O inconsciente depois de Freud – segunda parte: O “Eu”, o “outro” e o amor.

Na primeira parte dessa série chegamos a algumas conclusões acerca do conceito de inconsciente em Freud. Em resumo:

  • o inconsciente NÃO É uma “coisa”; NÃO É um lugar; NÃO É uma parte do cérebro; mas sim um modo de funcionamento, um modo particular de RELAÇÃO ENTRE CONTEÚDOS PSÍQUICOS.
  • apesar de ser um modo de funcionamento entre conteúdos psíquicos, o inconsciente parece manter uma abertura para eventos / objetos do mundo externo. Tanto é assim que o terapeuta consegue atuar sobre o inconsciente, usando a transferência do paciente.
  • haveria uma relação entre o inconsciente e o “Eu”; Freud gostaria de ter avançado no estudo do “Eu”, em sua relação com o inconsciente.
  • O inconsciente não é a mesma coisa que o reprimido (embora todo reprimido seja inconsciente).

Nesse post, quero comentar duas coisas sobre essa noção de inconsciente, ainda em Freud. Quero falar sobre a relação entre o inconsciente e o “Eu”, e sobre as conexões entre o inconsciente e os objetos de amor (o outro). Como veremos, os dois pontos também se relacionam entre si.

***

Começando com os objetos de amor. Num texto fundamental chamado “Psicologia das massas e análise do Eu”, Freud propõe um paralelismo entre os fenômenos da hipnose, do comportamento de massa e do apaixonamento. Nos três fenômenos, haveria uma identificação tão forte com um objeto externo, que esse objeto passaria a ocupar o lugar do “Eu”.

(Uau! Como assim? Péra… Uma pausa para respirar, por favor…

Pronto! podemos seguir… )

Trabalhei mais longamente esse ponto neste artigo aqui. Para nosso objetivo atual, basta lembrar de algum exemplo típico de paixão. O que vemos alí? O sujeito está tão apaixonado, tão tomado pelo objeto de amor, que literalmente passa por cima de si mesmo, não mede esforços, para conquistar – ou, quase diríamos, obedecer o outro.

Como é possível isso? Ou seja, como é possível que deixemos de nos cuidar, de fazer aquilo que nos é benéfico, em prol de um objeto exterior? A resposta de Freud é simples: na paixão, o sujeito põe o objeto de amor no lugar do seu “Eu”. O outro, o objeto, passa a ser o “Eu”. E assim como você comanda o “seu” braço, sem nem ouvir se ele concorda ou não, o objeto, agora investido dos poderes do “Eu”, mandará em seu corpo – e em sua alma -, sem nenhuma oposição.

***

É impressionante o alcance da proposição freudiana. Porque, observando o apaixonado dessa perspectiva, percebemos claramente como todo o seu aparato mental fica tomado, fica obcecado pelo objeto externo, a ponto de, vamos repetir, negligenciar abertamente os cuidados ‘consigo mesmo’.

Todos conhecemos a história: alguns deixam de comer; outros terão dificuldades para dormir, ou mesmo pensar, em qualquer outra coisa que não… o objeto. Aquele concurso tão desejado, do qual talvez dependa o futuro do apaixonado? Passa imediatamente para segundo plano… Em casos extremos, alguns tentarão tirar a própria vida, ao verem a paixão naufragar, numa demonstração trágica da importância que o outro ocupa em sua própria economia libidinal.

Haveria muito o que falar acerca disso. Mas, para manter nosso objetivo, quero apenas tirar a conclusão que se impõe, ao menos na minha leitura, qual seja, a de que o “Eu” se forma de maneira análoga à paixão, em todo sujeito. Ou seja, nosso “Eu” seria formado do conjunto ou dos restos das identificações – apaixonamentos, podemos dizer – estabelecidas ao longo da vida… em especial, das primeiras paixões, vividas com os pais.

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Aceitando a premissa freudiana, não haveria dificuldade em entender como isso simplesmente retorna, a cada nova experiência de se apaixonar. Aquela mesma comunhão do “Eu” com o “outro”, aquela mesma submissão do aparelho mental ao novo objeto de amor…

Isso ajudaria a explicar, ainda, como o analista, um objeto externo, pode agir sobre o inconsciente do paciente: basta utilizar sua transferência, isto é, sua paixão, ocupando um dos lugares estruturados por ela na relação terapêutica.

Finalmente, esse processo nos daria o modelo através do qual a análise mudaria inclusive o “Eu” do paciente, na medida em que o “Eu” se forma através da identificação com os objetos de amor – modificados ou atualizados pela análise.

***

“Certo, tudo isso é muito interessante, massss…” – poderia dizer algum leitor – “… o que isso tem a ver com o inconsciente?”. Pois então…

O inconsciente, conforme comentamos na primeira parte, seria uma forma específica de relação entre conteúdos mentais. E no relacionamento amoroso, no apaixonamento, teríamos esse mesmo tipo de relação “projetado pra fora”, isto é, explicitado, agido.

A paixão – e poderíamos dizer, de modo geral, o desejo – são situações onde o inconsciente parece mais ‘palpável’. O fato de o apaixonado descuidar de si mesmo, por amor, exemplifica claramente, a meu ver, o poder do desejo inconsciente sobre o “Eu”, e igualmente o desconhecimento / despertencimento do “Eu” em relação ao inconsciente.

Dito de outra forma: o “Eu” não sabe exatamente porque se ‘rebaixa’, na paixão. Ele não controla isso. Ele é mais o efeito desses acontecimentos, do que sua causa. Todo o processo, poderíamos dizer, se passa de forma ‘inconsciente’, do ponto de vista do “Eu”.

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Para finalizar, quero destacar alguns pontos que usarei nos próximos textos dessa série:

  1. O inconsciente, enquanto forma de relação entre conteúdos mentais, implica um “não sabido”, ou seja, a relação inconsciente pode não coincidir nem com a consciência nem com o “Eu”.
  2. Esse ‘não sabido’ implica em pelo menos mais uma “camada” de significado para cada acontecimento. Assim, no apaixonamento, o sujeito percebe, sim, alguma coisa, mas, por baixo dessa consciência de ‘estar apaixonado’, estaria ocorrendo o processo de identificação com o objeto, o qual não é consciente.
  3. Essa nova camada de sentido é típica da psicanálise; ela decorre do postulado de que o “Eu” é EFEITO dos processos inconscientes, mais do que sua causa. Não há nada de estranho, portanto, em entender que o sujeito – seu “Eu” – pode não saber o que está se passando com ele, a nível inconsciente;
  4. Para resumir, em Freud, o inconsciente é estruturante e primeiro em relação tanto ao “Eu” quanto aos objetos. Primeiro haveria o inconsciente e suas necessidades; depois viriam o “Eu” (como um dos efeitos das identificações inconscientes) e o objeto.

2 Respostas para “O inconsciente depois de Freud – segunda parte: O “Eu”, o “outro” e o amor.

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