Minha experiência com Lacan

A pedido de um amigo, reli parte do primeiro seminário de Lacan. Depois de Freud, Lacan foi o primeiro grande autor da psicanálise com quem me deparei. A história da minha formação como clínico passa pela teoria lacaniana. Natural, portanto, que essa releitura tenha trazido uma série de questões e de lembranças, parte do quê resolvi publicar aqui.

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A leitura de Lacan é uma experiência fantástica. É realmente impressionante o tanto de rigor que ele trouxe para o campo psicanalítico, quantas fórmulas, quantos apoios em teorias conexas.

Ao mesmo tempo, isso faz de Lacan uma leitura difícil. E lembrando outro amigo aqui, que falava na “cachaça” que é (pra ele) ler filosofia, percebo que há em Lacan algo desse vício, ao menos para mim. A dificuldade e a amplitude do texto me faz querer ler mais, ‘decifrar’ aquela história toda, “tomar mais um gole”.

Mas isso exige tempo. E quando conheci Lacan, logo depois da graduação em psicologia, eu não achava que tinha esse tempo. Queria me estabelecer na clínica rapidamente, e precisava de orientações práticas e palpáveis sobre o atendimento – tudo que Lacan não é.

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Lacan também é uma experiência aberta. Ele não apresenta uma proposta de psicanálise acabada, mas antes uma releitura crítica de Freud – num primeiro momento -, de onde surgirão, ao longo de vários anos, inovações clínicas propriamente lacanianas.

Isso, mais uma vez, exigia um tempo que eu não queria dispor. Nada mais frustrante para quem inicia um aprendizado do que o cuidado metodológico, a busca responsável por não se deixar prender numa simplificação. Ora, nós, iniciantes, queremos simplificações! Queremos ‘encaixar’ a teoria em nossos preconceitos, e quanto antes, melhor!

Essa maturidade teórica de Lacan me frustrava, portanto.

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Finalmente, Lacan, ou ao menos o Lacan que eu conheci, é um grande teórico. Ele poucas vezes faz referência à clínica, ele não apresenta estudos de casos – ou, quando o faz, preocupa-se muito mais em exemplificar um conceito, não dando muita bola pro caso enquanto caso.

Ou seja, eu, que queria mergulhar na clínica, sentia falta de uma referência mais direta.

Soma-se a isso o fato de que suas referências são, muitas vezes, extra-psicológicas, além de extra-clínicas: não apenas a linguística, a antropologia ou a matemática, mas também as incursões na filosofia, de Aristóteles à Sade, passando por Marx, Kierkegaard, Descartes, Pascal… entre outros grandes ‘empréstimos’ da história do pensamento.

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Dado esse contexto, não é difícil entender que minha leitura de Lacan tenha sido, aos poucos, abandonada. Mas não sem esforço: Por uns bons anos ainda eu lutei com os textos dessa escola. Até perceber que a minha questão não estava ali.

Hoje, diria que esse esforço todo estava colocado no lugar errado. O que me faltava estava muito mais ligado à minha análise pessoal do que à qualquer tipo de leitura ou informação.

Mas enfim, fazia o que podia. Foram muitos anos à deriva, teórica mas também emocionalmente – o que era o principal, me parece -, até que ambos aspectos convergiram em torno deste autor que, hoje, me serve de referência – Winnicott. Como não ser partidário desse último?

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Encontrei Winnicott já em outro momento da minha vida. Agora, eu podia esperar. Mais do que isso: eu podia errar. Já estava casado, havia vivido fora do Brasil, conhecia o mundo, tinha minhas leituras e, sobretudo, não tinha pressa…

É impressionante como a gente consegue ser generoso e mesmo perdulário, desde que algumas conquistas tenham sido feitas… todo o contrário da adolescência, que é um lugar de muitas promessas e poucas conquistas (e onde, consequentemente, o erro é mais sofrido).

Mas talvez, também, Winnicott tenha mais a ver comigo. Winnicott é essencialmente um clínico: nada menos winnicottiano do que as voltas e voltas de Lacan em torno de um conceito. Winnicott parte da clínica e volta para a clínica, sempre. Seus conceitos são ferramentas: não tem pretensão nenhuma de serem apenas ‘corretos’.

Isso faz com que suas construções teóricas tenham um sabor mais vivido. Ele está falando de pessoas, ali; está descrevendo seus sofrimentos, os movimentos de sua alma. Nisso, os conceitos as vezes ajudam – mas só. Não são o centro de gravidade, não são a questão central.

Winnicott é um péssimo escritor. Mas sua capacidade de traduzir em palavras a riqueza da experiência humana eleva sua teoria muito acima daquilo que seria seu poder de abstração, sua articulação, digamos assim. Ele está centrado na experiência humana e é ela que faz sua teoria grande. Lacan parece, às vezes, o contrário: falta experiência viva ali, e sobra conceito.

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Sou o primeiro a concordar que uma teoria não tem que ser um ‘diário da paixão’, mas uma ferramenta cirúrgica, que nos ajude a resolver os problemas a que ela se propõe.

Na psicologia, entretanto, e talvez na psicanálise, em particular, somos ao mesmo tempo o médico e o doente; precisamos reconhecer, em nós mesmos, algo daquilo que está sendo dito na teoria. Algo dela precisa ‘nos conquistar’.

E talvez isso explique, em parte, a diversidade de escolas que ainda perduram. Elas corresponderiam à diversidade de estruturas, à diversidade das pessoas que nelas se reconheceram. Por isso também é tão difícil discutir teorias em psicologia: a discussão deriva muito facilmente para uma questão pessoal.

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Concluindo, percebo que Lacan fez um trabalho gigantesco de fundamentação da psicanálise, ancorando-a em diversas outras correntes do pensamento. Um trabalho meritório, sem dúvida; fundamental, e muito rico. Ele elevou o estatuto teórico da psicanálise.

Afinal, a teoria é alguma coisa; tem direitos de existência, e não é em vão que se discute tanto. Meu preconceito, no entanto, pende sempre para a experiência, e mais ainda para o cientificamente verificável. Desconfio das palavras por princípio.

Mas reconheço que, ao menos na saúde, sempre retornamos à elas… e, pensando agora, talvez seja bom que eu retorne às palavras de Lacan… Seria uma maneira de pôr em contato esses dois momentos da minha vida.

Além disso, é frequente o desencontro dos teóricos por falta de uma convivência maior com a teoria do outro. Não é todo mundo que teve uma formação ‘malhada’, misturada, como a acabei tendo. Isso pode ter algum valor.

Vamos ver. Não prometo nada. Se houver interesse, quem sabe?

Uma resposta para “Minha experiência com Lacan

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