A escrita como suporte subjetivo

Por volta de 1912, Jung e Freud rompem uma relação de intensa amizade. O rompimento é sentido profundamente por ambos. Jung experimenta estados depressivos que o preocupam, e, na busca por um processo de cura, começa a escrever.

Põe, então, no papel, as visões, os sonhos, as imagens que tem, e permite-se dialogar com elas, assumindo personalidades – ou personas – que ele sentia que o habitavam.

Esse processo de escrita & imaginação ou ‘diálogo interno’ resultou naquilo que hoje conhecemos como “O livro vermelho”, um de seus livros mais famosos. E, também, no restabelecimento de Jung.

***

Para Lacan, a aquisição da linguagem – onde inclui-se a escrita – é praticamente sinônimo de estruturação da subjetividade. Para o autor francês, a linguagem está estruturada da mesma forma que nossa psique, ao ponto de podermos nos perguntar onde começa uma e termina a outra. Frases como “O inconsciente é o discurso do Outro”, ou “O inconsciente está estruturado como uma linguagem” testemunham o vínculo íntimo que o psicanalista entendia existir entre os dois âmbitos.

Outro exemplo importante da ligação entre psicanálise e escrita seria o de Marion Milner, amiga e colega de Winnicott, que utilizou-se de diários por toda a vida como uma forma de trabalho analítico sobre si mesmo.

***

Foucault mostrou como os gregos utilizavam-se da escrita enquanto suporte subjetivo, potencializando a presença de um “outro” significativo – o mestre ou professor – através da atualização da relação dos dois no próprio processo de escrever.

Se ampliarmos nosso foco, os exemplos dessa escrita terapêutica abundam. Desde Santo Agostinho, com suas “Confissões”, Montaigne, com os “Ensaios”, ou mesmo os rascunhos de Leonardo da Vinci, percebemos sem dificuldade que escrever está intimamente vinculado com os processos subjetivos, podendo atuar tanto como ferramenta de cura quanto como auxiliar no processo de construção de si.

São inúmeras as obras literárias que surgiram como resultado de um processo subjetivo transformador. O Exemplo de Proust, que encerrou a obra e a vida ao mesmo tempo – tal a proximidade entre ambas -, talvez seja um dos mais conhecidos. Breton e as experiências de “escrita automática” nos fazem pensar que até mesmo para a loucura a escrita pode servir de suporte.

***

Não há escrita sem que aí intervenha a figura de um ‘outro’. Seja um outro enquanto destinatário, seja pensado enquanto crítico ou ainda parceiro de diálogo, escrever implica inserir-se numa relação trans-subjetiva, onde já não somos apenas um só.

Como poderia argumentar Lacan, e como eu mesmo escrevi em outro post, é impossível escrever sozinho. A escrita funciona na base de uma estrutura relacional, onde falamos para ser ouvidos e escrevemos para ser lidos.

Não é necessário que o ‘outro’ da escrita exista realmente. Basta que ele esteja em nós, como uma presença diferida, como um outro lugar. Escrever seria, então, a tentativa de ligar, de pôr em contato, o outro que nos habita e aquilo que somos.

Nesse contexto, escrever trabalha no sentido da expansão subjetiva. Enquanto escrevemos, ampliamos a alma.

***

Este blog testemunha isso. Quantas vezes, no trabalho de escrever, encontrei coisas não sabidas no caminho daquilo que pensava conhecer? E quantas vezes, também, relendo aquilo que ficou, dei-me conta de um saber que tinha, e que passou? O texto que eu escrevi sabendo mais do que eu…

Pensar é escrever com a mente, poderíamos dizer, e Foucault nos propõe que pensar é habitar o limite entre o que sabemos e o que não sabemos. Penso que a frase sirva também para a escrita, como se, ao escrever, habitássemos o limite entre o que já somos e aquilo que seremos ali adiante.

Escrever seria uma maneira de registro feito com as tintas do futuro.

***

Escrever também nos abriga da passagem do tempo, e nesse sentido a escrita é a materialização da memória, da qual tanta coisa humana depende.

Escrever nos permite viajar no tempo, roçando nosso futuro, e alcançar passados muito longevos. Quantas histórias, fruto do melhor espírito humano, chegaram até nós pela escrita, e quão mais vazio seria o mundo sem elas?

A imaginação nos dá asas, com as quais troçamos de toda gravidade. Mas a imaginação escrita vai além, e alça vôo à toda humanidade.

Uma resposta para “A escrita como suporte subjetivo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s