Lacan – O Seminário (livro 1; aulas 1 e 2)

Então vamos lá; aceito o desafio! Conforme comentei em post anterior, estou revisitando os textos de Lacan – depois de uns bons 10 anos, mais ou menos… – e a experiência está sendo interessante. Abaixo posto um resumo da Introdução e das duas primeiras aulas do primeiro seminário, relativo aos Escritos Técnicos de Freud.

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De certa maneira, e do meu ponto de vista, creio que agora é o melhor momento para iniciar essa leitura. Eu já tenho uma visão de conjunto da psicanálise; tenho também experiência clínica, e minha própria análise pessoal está realizada. Isso tudo é importante porque Lacan é um autor combativo: ele faz muitas citações – em geral, críticas – sobre outras escolas psicanalíticas, mas… nem sempre sua leitura é correta.

Nessas primeiras aulas, por exemplo, ele já cria um cenário de crítica à teoria das “relações de objeto”, que se repetirá até, pelo menos o Seminário 4. A postura crítica é válida, claro, mas, a meu ver, Lacan entende mal o que essa escola tem de mais potente: a saber, a percepção de que a relação (com o outro, com os objetos) constrói subjetividade.

Essa proposta teórica, no fundo, é muito próxima daquilo que ele mesmo, Lacan, irá propor; mas, por algum motivo, ele entende que se trata, na escola das relações de objeto, de uma busca por readequação ou readaptação ao real (sendo o analista a ‘medida’ desse real, ou dessa adaptação). Supõe, ainda, Lacan, que na dita escola algo como “o” real estaria dado (ou suposto como dado, alcançável), e, finalmente, que essa adaptação poderia ser completa, isto é, poderia “resolver” os conflitos do sujeito.

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Não vejo que seja assim. Conforme já comentei em diversos posts aqui no blog, em Winnicott, um dos representantes da escola criticada, a subjetividade nunca se resolve; vivemos sempre, por toda a vida, numa dependência maior ou menor do ambiente, que atesta a nossa ‘insuficiência’ (estrutural / estruturante, digamos. Aqui, um exemplo dessa complexidade em Winnicott).

Da mesma forma, nunca resolvemos o conflito de nossa relação com o real. Vivemos, ao menos na saúde, justamente num espaço transicional, onde realidade e fantasia se misturam (aqui, um dos post onde falo sobre isso). E onde falta esse fantasiar, essa capacidade de brincar, sonhar ou alucinar um pouco o real, o que temos é – doença, submissão, psicose.

O diferencial da teoria winnicottiana estaria na centralidade do ambiente como condição estruturante da subjetividade, inclusive para que ela possa viver essa “falta a ser”, como diria Lacan. Ou seja, seríamos tão precários, em nossa subjetividade, que até para viver nossa própria precariedade precisaríamos de uma estruturação prévia.

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Nesse momento de sua obra, Lacan procura sustentar que o estruturante fundamental do humano seria o simbólico no outro (nos pais, no ambiente, digamos). Eu tenderia a pensar, antes, que o simbólico acompanha o desenvolvimento maturacional do sujeito, assim como sua estruturação física. Um ego desestruturado corresponde à uma apropriação do corpo ‘próprio’ muito deficiente[1]. Porque não pensar na linguagem como parte do corpo?

Mas enfim, são apenas respostas hipotéticas para questões que, elas mesmas, permanecem com estatuto de hipótese. Não vejo porque dar muita seriedade para isso. O que me motiva a continuar nessa leitura de Lacan é justamente a amplitude das QUESTÕES que ele coloca, mais do que as respostas que pode articular.

Veremos até onde isso pode nos levar. Na sequência, então, o link das primeiras duas aulas do Seminário 1.

Uma última observação: para poder resumir essas aulas, precisei escolher uma leitura dentre as várias possíveis da obra de Lacan. Outras leituras tiveram de ser abandonadas. Portanto, não espere encontrar aqui a mesma riqueza do original. Para isso… bom, só há um caminho: embrenhar-se na leitura das fontes.

2 Respostas para “Lacan – O Seminário (livro 1; aulas 1 e 2)

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