por outro lado, em como essa questão do estatuto emocional da relação com o objeto se relaciona com o problema da moral. Afinal, para poder agir moralmente, é preciso que eu perceba o objeto (ou pessoa) como externo, não como parte de mim. É o mesmo que dizer que só existe ação moral na presença de um ‘outro’ sujeito. A moral é necessariamente social. Mas veremos isso com mais detalhes nos textos que seguem.

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Bibliografia

NIETZSCHE, F, “Além do Bem e do Mal”. – São Paulo: Companhia das Letras, 2000

Uma resposta para “O problema da ação moral em psicanálise – parte um : a externalidade

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