Vinhetas clínicas – G.

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“É preciso um caos interior para dar a luz

uma estrela brilhante” (Nietzsche, Zaratustra)

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(OBS.: essas vinhetas clínicas são metade história, metade fato. Nomes, datas e locais serão alterados, visando preservar os envolvidos).

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Conheci G. numa noite fria de outono. Uma colega, que trabalhava com ele numa escola, recomendou-me, talvez por saber que eu trabalhava com Winnicott.

De fato, G. necessitava de holding: era agitado, falava rápido, sem parar, misturava os assuntos, não respondia. Surpreendentemente, para mim, esse caos contrastava com uma vida relativamente organizada: tinha um emprego, uma namorada, um lar.

Mas eles não iam durar muito.

Como depois vim a perceber, G. tinha uma dificuldade enorme em sustentar suas conquistas. Era como se elas fossem um desafio pra ele; mantê-las, usufruir delas, implicava numa certa dependência. Que ele não estava em condições de encarar.

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Assim, logo depois do primeiro mês de análise, G. comunicou-me sem mais que tinha pedido demissão. Aquilo me pegou de surpresa, porque eu sabia que ele não tinha outras fontes de renda, nem amigos / parentes a quem recorrer. Viera do interior, quase fugindo da família. A mãe, que era talvez a única pessoa a ter alguma proximidade com ele – não isenta de complicações – morrera no ano anterior. Viviam só os dois, já que o pai de G. nunca chegara a assumir esse papel.

Tinha vindo pra Santa Maria atrás do sonho de ser escritor. Chegou a cursar literatura por alguns meses, mas, como o emprego, isso não durou muito. Obtivera algumas vitórias nessa seara, publicações de contos e artigos, e administrava suas redes online nesse sentido. Mas era difícil saber até que ponto essas coisas – que ele sempre me contava – eram reais, porque G. era um tanto megalomaníaco, mas principalmente porque ele jogava com as pessoas. Parecia-me que ele repetidamente buscava criar em mim uma expectativa, para depois frustrá-la. Penso que fazia isso inclusive consigo mesmo.

A megalomania podia ser entendida, então, como uma defesa / compensação diante desse jogo de frustrar. Tudo o que ele parecia valorizar, naquele momento, envolvia saber até que ponto ele era ou não capaz de realizar o sonho da escrita, idealizado ao extremo, e no qual via legitimadas suas dificuldades. Afinal, os escritores, os artistas, sempre viveram à margem, sempre tiveram dificuldade de se encaixar na sociedade, dizia ele. E citava a frase de Nietzsche com a qual iniciei esse texto.

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Depois do emprego, largou a namorada, e, logo depois, precisou sair de casa. Em poucas semanas estava dividindo um quarto com um rapaz de São Paulo que aparentemente vivia de maneira não exatamente lícita. Às vezes chegava na sessão organizado, cabelo e barba feitos, pasta na mão, decidido a entregar currículos, e voltar à trabalhar. Na semana seguinte me contava, como que de passagem, que mal chegara a sair, cabelo e barba por fazer, maltrapilho e cada vez mais magro. Passava dias em casa, escrevendo – ou melhor, tentando – : porque estar desempregado o atrapalhava. Estava literalmente se rodeando de bloqueios. Não podia ‘dar certo’.

Seu pai quisera o aborto. A mãe insistira no filho, menos por ele, parece-me, do que pra contrariar o ex. G. parecia não entender porque ela era tão presa a ele, em sua raiva. Parecia tomar seu partido, sempre na forma dúbia com que agia com tudo. Em troca, ela o tomava como confidente das traições do pai, mantendo-o assim numa espécie de “altar às avessas” (algo próximo do que G. buscava alcançar, afinal).

G. reconhecia em si esse impulso mau: precisava ‘estragar’ as coisas. Se um poema saia bem, ele logo inseria ali uma palavra torta, para quebrar o encanto. Uma ex-namorada o definia assim: “você ataca o que ama”. Vivia num estado permanente de tensão, espremido entre a necessidade de existir e de ser reconhecido e a incapacidade absoluta de sustentar esse movimento. Precisava estragar qualquer resquício de “ser”, para só assim, paradoxalmente, encontrar alguma tranquilidade na (in)existência.

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Acredito que ao se perceber ‘recusado’ pelas circunstâncias, G. sentia como que um ‘retorno ao lar’. Era como se precisasse ter certeza que nada externo estava lhe facilitando as coisas; queria, ou assim me pareceu, retirar-se do pântano da existência puxando-se pelos cabelos. Falhar, frustrar, as expectativas alheias, era um modo de ter certeza de que era ele quem estava agindo. Era sua maneira de “ser”.

Assim, quando percebemos, juntos, que ele se sentia pior quando estava sozinho, ele terminou com a namorada. Muitas vezes me escrevia, dizendo que estava mal; chegando na sessão, não dava bola pra isso. Ás vezes pedia urgentemente uma sessão extra; e, na hora, atrasava. Quando lhe disse que ao se demitir, era como se obrigasse os outros a cuidarem dele (parentes, a namorada), ele não deu bola; viveu os próximos dias até secar todo o dinheiro, passar fome. Ele precisava frustrar as preocupações dos outros com ele. Não podia ser ajudado.

Em certo momento da análise, começou a se relacionar com mulheres sadomasoquistas. A escolha parecia fazer sentido pra ele: sofrendo, ele se ‘redimia’. Mas, também, não havia dependência do sujeito; era apenas uma relação ‘contratual’, mecânica, por assim dizer. Manipular o ‘outro’ também era uma forma de controlar a relação. De certa forma, ele ‘matava’ a espontaneidade do outro, agindo assim. A agressividade que ele guardava, contra tudo e contra todos, completava o quadro. Ela se equilibrava com esse ‘fazer-se sofrer’, levando-o da megalomania à culpa.

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G. me espantava pela capacidade de saber de seus problemas, mas não mudar. Se for mesmo verdade que fez terapia por quase 20 anos (“sempre com os melhores”, ele dizia), ela lhe serviu mais como um arsenal de ferramentas contra a relação, do que para criar um lugar possível de existência. Eram constantes as provocações dele no sentido da quebra do setting: às vezes me abraçava (de maneira fria e mecânica), se atrasava, perguntava ‘se eu gostava dele’… – pergunta, aliás, fundamental no contexto de sua história, mas que ele nitidamente não vivia enquanto tal; era apenas um jogo comigo, uma maneira de frustrar o cuidado que eu tinha com ele.

Paradoxalmente – ou não, no seu caso -, quanto mais as coisas pioravam, mais ele parecia ficar tranquilo. Numa das últimas sessões, disse ter apenas R$7,00, para passar a semana. Frustrara todas as pessoas que tentaram ajudá-lo, não tinha buscado emprego… e estava tranquilo. Foi o momento mais tranquilo de nossa convivência.

No final, foi despejado, por não ter pago o aluguel. Voltou à sua cidade natal, onde parentes se disponibilizaram a ajudá-lo (me pergunto por quanto tempo). Ficamos juntos por alguns meses, mas foi o suficiente para que eu consiga imaginá-lo, criando expectativas e frustrando, criando expectativas e frustrando… Esse talvez seja seu sintoma mais profundo, e me pergunto até que ponto ele não expressa a vivência do próprio G., na relação com seu ambiente inicial.

Não ter sentido, nunca, que correspondeu a uma expectativa; não ter estabelecido um vínculo que lhe devolvesse essa mensagem, a de que existem lugares possíveis na relação com o outro; não ter se percebido desejado por ninguém, no momento da formação de sua subjetividade : essa era, creio, a sua história; a verdade que ele lutava por ocultar. Ao mesmo tempo, era a verdade que ele atuava, dia após dia. Ela exemplifica, creio, que não basta apenas experimentar o caos; é preciso ter estrutura para suportá-lo –

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