Pensamento x sociedade

Winnicott é um pensador cheio de surpresas. Você começa a ler, e ele parece simples, tosco, até, às vezes. Mas então, de repente, surge uma ideia extraordinária, uma espécie de monstro, uma resposta para tantas e tão longevas questões que você fica pensando onde esse cara achou tempo para ler toda a história da filosofia, das religiões, da psicanálise… e ainda manter uma clínica e um casamento, o que não é pouco.

Muitas de suas ideias tem esse duplo caráter: são ao mesmo tempo simples, quase óbvias, mas contém também algo disruptivo, inovador, capaz de dialogar com muitas outras tradições.

Hoje, pela primeira vez, me dei conta de que talvez sua concepção do que seja um ‘pensamento’ tenha esse caráter duplo.

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Para Winnicott, nossa subjetividade se estrutura a partir das relações com o ambiente. Vale dizer, de certa forma, O AMBIENTE É NOSSA PRIMEIRA SUBJETIVIDADE. É ele quem vai ‘ler’ nossos desconfortos e os significar / resolver. É ele quem vai nos apresentar os objetos que parecemos estar em vias de poder criar. É ele quem vai nos proteger e trabalhar (regredindo sua própria subjetividade) para que possamos ter a esperança de que, de alguma forma, existe uma continuidade entre nossa vivência interior e aquilo que acontece lá fora, no ‘mundo’ (que, nesse início, se confunde com o ambiente realmente identificado, realmente em continuidade).

Todo esse trabalho do ambiente não é exatamente “percebido”. Para o bebê no início da vida, os contornos são muito difusos, e ele ainda não consegue distinguir entre o que é “ele” e o que é “o ambiente”. Tudo que ele consegue integrar tende a ser vivido como parte dele, bebê. Pedaços de uma subjetividade ainda em vias de se montar. Mas o que importa aqui é que estou falando em esperança, em integração, em continuidade, em criação… mas NÃO estou falando em pensamento.

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Dito de outra forma, para Winnicott, existe uma primeira forma de “saber” ou de “existir” QUE NÃO ENVOLVE O PENSAMENTO. Essa estruturação do ser ou do existir se desenvolveria em função dos cuidados concretos do ambiente, da maior ou menos capacidade desse de encontrar o bebê ali onde ele está pronto para estar/existir.

Digamos, para simplificar, que essa forma de existência anterior ao pensamento DEPENDE DE UM CERTO SUPORTE ÓTIMO para funcionar. Se tudo vai bem, se há sobreposição entre os movimentos integrativos do bebê e aquilo que o ambiente fornece, então o pensamento é… desnecessário.

Realmente, na teoria winnicottiana, o pensamento só surge OU como um complemento, uma finalização desse processo de saber/existir que é NÃO pensado, mas vivido; OU como uma REAÇÃO justamente à problemas na integração dessas vivências com o ambiente.

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Pensar seria, quando as coisas não ocorrem tão bem, uma espécie de SUBJETIVIDADE SUPLEMENTAR. Como disse no início, para o bebê, o ambiente É sua primeira subjetividade. Quando as primeiras relações entre a criança e isso que seria seu molde subjetivo não funcionam, um desfecho possível, segundo Winnicott, seria inflar o pensamento.

Toda a questão para o ser humano, da ótica que estamos trabalhando aqui, seria conseguir instaurar alguma espécie de continuidade significativa entre suas experiências corporais / subjetivas e aquilo que está no mundo, a ‘realidade’, mas também as pessoas, especialmente as pessoas que são importantes para nós.

Se essa continuidade não acontece NA REALIDADE, o sujeito pode se ver obrigado a criar uma continuidade NO PENSAMENTO. Pensar, assim, se torna uma função defensiva. Em vez de ser o acabamento de um processo integrativo vivido, torna-se uma função autônoma, que tenta substituir essa continuidade (nesse caso, não acontecida) com o ambiente.

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Nada disso é novo, e, pelo menos em psicanálise, poderia passar batido. Mas o que em Winnicott ganha nova dimensão é a possibilidade de entendermos que O PENSAMENTO OPERA ALI ONDE O SOCIAL SE AUSENTA.

Isso porque, para nosso autor, a sociedade é a ‘herdeira’ desse primeiro ambiente onde nossa subjetividade encontra suas raízes. Retomando, então, nossa frase, diríamos que há uma relação entre a exacerbação do pensamento e a falta de suporte ambiental / social.

Sendo assim, é possível pensar que, à nivel de sociedade, toda a falta de vinculos e de suporte que percebemos em relação ao social esteja conectada intimamente à exacerbação do pensamento que se tornou a nossa cultura.

Olhadas dessa perspectiva, todas as querelas e discussões do pensamento mudam seu centro de gravidade. No mundo acadêmico, por exemplo, quanto do valor do pensamento não estaria em sua capacidade de CRIAR GRUPOS, vínculos, “aliados” e “oponentes”, ou seja, EM CRIAR CONTINUIDADES SOCIAIS? E não no ‘pensamento’ em si mesmo?

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Muitas correntes filosóficas vão ao encontro dessa leitura. Nietzsche, por exemplo, foi muito claro ao tomar partido contra o pensamento, especialmente o erudito, aquele que, para ele, se afastava da vida concreta. Também W. Benjamin, com seus trabalhos sobre o desencantamento do mundo moderno, me parece tocar nessa questão, à medida que um mundo ainda ‘encantado’ é um mundo misterioso, experienciado sem tantas camadas de ‘saber’ como anteparo. Pensar o mundo pode esvaziar o mistério. O vídeo abaixo, de C. Dunker e J. Pessanha, toca nessas questões – segundo minha leitura – a partir de várias perspectivas diferentes.

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Para concluir, não se trata de abandonar o pensar, embora o pensamento dissociado da vida pareça, sim, ser um problema. Winnicott era claro em dizer que, muitas vezes, um pouco de doença é preferível à muita saúde – no que encontra Nietzsche novamente.

Toda a questão estaria não na doença em si, mas na sociedade, ou em sua capacidade de acolhimento desse pensar. O pensamento não se desgruda das condições concretas daonde ele surge… e ‘demanda’, por assim dizer, uma sociedade específica, capaz de suportá-lo.

Nosso problema estaria muito mais, creio, nessa desvinculação pretendida entre o que pensamos e o que podemos acolher, como sociedade. Ao mesmo tempo que especialistas fazem o pensamento avançar quilômetros à frente, a maior parte da sociedade não tem condições sequer de entender do que se trata. E isso, essa dissociação, é o problema.

Comunicado, posto pra circular, acolhido, mesmo o pensamento ou a doença se transformam em algo passível de integração. O acolhimento social me dá os meios de fazer meu próprio acolhimento em relação ao pensado. Por outro lado, o pensamento sozinho, dissociado, mal se distingue da alucinação –

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[Poderia dizer: o pensamento é disruptivo. Mas porque a ‘disrupção’ seria um valor em si? A questão é sempre pensar a coisa em si e o seu contexto, juntos: o pensamento e a sociedade que o contém. Onde está o pensamento para a nossa sociedade? Onde está a sociedade para nosso pensamento? “Pensar” para um povo ‘porvir’ não seria irresponsável? Abandono? Recusa, no fundo, do povo que “há”?]

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