Individualismo, capitalismo e a perda das narrativas sociais

Dia desses, conversando com um amigo, ele me contou que em uma região da China budista, o costume diante da morte é mais ou menos o seguinte: o falecido fica com a família por três dias; depois, é entregue a um mosteiro, onde os monges limpam o corpo, o preparam com algumas orações, e… o cortam em pedaços! Que serão depois entregues aos pássaros.

A ideia, penso eu, talvez tenha a ver com retornar ao ciclo da vida (o que aconteceria de qualquer forma, mesmo no nosso costume). Mas o que me chamou a atenção na conversa foi imaginar algum dos nossos reclamando diante dos monges: “EU não quero que meu ente querido seja picotado! EU não concordo com esse costume! EU tenho o direito de fazer diferente!”, etc.

Ou seja, a história me fez perceber como, na nossa cultura, a oposição do indivíduo ao social faz com que, no limite, o social (e seus costumes) se torne impossível.

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Me explico. É claro que ainda vivemos em sociedade. É claro que ainda existem (alguns…) costumes e modos de vida sociais. Mas também é nítido, para quem conhece um pouco de história, o quanto nosso ‘social’ está esvaziado. E o individualismo talvez seja o grande fator de mudança, aqui.

Por ‘individualismo’ estou entendendo uma valorização sistemática do indivíduo, que começou recentemente na história mundial, mais ou menos acompanhando o capitalismo. Estariam eles relacionados?

A meu ver, o indivíduo, enquanto experiência subjetiva, é quase tão antigo quanto a sociedade. Agora, o quanto disso foi permitido no espaço social? O quanto disso foi valorizado? E, questão principal, o quanto disso foi utilizado para fins outros que não o indivíduo?

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Me explico, de novo. A questão que quero colocar é até que ponto a valorização (social) do indivíduo não acontece apenas para alicerçar o capitalismo? Ou, dito de outra forma: quais âmbitos da experiência social estão abertos à expressão dessa tão valorizada individualidade, que não o comprar ou o ter?

Podemos ser indivíduos numa sociedade de diversas formas. Podemos valorizar o modo como nossos pares nos percebem; podemos fazer um chapéu espetaculoso, ser um bom guerreiro ou talvez cantar de uma maneira especial.

A ‘individualidade’ se expressa através de variados registros. Mas o que me parece acontecer em nosso meio, a partir do surgimento desse individualismo, é um esvaziamento desses registros, uma perda das narrativas comuns, dos costumes sociais, tradicionais.

Quase como se só tivéssemos uma maneira de participar do social, do comum: comprando.

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A consequência mais imediata desse esvaziamento das narrativas/costumes é que cada vez mais nos atemos ao “cerne” dos acontecimentos sociais, quando não os pomos em questão.

O casamento, por exemplo, o ritual de ‘casar’, hoje é um costume vazio, sem sentido… OU é ainda um resquício desse outro tempo, onde o costume social contava. No geral, me parece mais algo que as pessoas sentem como imposto – seja pela igreja, pelos parentes ou pelo costume… e não algo vivido como uma comunhão, como um acontecimento social.

O que é óbvio, porque ‘casar’ é dizer a sociedade: esta(e) é minha(meu) esposa(o); o sentido do casamento é social. Quando o transformamos em uma simples festa particular, individual… seu sentido se perde.

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Acontece que não existem indivíduos fora de um grupo social. Não vou me estender sobre esse ponto, que já abordamos em diversos outros posts por aqui. Mas, se precisamos do social para existir, e se estamos esvaziando nosso social… o que acontece??

O que acontece é um indivíduo desamparado. Abandonado, entregue, sozinho, à vida. E à vida crua. Sem os anteparos que as narrativas poderiam lhe proporcionar. Um indivíduo que precisa encontrar – inventar – sentidos próprios para tudo, para todos os acontecimentos, e que, em consequência, se encontra muitas vezes perdido.

Um indivíduo que não tem as ferramentas sociais que foram construídas ao longo de milênios, para dar significado ao que, literalmente, não o tem: a morte; o crescimento; o amor; as etapas da vida; as decepções da vida…

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Pretender que alguém vá encontrar o sentido da vida comprando é, no mínimo… ingênuo. Mas talvez também maquiavélico, na medida em que se sobrevaloriza o individuo em detrimento de toda narrativa social.

Mas é a isso que somos convidados. Essa parece ser a única narrativa social que sobrou. Uma narrativa bem pobre, já se vê. Um problema que somos convidados a resolver, como sociedade. Mas pra isso é preciso que exista sociedade…

3 Respostas para “Individualismo, capitalismo e a perda das narrativas sociais

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