O que é ser homem

Num programa do Café Filosófico, Contardo Calligaris nos propõe uma questão que me parece importante: em que consiste ser ‘homem’, afinal, nos dias de hoje?

No percurso de sua resposta, o psicanalista parte de uma ideia aparentemente inusitada: a de que o homem é um ser de sonhos e divagações, e à mulher caberia o pragmatismo da vida cotidiana.

***

Essa oposição trazida por Calligares parece se sustentar, quando olhamos para os exemplos práticos. O homem estaria sempre buscando por algo maior, algo ‘além’, algo mais do que aquilo que possui. A mulher seria, em contraposição, muito mais realista: solidamente ligada ao chão, ela representaria uma forma de existir mais engajada ao presente, ao que está aí.

Por sua própria oposição, o homem engendraria uma necessária decepção na mulher com quem se casou. E a mulher transmitiria essa decepção ao filho homem, que, enquanto homem, partiria para o mundo montado em seu cavalo onírico, buscando realizar os sonhos.

O perigo do homem estaria justamente nesse seu devaneio, que em geral reconhecemos na busca do gesto heróico: fazer um sacrifício, doar-se por algo que seria, a princípio, mais importante do que a própria vida. O que, tem seu valor, pontua o psicanalista, lembrando da importância dos combatentes na segunda grande guerra.

***

Até onde posso ver, creio que o autor aponta numa direção correta, mas com a intensidade errada. Conforme comentei em outra postagem, parece ser comum aos lacanianos a ideia de que haveria uma alienação completa da subjetividade ao Outro.

E essa ‘completude’ na alienação é necessária ao argumento de Contardo. Assim, se nossa mãe se decepcionou no casamento, essa decepção – completa -, essa busca por um homem melhor, pode ser transmitida para o filho, e direcionar – completamente – a sua vida. Se sairmos do absoluto da decepção ou da alienação, o argumento cai; fica muito mais fraco.

O que me parece verdadeiro no argumento de Contardo é que o homem, em geral, é muito mais sonhador no amor; enquanto que a mulher, apesar do que dizem os romances (ou ainda: como mostram os romances… entendidos enquanto desejos do homem), tende a ser mais realista. Argumentei algo semelhante neste post.

No tocante ao sonho, acho que valorizando o aspecto sonhador ligado ao gênero, Contardo acaba minimizando o sonho enquanto defesa humana contra a realidade. Isto é, o sonho em geral, a “terceira área da experiência”, como dizia Winnicott, o sonho como cultura.

***

Numa outra linha de solução, Winnicott diferenciava um impulso ‘masculino puro’, ligado à ação, e um impulso ‘feminino puro’, ligado ao SER. Todos teríamos um pouco dos dois impulsos, que teriam mais a ver com modos de existir do que com gêneros ou escolhas sexuais.

Voltando ao Contardo, é como se, nele, víssemos as duas tendências bem desenvolvidas, e ficássemos cativados tanto por sua maneira de ‘ser’ – seu impulso feminino – quanto por sua atitude – seu impulso masculino, seu conceito.

Assim, como acontecia com um professor meu, Contardo parece ser aquele tipo de autor que cativa apesar do que fala… Independente do que ele esteja argumentando, somos cativados pelo seu jeito bonachão, brincalhão, e inadvertidamente misturamos sua atitude com seu conceito.

Em proveito do conceito, claro.

*****************

(PS.: não sei se é parte da ‘sedução’ de Contardo, mas fico com a impressão que, com sua história e experiências, ele meio que já não se importa muito de estar certo… como se, a partir de certa idade, a gente só quisesse contar uma boa história, não se importando mais de contar a história ‘certa’…)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s