Os livros curam?

Um colega me perguntou certa vez se era possível que alguém se ‘curasse’ de problemas psicológicos lendo os livros certos. Na época, respondi que não. Gostaria, hoje, de nuançar esse ponto.

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Começo pela ideia de “ambiente”. O ambiente concreto onde estamos inseridos é parte de nossa subjetividade. E mais: no início da vida, o ambiente é quase toda nossa subjetividade.

A mãe ou a pessoa que cuida é quem “resolve” os problemas, “interpreta” os desconfortos da criança, “entende” o que está acontecendo com ela. Nesse sentido, a mãe faz exatamente o mesmo papel que a “mente” do sujeito fará mais tarde: ela atribuirá um sentido aos fatos crus da experiência. Inserirá uma narrativa ali onde só há fatos; relacionará os acontecimentos com sua própria perspectiva dos mesmos. “Humanizará” a experiência, por assim dizer.

É o mesmo que dizer que a mãe, ou o ambiente, é a subjetividade da criança. E realmente, segundo Winnicott, nossa subjetividade começa assim: numa relação de dependência absoluta com o ambiente, já que ele é o nosso único mental disponível e funcionante.

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Com o amadurecimento e quando há saúde, tendemos a introjetar parte desse ‘mental’ ambiental como nosso mental. Criaremos nossa subjetividade a partir de nossas experiências. Mas, mescladas à elas, estará sempre uma parte maior ou menor do ambiente.

Isso é visível, palpável, mesmo em outras tradições do pensamento. Os coachs, por exemplo, nos dizem para nos relacionarmos com pessoas parecidas com aquilo que queremos ser. Eles entendem – e com razão, me parece -, que tendemos a nos tornar parecidos com aquilo que é o nosso ambiente.

Não por outro motivo, recomenda-se que viciados em drogas mudem de ambiente, durante o tratamento. E mantenham, mesmo nos tratamentos bem sucedidos, uma relação com um ambiente salutar, isto é, de pessoas que passaram pelo mesmo problema e conseguiram vencê-lo. Mais uma vez, utiliza-se o ambiente para modelar o sujeito, transformá-lo.

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Se os ambientes nos transformam, não seria possível obter uma modificação importante de algum estado patológico simplesmente pelo encontro com o ambiente adequado? Acredito que sim, embora minha experiência clínica coloque nisso uma importante ressalva.

Essa ressalva tem a ver com a grande dificuldade de encontrar um livro que possa servir de ambiente adequado para cada sujeito específico, com suas experiências específicas.

O pressuposto disso, na teoria, é que o adoecimento psíquico não se dá da mesma forma que o físico; isto é, não há uma causação comum, não há uma causalidade linear, na formação do adoecer psíquico.

Ou ainda: por mais que possamos localizar uma causa comum – a falha X no encontro com o ambiente deriva na doença Y -, o tratamento dessa condição precisará sempre respeitar a maneira única, singular, com que o sujeito doente construiu sua relação com essa doença.

Vale dizer: a causa da doença pode ser comum, mas a experiência concreta do adoecer será único, em cada sujeito.

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É por isso, em parte, que as terapias psicanalíticas demoram tanto: é preciso construir para aquele sujeito específico, uma teoria específica, um tratamento novo, feito sob medida para ele.

Existem, é certo, tratamentos que optam por fazer uma grande generalização, similar à que acontece no adoecer físico. Elas tem sua efetividade, e é interessante que o paciente tenha diferentes tratamentos à sua disposição.

O tratamento psicanalítico propõe a construção de um modelo específico para cada paciente. Isso permite, a meu ver, ir mais longe e mais fundo, na constituição de cada sujeito singular.

Mas nem sempre é isso que queremos. Ás vezes, nossa questão é muito mais específica, pontual. Nem sempre é necessário re-significar uma vida, se eu apenas tenho medo de andar de elevador.

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Concluindo, existe e não existe a possibilidade de ‘cura’ pelos livros.

Aquilo que for mais simples, mais genérico, poderá encontrar na leitura um ambiente favorável e suficiente para a mudança. Os livros de auto-ajuda se enquadram nessa categoria, penso eu. Note-se que, mesmo pretendendo ser “auto”-ajuda, eles são sempre livros relacionais: há sempre um “outro” ali, atuando como ambiente-suporte para a transformação (às vezes, um outro idealizado, mas às vezes também um outro concreto, atuando por palestras, grupos, mentorias, etc).

Questões mais complexas demandarão um tratamento um pouco mais específico. Os livros, como ambientes de apoio, poderão sempre ser de ajuda, mas a adequação ponto-a-ponto que um analista é capaz de fazer para cada experiência do paciente permanece uma capacidade humana, que tem que ser desempenhada ao vivo, sessão por sessão.

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