O inconsciente depois de Freud, terceira parte: problemas

Continuando com nossa série, vimos como, na parte um, o inconsciente seria um modo específico de relação entre conteúdos mentais. Na parte dois, propus usar as relações amorosas como exemplo (‘atuado’, isto é, explícito, observável) desse inconsciente.

Nessa segunda parte procurei explicitar também qual a relação do inconsciente com o “Eu”. A conclusão a que chegamos foi que o “Eu” seria efeito das identificações inconscientes. Como tal, nem sempre teria domínio ou conhecimento sobre os processos inconscientes dos quais ele surge.

Esse alheamento do “Eu” em relação a processos que ocorrem ‘no’ sujeito (mas em outras instâncias) é algo muito próprio da psicanálise. Todo leitor de Freud já deve ter se espantado, em algum momento, pela forma como o pai da psicanálise consegue estabelecer vínculos entre um sintoma explícito e um processo inconsciente implícito.

Obviamente, essa ligação implícito / explícito é parte do ‘charme’ da psicanálise, daquilo que lhe dá um aspecto de profundidade e a aparenta a uma forma de arte. Mas é parte também de muitas dificuldades e desencontros teóricos, como pretendo discutir nesta terceira parte da série.

***

Abordando o problema em sua forma mais geral, poderíamos dizer o seguinte: como ter certeza de que os processos implícitos que a psicanálise supõe são realmente assim, isto é, acontecem realmente da forma como a teoria diz?

A situação pode ser estruturada assim: temos um estado inicial observável e explícito: o sintoma. Através do processo terapêutico, obtemos um resultado final também observável e explícito: a melhora, a transformação do sintoma. Entre os dois estados observáveis, temos uma série de processos implícitos, não observáveis. Como podemos ter algum grau de certeza ou verificabilidade sobre eles?

***

Uma das respostas da psicanálise foi pragmática: os processos implícitos usados devem ter algum grau de acerto, já que funcionam. Eles ajudam o terapeuta a resolver o problema do paciente. Logo, não podem estar completamente errados.

Creio que concordaremos que essa resposta é interessante, mas insuficiente. Como saber se os processos implícitos realmente envolvidos na melhora não são outros, diferentes daqueles supostos pela teoria?

Poderia ser, por exemplo, que a simples relação de suporte, ou o interesse do terapeuta na pessoa e nos problemas do paciente, fossem a variável definitiva.

***

Outra resposta comum no âmbito psicanalítico se baseia na introspecção: por ter passado por uma análise pessoal, e estar supostamente mais apto a reconhecer os processos inconscientes que ocorrem com sua própria subjetividade, o analista estaria em condições de reconhecer esses processos também no paciente.

Essa resposta, apesar de poder produzir uma convicção pessoal muito forte, esbarra justamente em seu caráter subjetivo: é impossível compartilhar essa experiência pessoal. Cada estudioso da psicanálise deveria, para poder avaliar o alcance dessa argumentação ‘introspectiva’, passar por uma análise ele mesmo.

Isso, além de muito difícil, poderia sempre ser contradito pelo argumento de que tanto o paciente quanto o analista foram ‘dogmatizados’, foram convencidos pela teoria, e simplesmente tendem a confirmar suas próprias convicções. Ou seja, continuaríamos sem um apoio objetivo.

***

Não obstante suas limitações, as respostas que apresentamos acima servem ao psicanalista como ponto de partida. Dado que existe sofrimento psíquico, e dado que, com as premissas psicanalíticas, eu consigo resolver ao menos parte deles, porque não continuar exercendo esse trabalho, estando atento, ao mesmo tempo, às mudanças que a própria prática for sugerindo?

Esse caráter de aperfeiçoamento da teoria, essa abertura das premissas ao funcionamento prático da clínica, caracteriza o aspecto científico da psicanálise. Teríamos aí um terceiro tipo de resposta da psicanálise à nossos questionamentos.

Embora os processos implícitos que a teoria supõe sejam de difícil observação, haveria uma constante busca de verificação dos mesmos frente aos sintomas. Assim, seria razoável esperar que a teoria vá se aprimorando com o tempo.

Razoável, pode ser, mas… insuficiente, aos olhos de muitos.

***

Como deve ter ficado claro, entendo que todas essas dificuldades decorrem da proposição de processos que são ao mesmo tempo implícitos e determinantes no funcionamento psicológico.

Muitos outros debates se fundamentam nesse ponto. Há correntes da filosofia, por exemplo, que questionam essa premissa de que algo fundamental ao sujeito ocorra em ‘outro lugar’ que não a consciência, não sendo nem mesmo percebido pelo sujeito.

Outros criticam a estruturação de aparelho psíquico daí decorrente, na medida em que o tempo presente da subjetividade seria um mero efeito (explícito) do tempo passado (implícito), das identificações fundamentais, por exemplo.

Finalmente, existe toda uma crítica, assemelhada às anteriores, que imputa à psicanálise uma certa cegueira em relação às influências políticas que determinariam o comportamento dos sujeitos. A psicanálise teria se focado demais em processos internos e deixado de lado questões sociais importantes para a produção da subjetividade.

***

Muitas dessas críticas serão, como veremos, respondidas, ao menos em parte, com mudanças que foram introduzidas na teoria psicanalítica após Freud. Mas isso é assunto para nosso próximo post.

2 Respostas para “O inconsciente depois de Freud, terceira parte: problemas

  1. Pingback: O inconsciente depois de Freud – quarta parte : Winnicott | eu(em)torno·

  2. Pingback: O inconsciente depois de Freud – quinta parte: Winnicott (02) | eu(em)torno·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s