O que é SER

Pessoalmente, tenho convicção de que há uma distância, uma disparidade entre certas palavras e as experiências que elas pretendem designar. Provavelmente, isso vale para todas as palavras. Mas em relação à certas ideias, certos conceitos, a disparidade parece maior.

É o caso da palavra “filho”, por exemplo. Em que consiste, precisamente, ser (ou ter) um filho? Muitas coisas; muitas mesmo. E parece que quanto mais velho eu vou ficando, quanto mais experiência de vida vou tendo, mais ‘sentidos’ eu percebo nas experiências que descrevemos com apenas uma palavra.

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A palavra “ser” é outro exemplo. Existe uma longa tradição na filosofia relativa a esse termo. Mas minha impressão é que, também aqui, o descasamento é muito grande. E imagino que, nesse caso também, mais tempo de vida e experiência significarão mais ‘significados’ agregados à palavra, tornando-a ao mesmo tempo mais – e menos – expressiva.

Na teorização de Winnicott, a palavra ‘ser’ ganha contornos definidos. Aproximadamente, digamos… “Ser” é a palavra usada para designar uma REALIZAÇÃO DO SELF.

“Self”, por sua vez, designa o conjunto de impulsos inconscientes (e mesmo orgânicos) mais a forma como a história de vida, os encontros, as narrativas – que também nos constituem – adquirem nessa camada mais ‘profunda’ da existência.

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“Ser” seria, então, ‘realizar o self’. Ok, e em que consiste essa ‘realização’? Basicamente, ‘realizar o self’ designa, no meu entender, o encontro de algum suporte externo que ressoe o impulso interno.

O que me parece essencial, nessa realização, é que ela não deve ser puramente fantasiada (embora possa conter elementos de fantasia), sendo antes suportada pela resposta do outro.

Não se trata aqui de que a resposta do outro seja verdadeira, nem que coincida mais ou menos exatamente ao meu impulso: importa apenas que seu comportamento ressoe suficientemente com o meu, permitindo que a experiência seja vivida como uma realização. Isto é, como se fosse uma exteriorização do impulso, um encontrar, na realidade exterior, uma continuidade daquilo que nasce ‘no interior’.

Um casal dançando seria uma boa imagem para o que estou tentando passar aqui: quando um dos dançarinos dá um passo para a frente, o seu par precisa dar um passo para trás, para “acomodar” o gesto do parceiro. Esse acomodar, esse adequar-se ao gesto do outro, é o que faz a dança funcionar – e seria também o que dá consistência à experiência de “Ser”.

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Winnicott baliza sua teorização no desenvolvimento infantil. Ele acredita que a experiência da criança, ao “criar” cada uma das coisas que encontra (e que, para nós, obviamente já existiam ali), é o modelo da experiência que, mais tarde, designaremos com a palavra “ser”.

Poderíamos dizer então que “ser”… é “criar”. É fazer um gesto criativo, engendrando o que encontramos.

Podemos ‘ser’ também em relação com o que nos acontece, isto é, onde em geral nos pensamos passivamente. Podemos criar nossa maneira pessoal de viver a velhice, por exemplo, ou uma doença.

É interessante perceber então que o ‘ser’ não se confunde com a doença, embora a doença possa servir de matéria-prima para nossa experiência de “ser”.

2 Respostas para “O que é SER

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