A estrutura implícita em psicanálise

Escrevendo nossa série sobre “O inconsciente depois de Freud” (primeira parte aqui; segunda, aqui), percebi duas coisas interessantes, que vou intercalar aqui, como uma parte independente da série, mas em ressonâncias com ela. Trata-se da estrutura implícita em psicanálise, e da minha maneira de lidar com teorias complexas.

Começando pelo segundo ponto: eu procuro sempre levar qualquer teoria, por mais complexa que seja, até o ponto em que ela possa ser comunicada de forma simples, como numa conversa habitual. Há várias coisas implicadas nisso: uma certa desconfiança na linguagem; a pretensão de não usar argumentos de autoridade; o entendimento de que algumas coisas se perdem na simplificação, mas que isso pode trazer ganhos, etc.

Ninguém iria discutir psicanálise, por exemplo, se pra isso tivesse que ler os quase trinta volumes da obra completa de Freud, mais ou outros trinta do Lacan, mais os tantos do Winnicott, Ferenczi, Melanie Klein, Jung… sem contar a imensa obra dos críticos!

Melhor dizendo: há, sim, pessoas que discutem, depois de ler tudo isso, e este é um trabalho importante. Mas não acho que esse seja o único trabalho possível ou necessário.

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E isso por vários motivos. Em primeiro lugar, nenhuma teoria, nem mesmo a psicanálise, está ‘completa’… sim, amiguinhos… por mais dogmático que seja o seu amigo/colega/terapeuta/professor psicanalista, o dogma fica na conta pessoal dele. A teoria é claramente aberta e falha, desde o começo. Freud deixou isso muito explícito (aqui uma boa discussão sobre o assunto, por Renato Mezan).

Em consequência, depois de você ler aquela caralhada de livros, nada garante que você “sabe tudo”… uma, porque o conhecimento avança, outra porque ele muda.

Obviamente, não estou dizendo que ler e se informar não é importante; o meu ponto é que, para além da pura fundamentação e instrução, existem a disseminação e a crítica.

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A meus olhos, disseminar um conhecimento é quase tão importante quanto obtê-lo. Em meus sonhos – ou seriam pesadelos? – políticos, penso sempre que a educação é o único caminho para qualquer tipo de transformação efetiva da sociedade.

Mas, veja bem: falei em educação, não em engolir o dicionário. Nada aparentado a essa nossa ‘instrução’, que é apenas decoreba e submissão. Para não entrar nesse assunto, que é extenso, digo apenas que para mim, a educação deveria começar pelo exemplo: que tipo de pessoas estamos sendo, que tipo de pessoas estamos escolhendo, para serem os exemplos para nossas crianças?

Disseminar é fundamental, mas poder criticar também. E, muitas vezes, só percebemos o quanto algo é criticável quando nos afastamos um pouco, quando olhamos as coisas de longe, quando simplificamos e vamos na essência daquilo que estamos dizendo.

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Enfim, isso é parte do que entendo fazer, aqui. Simplificar para disseminar, mas também para criticar, para ver claro. Nesse processo, chego ao primeiro ponto acima, a questão da estrutura implícita em psicanálise. O que seria isso?

O fato é que escrevendo a série sobre o inconsciente, me dei conta de que a psicanálise pode ser simplificada nesse sentido: haveria sempre, em todo acontecimento psicológico (mental + emocional) um sentido estrutural. Esse sentido é variável em cada autor, mas a ideia, em si, é praticamente a mesma.

Em Freud, por exemplo, se trataria de ver sempre o ‘animal’ homem por trás do homem civilizado. Esse animal precisa ser montado, em sua relação com cada sujeito específico, e isso se dá através da história pessoal. A famosa interpretação freudiana seria ler, nos relatos dessa história, como se deu a montagem / estruturação do animal (ou do pulsional, para sermos mais técnicos).

Em Lacan, arriscaria dizer que a questão é sempre encontrar o vazio por trás do homem falante. Sempre lembrando que isso é uma simplificação (que pode ser desfigurante…), a questão em Lacan seria facilitar que o sujeito se apropriasse de sua falta, de seu vazio, como algo não exatamente a ser preenchido, mas trabalhado, digamos assim…. ou contornado.

Penso que em Winnicott teríamos um pouco desses dois autores: há tanto uma valorização do animal-homem em toda sua potência e caos, quanto a percepção do peso do vazio. O que resolve a tensão entre os dois seria o novo papel do ambiente: ele é tanto o que nos ensina a lidar com nossa animalidade quanto um suporte para encarar a falta de sentido (ligada à existência).

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A ideia de um inconsciente é um dos grandes operadores dessa estrutura implícita. Seja ele o pulsional-animal, o linguístico-formativo ou o ambiental-existencial, todo psicanalista procura ler, nas palavras e atos explícitos do paciente, algo desse implícito, algo dessa estrutura.

O que é um exercício fascinante. Para além de qualquer crítica que a psicanálise possa merecer enquanto método terapêutico / teoria, restará sempre esse modo novo de se relacionar consigo mesmo, inaugurado – ou explicitado? – por Freud.

Sim; a psicanálise é também uma experiência. Uma experiência de ‘si’. Você já procurou se entender assim?

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