O inconsciente depois de Freud – quarta parte : Winnicott (01)

Dando sequência a essa pequena série sobre o inconsciente depois de Freud, gostaria de relembrar alguns dos pontos pelos quais já passamos.

Na primeira parte da série, vimos que o inconsciente é uma forma específica de relação entre os conteúdos mentais. Salientamos a confissão de Freud de que gostaria de ter conhecido mais sobre o Ego, no processo mesmo de teorizar sobre o inconsciente. E também destacamos a abertura do inconsciente ao “outro”, tanto que o terapeuta estaria em condições de alterar algo nas estruturas da psique de seu paciente.

Na segunda parte utilizamos a experiência de estar apaixonado como modelo do tipo de relação com o ‘outro’ que, na psicanálise, entendemos ser formativa, estruturante. Ou seja, procurei mostrar como o Ego se estrutura a partir do amor ou identificação com o outro. Chamei a atenção para o fato de que, na paixão, somos conscientes apenas de parte do processo, sendo muito claro que alguns acontecimentos – como a perda de interesse pelas coisas do mundo, pelo que não é o objeto amado – não se dão a partir do ego, mas muito mais se impõe à ele. Quis com isso dar a entender tanto o poder desses processos inconscientes sobre o ego quanto o desconhecimento e o despertencimento deste em relação aos mesmos.

Na terceira parte, finalmente, abordei algumas das dificuldades com que a ideia de inconsciente se depara, na medida em que supõe um funcionamento mental ao mesmo tempo determinante para os processos psíquicos, mas implícito, não verificável.

Vou agora tentar abordar esses mesmos pontos a partir das transformações que identifico em Winnicott, mas que aparecem também em outros autores da posteridade psicanalítica.

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O texto sobre a paixão talvez seja o mais claro na definição daquilo que me parece a principal dificuldade do conceito de inconsciente em Freud: isto é, a noção de que o inconsciente é primeiro e estruturante, tanto em relação ao Ego, quanto em relação aos objetos.

De forma muito resumida e simplificada, é possível dizer que Winnicott alterou esse panorama ao fazer a relação com o ambiente ser primeira e estruturante, mesmo em relação ao inconsciente.

Mais precisamente, Winnicott postulou um momento precoce da estruturação psíquica onde o bebê não é ainda uma unidade (do ponto de vista psíquico), e depende absolutamente dos cuidados do ambiente, a tal ponto que o ambiente pode ser equiparado à psique do bebê.

Assim, antes de inconsciente e de consciente, antes também de “Ego” e mesmo de unidade psíquica, o que teríamos seria uma relação de dependência muito profunda com o ambiente. Somente a partir dessa relação é que um inconsciente poderia ser construído, assim como uma identidade, uma unidade e uma consciência.

Vale dizer: a relação constrói subjetividade.

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Trabalhei aspectos dessa inovação winnicottiana em vários posts aqui do blog. Seria muito extenso retomá-los aqui, mas o leitor interessado pode consultar, por exemplo, os posts sobre a relação entre o “Eu” e a realidade, ou sobre transicionalidade e causalidade psíquica, além dos textos que tratam dos conceitos fundamentais de ilusão e de desilusão. Poderia elencar outros textos, mas a lista é longa, portanto encerro-a com o recém publicado post sobre o livro de Elsa Dias de Oliveira, que abarca todas essas questões com mais consistência.

Simplificando um pouco a leitura para ressaltar o essencial, entendo que a centralidade do ambiente, em Winnicott, cria uma nova dimensão para o inconsciente. Pois o que ele está dizendo é que há sempre um ‘outro’, há sempre um ambiente em algum lugar, suportando cada um de nossos atos. Na saúde, temos esse ambiente introjetado, como parte de nossa subjetividade (falei mais sobre isso aqui). Na doença, é algo desse ambiente que está faltando, até o extremo – que seria o autismo – onde a própria esperança na existência de um ambiente utilizável se apaga (neste post falei um pouco mais sobre isso).

Cada ato nosso, cada pensamento, “diz” desse ambiente também. Assim como, em cada respiração, está suposto que existe um ambiente, uma atmosfera, tanto para receber o que expiramos quanto para nos permitir inspirar; assim como a forma e o funcionamento dos peixes supõe o ambiente aquático, sendo impossível pensar nos peixes sem esse ambiente; assim também, é impossível pensar no humano sem seu apropriado ambiente humano.

O que Winnicott está dizendo é que esse ambiente humano no qual estamos ‘mergulhados’ é formado por relações. Precisamos dessas relações como um peixe precisa de água. É nesse meio que nos movemos. A ausência severa desse ambiente nos adoece, podendo levar inclusive à morte. Pense num bebê recém nascido, entregue à si mesmo: ele simplesmente não sobrevive. Mas não costumamos pensar no nosso ambiente, a não ser quando ele nos falta, dado que, na maioria dos casos, ele está aí, funcionante. Você nem pensaria no oxigênio, se ele não nos faltasse, às vezes.

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Pois bem, haveria muito para dizer sobre isso, mas preciso finalizar o post; ficam sementes para outros textos… Para encerrar, então, gostaria de realçar isso que me parece o mais específico winnicottiano, ou seja, esse aspecto ambiental do inconsciente, que cada ato nosso suporia.

A questão poderia ser expressa assim: em função da dependência humana do ambiente, todo ato individual traria consigo, implícito, um viés comunicativo. E aqui retomamos nossa discussão do implícito x explícito. Pense novamente num bebê. Ele acabou de nascer, está desconfortável, e chora. Chorar é, sem dúvida, um ato individual, relativo às condições concretas que ele está vivendo. Mas haveria sentido em chorar se não estivesse suposto que alguém vai ouvir esse choro?

Esse alguém suposto, a mãe ou o ambiente, é o lado inconsciente do choro, algo que o bebê provavelmente nem tem condições ainda de perceber e integrar. Sua ‘intenção’, provavelmente, não foi comunicar nada. Mas o ato em si só faz sentido num contexto ambiental. Todo ato humano só faz sentido num contexto ambiental – mesmo inconsciente.

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Um exemplo, pra finalizar (lembre-se: estou simplificando as coisas, aqui…) : atendendo uma paciente diagnosticada com Síndrome de Asperger, uma forma branda de autismo, muitas vezes acontece de nossa conexão ter problemas, ruídos, e até cair (o atendimento é online). Subitamente, dei-me conta de que essa situação (objetiva) poderia estar expressando a maneira (subjetiva) com que ela vive as ligações emocionais com as pessoas: cheias de cortes, ruídos, ausências. Outros acontecimentos na sessão suportam essa ideia.

Num dos atendimentos, fiquei cerca de 10 minutos ‘no vácuo’, sem contato nenhum, não sabendo se ela voltaria, nem se a conexão seria restabelecida… a sensação é horrível. E isso que eu sou adulto, suficientemente neurótico, isto é, integrado, e, portanto, preparado para lidar com situações assim.

Mas o mesmo tipo de experiência numa criança muito nova, pode ser devastador. É o tipo de desencontro que, na literatura psicanalítica, poderia estar subjacente ao autismo (trata-se de uma hipótese).

Entendi nosso desencontro a partir dessa perspectiva, como uma comunicação inconsciente de um tipo de experiência que pode ter sido comum na infância dela. Como já falei em outros textos (por exemplo, aqui), não se trata de “devolver” essa percepção, ou de “interpretar” o que quer que seja, mas sim de utilizá-la para readequar meu lugar de escuta: para oferecer, na situação analítica, uma experiência de ambiente diferente dessa que, na minha leitura, teria sido traumática.

É um exemplo talvez discutível, mas que me pareceu claro. Mais sobre isso e outros desenvolvimentos nos próximos posts!

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