Uma história inventada

Nessa história, nada é verdadeiro; tudo é inventado. Talvez até o título seja falso.

É a história de um lugar – que obviamente não existe – onde o governo paga suas contas criando mais dinheiro. Como existe mais dinheiro do que produtos, o dinheiro passa a valer menos, num processo chamado de ‘inflação’. Mas como o governo é o primeiro a usar o dinheiro novo, a inflação não vale pra ele. Quem paga a diferença é o povo.

Felizmente, como disse, isso é tudo inventado. Porque seria terrível pensar que, a cada ano, o patrimônio da massa inteira dos cidadãos seria diminuída em 3, 4, 10, ou mais porcento, apenas porque o governo não quer ser responsável pelas suas contas. Isso sem contar os impostos, claro.

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O pior, nesse lugar que não existe, é que as pessoas (puramente inventadas, repito) não entendem o que significa ‘inflação’; então, acham que estão fazendo bons negócios, quando não estão!

Compram casas, por exemplo, e pagam um valor bastante alto de juros. “Mas é um ótimo negócio”, ela dizem, “paguei 100 mil pra comprar, e hoje ela vale 300 mil”, dizem, com um sorriso no rosto. Elas nunca calculam o quanto dessa diferença foi inflação. Ou o quanto à mais tiveram que pagar de juros (já que o banco, esse sim completamente inexistente, não ia se deixar enredar pela depreciação da moeda, e a inclui ela em suas contas).

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Em parte, pela inflação, em parte pro um atraso que tem toda cara de ser mantido ativamente – e esse é outro motivo para esse lugar não existir, pois onde poderia existir um lugar assim? -, esse lugar inventado é um tanto pobre. As pessoas não tem muito excedente, e o que é pior, quando tem, não guardam. Gastam. Vivem da mão pra boca, talvez se precavendo contra os efeitos nocivos da inflação, que já foi assustadora.

Então, como todos são pobres, eles valorizam muito todos os sinais de riqueza. Tudo que faz parecer que não se é pobre. Logo se vê, por isso, que esse lugar realmente não poderia existir, pois não faz sentido nenhum você se endividar apenas para parecer algo que você não é. Ninguém faria isso, nunca. Esse lugar realmente não existe.

Então essas pessoas inexistentes compram carros. Mais uma vez, se endividam, pegam empréstimos, sofrem perda de patrimônio. “Mas um carro é um baita negócio!”, dizem. E continuam: “Primeiro porque seria impossível viver sem”, o que parece plausível para um lugar inexistente. “Mas principalmente porque o carro nos dá tanto… A gente usufrui da dignidade dele, se sente mais forte, até abusa dele um pouquinho, porque a gente dá o que recebe, né.” E se julgam muito espertos, porque conseguem vender com ganho, e correm pra contrair nova dívida.

A dívida, por algum motivo inexistente, parece equivaler ao ‘sucesso’. Pessoas bem endividadas seriam pessoas bem sucedidas; e isso precisa ser mostrado aos outros. Não faz sentido nenhum você ser independente e ter seu dinheiro sem que isso apareça. É muito mais lógico você não ter dinheiro, mas aparecer.

Eis aí outro argumento para a inexistência do lugar. Porque fica a impressão de que os que se acham mais espertos são justamente os que se afundam mais nesse tipo de coisa. Mas é impossível existir um lugar onde justamente os mais tolos são os que se acham mais espertos.

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É lógico que, mesmo num lugar inexistente, se as pessoas não poupam, elas não tem como se socorrer, em momentos de necessidade. Então é possível pensarmos que, apesar de não existir, nesse lugar se crie uma espécie de bola de neve, de ratoeira, onde o produto somado da irresponsabilidade dos governos e da não menor irresponsabilidade dos cidadãos equivalha a uma espécie de escravidão.

Quer dizer, ninguém precisaria ser escravo, mas as pessoas quase que querem – em sua inexistência, bem entendido. É como se elas dissessem: “prefiro ser escravo à ficar sem minha casa”, quando na verdade a casa os está escravizando. Parece que eles confundem ‘liberdade’ e ‘escravidão’, mas, não sei, talvez isso seja uma característica da inexistência.

Isso parece se sustentar na medida em que, quando alguém sai dessa ratoeira, logo é criticado pelos demais. “Volte aqui”, eles diriam, se existissem, é claro. “Volte aqui, e retome suas dívidas. Quem você acha que é para não estar endividado? Você acha que não precisar se mostrar? Você acha que é melhor do que nós?”. E então eles xingam e odeiam aquele que escapou da escravidão, como se ELE fosse o problema.

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Felizmente, como disse desde o começo, esse lugar não existe. Tudo que falei aqui é pura mentira. Talvez até mesmo esse final.

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