A arte e o real – Bergson & Winnicott

 

Às vezes, escutando certas músicas, sou tão tomado pelo som que é como se algo em mim, algo que só posso chamar de ‘meu ser’, se desvanecesse, diluindo-se, e se casasse com o andamento da música.

 

Cada nota é, penso então, exatamente a nota que eu escolheria tocar, se tivesse escolha; mas eu não escolho; nem sei que nota vem, ou virá. E, considerando bem, isso nem importa. A questão não é a nota, mas a entrega. É essa comunhão, essa hipnose, esse ser-um com o som.

 

Somente sigo, então. Deixo-me ir, como que embalado pela música. Entro em uníssono com ela. Enquanto ela dura, ela e eu somos um só. Enquanto ela dura, acho que posso dizer, eu sou a música. 

 

***

 

Pensando sobre essa experiência, lembrei de um trecho de Bérgson, relativo ao sentido da arte. Discorrendo sobre o riso, Bergson pergunta:

 

“Qual é o objeto da arte? Se nossos sentidos e consciência fossem diretamente impressionados pela realidade, se pudéssemos entrar em comunicação imediata com as coisas e conosco, acredito que a arte seria inútil, ou melhor, que seríamos todos artistas, pois nossa alma vibraria então continuamente em uníssono com a natureza.” (Bergson, 2004, pg 112/113)

Entretanto, prossegue o filósofo, a vida prática se interpõe entre nós e nossa própria consciência,

 

“apagando o inútil e reforçando o útil de maneira a traçar de antemão caminhos para minha ação: são os caminhos que a humanidade inteira passou antes de mim. As coisas foram classificadas em vista de sua utilidade, e é muito mais essa classificação que percebo nas coisas do que sua cor ou forma  […]. Meus sentidos e minha consciência, portanto, só me entregam da realidade uma simplificação prática.” (idem, pg 113)

Felizmente, para o artista e para o poeta, esse véu entre o sujeito e sua própria consciência é menor (ibidem). O objeto da arte, portanto, seria nos devolver, ao menos em parte, aquele artista que seríamos naturalmente se não estivéssemos tão agarrados ao agir, à vida prática.

 

***

 

Winnicott traça um panorama semelhante, ao nos propôr a necessidade de uma ilusão de onipotência no bebê pequeno; ilusão sustentada pelo ambiente e, somente aos poucos, relegada a segundo plano.

 

A questão, para Winnicott, é que não suportaríamos a realidade em sua forma crua. O real é o ego-distônico em si, e a criança ainda não foi conquistada para a vida, ainda não tem ferramentas para lidar – ou acreditar que pode lidar – com tanta dureza. Ela precisa, primeiro, acreditar que entre ela e a realidade não há diferença. Ela precisa acreditar que há continuidade entre ela e o real… para, só então, suportar as descontinuidades que hão de vir.

 

E um bom ambiente sustenta justamente isso: a ilusão de que, do ponto de vista da criança, não há muita diferença entre ela e o real. Ela se sente em uníssono com as coisas; o cuidado materno faz com que não existam grandes quebras em sua nascente percepção de si e do mundo. A criança ainda não precisa agir – lembremos do pragmatismo de Bergson ; portanto, está livre para criar, para se deixar embalar pelo real, criando, como artista, aquilo que existe.

 

***

 

Uma das grandes tarefas do amadurecimento emocional, para Winnicott, será justamente reencontrar algo desse artista que fomos na relação com a realidade. Quer dizer, permitir um certo relaxamento, uma regressão da organização psíquica até aquele ponto onde nossa percepção não distinguia tão claramente entre nosso ser e o ser do mundo, entre nós e as coisas. Até aquele uníssono que nos faria a todos artistas, e a tudo, obra de arte.

 

Esse ser-um com as coisas, essa comunhão advinda de um certo desestruturar-se, é bem mais ou menos aquilo que Nietzsche propunha com a ideia do amor-fati. É também o que muitas religiões propõe, creio eu.

 

Para Winnicott, esse seria um modo de ser essencialmente criativo, em permanente oscilação com outros modos de ser, menos regredidos ou mais práticos, como queria Bérgson. Mas o importante nisso tudo, para mim, é a sugestão winnicottiana de que só suportamos o real na medida em que o criamos. Isto é, na medida em que temos o cuidado de criar as coisas ali onde elas estão, onde as percebemos, para não sermos então nem pura submissão ao real – obedecendo, puramente, às suas ordens- , nem pura loucura – determinando, isolados, onde a realidade está. 

 

***

 

Mas não apenas criamos o que já existe. Nós também temos nossa opinião pessoal; nosso modo idiossincrático de ver as coisas; o uso particular que damos a essa ou aquela parte da realidade. Enfim, pequenas loucuras que, como a arte, preservam nossa sanidade, nos fazendo sentir que, pelo menos ali, estamos ainda em uníssono com as coisas —

 

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Referências:

 

BERGSON, H. 2004. “O Riso”, Ed Martins Fontes, São Paulo.

 

 

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