A busca de sentido e a ética – Eduardo Giannetti

Eduardo Giannetti me interessa. É um autor que escreve bem, uma autoridade em economia e filosofia e, pra completar, um autor que pensa o Brasil. Pra quê mais?

Não obstante, quando finalmente me dediquei à sua leitura – com “Tristes Trópicos” e “Vícios privados, benefícios público” – não pude deixar de pensar que um psicanalista também teria algo a dizer, no contexto de suas questões.

Especialmente, quando ele se indaga sobre o sentido: em ambos os livros, Eduardo coloca a questão do sentido da vida humana, da incapacidade da ciência em nos dar essa resposta, no paradoxo que a ética implica, na medida em que é dever, mas também escolha : questões todas que remetem, a meu ver, à indagação sobre “o que é, afinal, o ser humano?”.

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E essa, logicamente, é uma questão que interessa à psicanálise. Não tanto porque se tenha guiado por ela, mas antes porque se debruçou sobre as dificuldades do fazer-se humano, os contratempos que se interpõe entre um potencial biológico humanizante e as práticas concretas que constroem – ou destroem – nossa humanidade.

“Fazer-se humano” implica em criar sentido pessoal para o que, propriamente, não o tem – a realidade concreta das coisas. Esse sentido, para Winnicott, forma-se tanto a partir de um gesto espontâneo, que podemos pensar biológico ou instintual, quanto do acolhimento desse gesto pela ‘teia’ de sentidos e experiências da cultura / ambiente.

O sentido é um resultado misto, portanto. Ele se dá no encontro de duas variáveis independentes, que não precisam se superpôr, nem se respeitar. No entanto, é da capacidade de criar e de manter a ilusão de sobreposição (ou respeito pela temporalidade do gesto) dessas duas variáveis que Winnicott dirá que vai nascer a ‘liga’ do sentido.

Dito de outra forma, o que vai fazer com que a realidade e o meu gesto tenham sentido ao mesmo tempo é justamente a capacidade do ambiente de sustentar a ilusão dessa sobreposição por tempo suficiente para que eu acredite nela. A partir do momento em que acreditamos nessa sobreposição, a partir do momento em que temos esperança de que ela possa advir… já estamos no campo do sentido.

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O sentido teria a ver, então, com um estado emocional, uma expectativa. Não se trata de um estado cognitivo, nem de uma consequência natural do cérebro, mas de um encontro (ou da expectativa de um encontro, para ser mais exato).

Encontros repetidos entre meu gesto e o real (simplificado pelo ambiente) criam a expectativa de que será sempre assim. Desencontros repetidos, ao contrário, quebram o sentido, e nos desumanizam (relatos como o do ‘menino-lobo’ no Seminário 1 de Lacan – pgs 125 a 138 – são chocantes, nesse contexto).

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A ‘humanização’ do meu gesto depende, portanto, de que eu tenha sido humanizado antes. Vale dizer, é preciso que eu tenha recebido um tanto de humanidade para que possa devolver algo disso na minha vida.

A ética, então, como o sentido, não é uma questão ‘pura’, mas sim a resultante do cruzamento de dois contextos independentes: a minha experiência pessoal (incluídos aí meus instintos, minhas frustrações, meus anseios e necessidades) e o tanto de humanidade que perpassa minhas relações com o ambiente.

Dito de outra forma, serei tanto mais ético quanto mais tenha sido criado dessa forma. Daí o caráter paradoxal da ética, na medida em que expressaria uma decisão pessoal da qual, no entanto, o sujeito não detém todas as causas.

Vale dizer, o sujeito e sua capacidade de escolha não podem ser supostos. Não são um dado natural, não acontecem sempre (ao menos do ponto de vista emocional). A maturidade que uma escolha ética supõe é uma conquista social, uma construção. Seus antecedentes não estão todos no sujeito.

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Concluindo, para a psicanálise ‘Ética’ e ‘sentido’ são âmbitos da experiência humana que só podem ser pensadas a partir da relação com um ‘outro’, com o ambiente. Se a ética não está na cultura, como um ideal; se não tivermos exemplos vividos de um tratamento ético, especialmente sobre nossas faltas, dificilmente seremos éticos, nós mesmos.

A razão não é suficiente para nenhum dos dois; é preciso essa referência ao ‘outro’ como experiência – não basta ‘falar’ nisso -, o que esbarra num dos pilares do individualismo moderno, o qual gostaria que o sujeito fosse virtualmente responsável por tudo que faz e é. Trata-se da velha ‘causa sui’ que Nietzsche tanto criticou.

Penso até que ponto esse esvaziamento do suporte social que nos caracteriza estaria relacionado ao capitalismo, tanto em sua vertente produtiva (o tanto de produtos que inventamos e disseminamos), quanto destrutiva (nossa incapacidade de nos impôr limites, mesmo quando visivelmente necessários, como no caso do clima).

Também a ciência poderia ser pensada como uma expressão dessa exclusão do outro na ‘significação’ do mundo. Ao colocar-se quase como a realidade ‘em si’, a ciência exclui justamente o espaço que nos permitiria ‘acomodar’ a realidade à nossa experiência (Isso é, humanizá-la). Nesse contexto, paradoxalmente, é o erro, a ignorância, o preconceito, que acabam resguardando para nós algo de nossa humanidade.

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Quanto à ética e ao sentido de existir, como pensá-los numa sociedade onde o ‘outro’ tem cada vez menos espaço? Isto é, assumindo que se trata, basicamente, de experiências que se dariam sempre no encontro com esse ‘outro’?

Não há saída; agir de forma ética, a partir daquilo que faz sentido para mim, no encontro com o outro, adquire cada vez mais um aspecto revolucionário, de contestação –

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