O problema da ação moral em Darwin e a psicanálise

A teoria da seleção natural de Darwin está entre as leituras de mundo mais consistentes que dispomos. De maneira geral, ela afirma um vínculo entre o indivíduo e o seu ambiente, baseado numa competição aberta e aleatória: os indivíduos vivem num mesmo espaço onde as oportunidades de alimentação e reprodução são limitadas; estabelece-se, assim, uma competição entre os indivíduos, e a configuração pontual do ambiente vai selecionar, naturalmente, aqueles indivíduos que se mostrarem mais adaptados para essa configuração. Não necessariamente os melhores, mas sim os mais adaptados. São coisas diferentes.

Assim, por exemplo, nossa espécie (o homo sapiens) coexistiu com outras espécies humanas por algumas centenas de milhares de anos. Os neanderthais, no entanto, desapareceram, a cerca de 40 mil anos atrás. Eles eram mais fortes que nós, e tinham um cérebro maior. Estavam mais bem adaptados ao frio, e talvez, numa simples disputa por território, teriam nos vencido.

No entanto, uma teoria sustenta que duas erupções vulcânicas enormes se abateram exatamente na região onde viviam os neanderthais (a Europa e a Ásia), aproximadamente em 40.000 a.c. Se isso foi verdade, os homo sapiens, que ainda viviam majoritariamente na África, foram ‘selecionados’ simplesmente pelo acaso. O fato deles terem sobrevivido não dependeu deles serem melhores, mas apenas da sorte (embora outras configurações possam ocorrer, claro).

***

Apesar, então, dessa diferenciação – algo ter sobrevivido não quer dizer que seja o melhor – é comum o uso de um pensamento por analogia, partindo do princípio de que, se algo existe, hoje, é porque, no mínimo, não atrapalhou a espécie ao longo de sua história – senão teria sido ‘extinto’, não selecionado.

Podemos usar essa analogia para quase tudo. No que nos interessa, aqui, o ponto é que isso nos ajude a pensar sobre a moral, criando hipóteses que podem lançar alguma luz sobre o problema.

Assim, faremos perguntas do tipo: porque somos tão sociais? Porque temos comportamentos morais? E, principalmente, porque muitos se comportam de forma antissocial, e mesmo amoral?

***

Utilizando nossa analogia darwiniana, poderíamos formular uma primeira hipótese que diria: a) o ‘ser social’ e a moralidade contribuíram, de alguma forma, para a permanência da espécie. Isso explicaria sua permanência, e também sua aparição mesmo entre os animais inferiores.

Ok, faz sentido, mas… porque então esses comportamentos não se mostram exclusivos, isto é, porque nós, tantas vezes, agimos ou vemos outros agindo de forma egoísta e imoral?

Seguindo aquela mesma analogia, seremos obrigados a pensar uma segunda hipótese, que chamaremos de “b”, que diria que também a ação egoísta e imoral preservou, de alguma maneira, a espécie.

Antônio Damásio é um autor que poderíamos colocar do lado dos defensores da hipótese “a”: a sociabilidade e a moralidade seriam, para ele, estruturas selecionados pela natureza por sua capacidade de preservação da espécie. Nietzsche seria um dos defensores da hipótese “b” (ver por exemplo o §2 de “Além do Bem e do Mal”), ou seja, a de que os impulsos egoístas e imorais também são preservativos.

A questão parece simples, mas ela se complica um pouco se pensarmos que a natureza não tem porque ser moral; é um absurdo querermos julgar a moralidade a partir de um ponto de vista moral (isto é, pressupondo que isso seja o correto). Ao mesmo tempo, a moralidade – ou algo que aproximaríamos disso – parece existir em diversas espécies, mesmo coexistindo com seu “oposto”.

O próprio fato de a natureza ter deixado o campo aberto nesse ponto – ou seja, o fato de sempre de novo surgirem seres mais antissociais e egoístas, mesmo na natureza (cf. Damásio, no livro citado acima), sugere que a moralidade e a imoralidade, a sociabilidade e o comportamento antissocial, não são taxativamente melhores em si. Ou seja, ambos podem ser necessários, a depender de alguma outra coisa.

***

A conclusão que parece se impor é que não podemos nos basear nos benefícios de uma ação moral para pautar nosso comportamento, seja enquanto espécie, seja enquanto indivíduos; porque a ação imoral também trará seus benefícios.

A psicanálise repõe a questão em outros termos, na medida em que sustenta que nem sempre há oposição entre a ação moral e a imoral. Para ela, muito de nossa ação moral (ou nossa sociabilidade) se apresenta como compensação por nossa imoralidade e egoísmo inconscientes.

Ou seja, a moralidade seria valorizada justamente por nos permitir realizar algo de nossa imoralidade e preservar nossos objetos de amor ao mesmo tempo.

Aqui um texto onde me estendi um pouco mais sobre esse assunto. Mas voltaremos ao tema –

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s