O inconsciente depois de Freud – quinta parte: Winnicott (02)

Na última parte de nossa série sobre o inconsciente, apresentei a noção de que em Winnicott, esse conceito ganha uma camada de sentido nova, que liguei a comunicação : o “a mais” de sentido que haveria em todo agir humano poderia também ser lido dessa perspectiva, como uma mensagem endereçada ao ambiente.

De imediato talvez não se alcance o sentido dessa sugestão, então quero aqui comentar mais um pouco essa mudança de estatuto do conceito, contrastando-o mais uma vez com o conceito freudiano.

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Comecemos resgatando, então, algo desse conceito. Em Freud, a noção de inconsciente aparece vinculada, inicialmente, à noção de resistência: como se pode ler em vários textos seus (ver primeira parte da série), a resistência seria um esforço inconsciente que se dá na direção contrária à comunicação do núcleo dos sintomas. O que quer dizer isso?

Freud trabalhava com associação livre; ele instruía o paciente a dizer qualquer coisa que lhe viesse à mente, confiando que esse “qualquer coisa” iria, na verdade, expressar a maior ou menor resistência das ideias que surgissem.

Assim, se alguém tinha um trauma sexual, por exemplo, provavelmente as ideias relativas à esse trauma não surgiriam; seriam ‘desviadas’, capturadas, transformadas, pela… resistência. Resistência seria então a força que o sintoma faria para não se expressar; para permanecer na inconsciência.

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Há então uma ligação clara entre ‘resistência’ e ‘inconsciente’. O que não fica tão claro é porque a resistência “temeria” a consciência; porque ela se esforçaria por manter o complexo traumático no inconsciente.

Em Freud, isso se resolve por considerações de prazer/desprazer: haveria sempre, na base de qualquer resistência, um conflito entre as instâncias (consciente / inconsciente). Revelar o trauma implicaria em causar um desprazer, algo que o aparelho psíquico evitaria por princípio.

Conhecemos esse mecanismo de outros usos. Também na relação com a realidade, Freud entende que nosso primeiro impulso seria puramente ligado ao prazer; alucinaríamos a realidade o tempo inteiro, se isso não nos levasse à contínuos desprazeres, pelos desencontros com os acontecimentos reais.

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A solução? O ‘princípio da realidade’. Passaríamos a levar em conta a realidade para poder, justamente, não ter desprazer na relação com o real – mesmo que isso seja, em si, um desprazer. Ou seja, “resolvemos” o conflito prazer / desprazer fazendo um contorno, um desvio, pela realidade e seu desprazer, para chegar ao prazer indiretamente.

Pois bem. A questão que fica é: porque isso também não acontece em relação ao trauma? Especialmente dado que, em Freud mesmo, trazer o reprimido à consciência está ligado à resolução do conflito??

Essa é uma questão que entendo não estar bem resolvida em Freud – e, talvez, seja o que o tenha levado a querer saber mais sobre o ego, na sua relação com o inconsciente (cf. parte 1 dessa série).

É justamente nesse ponto que se insere a inovação winnicottiana, pois ela implica uma alteração inclusive do estatuto da resistência. Para Winnicott, esse esforço do núcleo traumático por não se expressar tem a ver menos com o desprazer do que com a capacidade do sujeito de integrar a experiência traumática ao ego.

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E aqui voltamos ao comunicacional e ao ambiente. Para Winnicott, nossa subjetividade começa no ambiente. Isso quer dizer que o trabalho de lidar (=elaborar, simbolizar, resolver) com as primeiras impressões e conflitos será realizado pelo ambiente – muito mais do que pela criança e sua nascente subjetividade.

Posteriormente, parte desse trabalho será introjetado pela criança, como parte de sua própria subjetividade. Ou seja, uma parte do ego será formada a partir do ambiente. Qual parte? No que nos interessa aqui, especialmente essa capacidade de elaborar a experiência e dar-lhe uma solução, um destino. Exatamente essa capacidade, para mantermos os termos, de solucionar um conflito[1].

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Assim, voltando à situação da resistência, o que estaria acontecendo, segundo Winnicott, é que algo que foi vivido pelo sujeito não pôde encontrar ainda tradução em termos de sua subjetividade. Existe, sim, um conflito aí, mas não exatamente pelo desprazer relacionado ao reprimido, e sim pela maneira como foi construído o ego do sujeito.

E o ego foi construído apoiado no ambiente; espelhando o ambiente. Retomando nosso exemplo, se a sexualidade foi vivida, pelo sujeito, como algo a ser excluído – porque era algo sem lugar também no ambiente -, ele poderá, sim, fazer disso um sintoma, o qual expressará a impossibilidade de viver o sexual de outra forma, que não aquela, sintomática.

A resistência expressa, então, a falta de um lugar, no ego, para viver o sintoma de forma integrada. Ele precisa ser disfarçado, transformado… ou mesmo, impedido. Tudo isso em função da maneira como o ego do sujeito foi moldado, em sua relação com o ambiente.

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Isso implica numa série de transformações ao nível da teoria, mas, na prática clínica, tudo continua mais ou menos igual. O sintoma ainda é a expressão de algo que precisa ser integrado (cf. o “Onde estava o id, ego deve advir”, de Freud); ele ainda “resiste” à ser expresso, vivido, e parece ‘preferir’ ficar no inconsciente. A diferença é que essa resistência aponta mais para o ambiente e o relacional – e menos para um aparelho psíquico individual.

O que a terapia faz, então, seria ajudar o sujeito a reconstruir seu ego, a partir da relação com um novo ambiente – o terapeuta -, onde seu sintoma exista e possa encontrar um lugar ( = ser integrado). O terapeuta ocupa exatamente o mesmo lugar formativo do ambiente; o que ele, terapeuta, puder integrar (na sua experiência, na sua escuta), poderá também ser integrado pelo paciente. E isso mudará seu ego, fazendo com que o sintoma possa ser vivido de outra forma, menos custosa.[2]

O inconsciente que seria comunicado no sintoma é a forma do ambiente a partir do qual esse sintoma se tornou necessário. Dito de outro modo, a sexualidade reprimida, como sintoma, implica um ambiente (inconsciente) no qual a sexualidade realmente foi suprimida. O sintoma existe, primeiro, no ambiente (ou, sendo mais preciso: no encontro daquele sujeito com aquele ambiente).

Vale dizer: o inconsciente estaria explícito, exposto, no ‘outro’, na sociedade, nos sujeitos com os quais nos relacionamos. Ou ainda, para falar com Lacan: “o inconsciente é o discurso do Outro” [3].

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Simplifiquei muito as ideias de Winnicott para poder torná-las mais compreensíveis. Na realidade, há uma série de nuances e mesmo diferenças importantes. Por exemplo, para ele, a relação seria anterior mesmo ao inconsciente. Ou seja, não apenas parte do ego se formaria na relação com o ambiente, mas também algo do inconsciente. Vale dizer: o inconsciente não é exatamente o ambiente, em Winnicott.

Gostaria ainda de ter podido relacionar essas mudanças do conceito de inconsciente com as críticas mais gerais com que ele se depara, como vimos na parte três da série. Mas aí, o post ficaria muito longo. Fica então pra uma próxima.

Quero apenas ressaltar, para concluir, como a noção de inconsciente de Winnicott muda os próprios objetivos da clínica, que passam a ter a ver mais com construir lugares existenciais possíveis para o sujeito do que com “interpretar” o que quer que seja. Não há verdade alguma no inconsciente a ser ‘revelada’ fora daquilo que já está estruturado no paciente.

Ou ainda: antes de traduzir o sintoma inconsciente em algo consciente, é preciso construir com o paciente um lugar possível para essa vivência. Não faz sentido nenhum “saber” de sua experiência inconsciente enquanto essa experiência não tiver um lugar subjetivo, não puder ser emocionalmente acolhida, integrada.

Isso implica ainda que a noção de ‘desejo’ seja menos importante nessa linha teórica (como expressão do inconsciente) do que a capacidade do sujeito de suportar o impulso desejante, a possibilidade de integrá-lo em sua estrutura egóica.

Mas continuamos…

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Notas:

[1] Para simplificar a exposição, estou sendo muito mais taxativo que Winnicott. Seu conceito tem mais a ver com a manutenção, na criança, da expectativa de que todo conflito tenha uma solução – do que com a solução propriamente falando. Mas é verdade também que a criança aprende a solucionar o conflito pela via do ambiente. Então, no fundo, não faz muita diferença.

[2] Mudar a estrutura do ego muda, na verdade, toda a economia psíquica, incluindo o inconsciente, a necessidade ou não de repressão, etc.

[3] O que não coincide exatamente com o ambiente em Winnicott, mas a aproximação me parece possível

5 Respostas para “O inconsciente depois de Freud – quinta parte: Winnicott (02)

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