O papel do ambiente na evolução – sustentabilidade

sabana africana

Está bem estabelecido o mecanismo proposto por Darwin de que a vida avança a partir da seleção natural que o ambiente exerce sobre cada espécie de ser vivo. Embora esse ponto nem sempre seja levado em conta, não existe adaptação melhor no vácuo: o próprio critério de seleção do que é ‘melhor’ é o ambiente. Não existe um critério de superioridade ou inferioridade em si, mas sempre no contexto ambiental.

Pense na respiração dos peixes, por exemplo, extremamente adaptada para a vida embaixo d’água, mas inútil fora dela; ou no rabo dos macacos, útil num ambiente com muitas árvores, inútil (e até perigoso) num ambiente sem elas.

Já comentamos num post anterior (que você pode ler aqui) as analogias que encontramos entre essa noção de ambiente darwiniana e o papel do ‘ambiente’, tal como proposto por Winnicott. Neste post, gostaria de comentar um outro aspecto dessa relação.

 

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O fato de ser o ambiente aquele que seleciona o ‘melhor adaptado’ implica numa certa dependência dos organismos – ou de sua evolução – em relação ao ambiente. Isto é, não só a evolução precisa ser avaliada no contexto de um ambiente específico, mas também é necessário que a evolução atenda certos critérios ambientais, o que acaba implicando numa ligação íntima entre todas as espécies de um mesmo ambiente.

Por exemplo, num ambiente árido, desértico, podemos ter certeza de que todas as espécies selecionadas para sobreviver ali terão desenvolvido algum modo de lidar com o contexto aonde estão inseridos: pouca água, sol forte, poucas espécies de vida para servir de alimento… por isso mesmo, todas as espécies adaptadas para esse ambiente terão uma ligação entre si, por mais indiferentes que pareçam umas às outras. Elas se desenvolveram como respostas ao mesmo tipo de problema, ao mesmo tipo de questão, poderíamos dizer.

Um exemplo talvez mais claro: numa floresta, geralmente há grande grau de inter-dependência entre as espécies: assim, o capim alimenta os animais herbívoros, cuja urina e fezes devolvem um tanto de nitrato e nutrientes para o solo; esses herbívoros poderão servir de alimento para outros animais carnívoros; e todos – o capim, os herbívoros e os carnívoros, estarão numa relação de limitação recíproca: os carnívoros serão limitados pela quantidade de herbívoros, os quais serão limitados pelos carnívoros e pelo capim, o qual depende, em parte, dos herbívoros…

 

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Essa interdependência entre as espécies significa também que as formas de vida tendem a constituir uma grande rede, um enorme sistema de relações, onde nenhuma espécie pode ser pensada isoladamente. A inter-dependência mútua implica num certo entrelaçamento de todos com todos. A vida forma um sistema, uma teia, onde, repito, não há sobrevivência para quem se distancia muito da lei do ambiente.

Pois bem, o homem mudou isso. A partir do momento em que começamos a utilizar o fogo (pelo menos há 300 mil anos, segundo Harari[1]), começamos a nos soltar das amarras do ambiente, para o bem e para o mal. Com isso, ganhamos em liberdade e poder, mas perdemos em sustentabilidade. Pois as amarras do ambiente, os limites que ele impõe, são precisamente as leis ou a tradução daquilo que pode ser útil para o ecossistema como um todo.

Dito de outra forma, a sustentabilidade é uma coerção imposta pela natureza como uma forma de manter a coesão do grande sistema da vida. Não diz respeito apenas à uma espécie ou outra, mas ao grupo como um todo. Voltando aos exemplos: para os herbívoros, não é interessante que os carnívoros deixem de existir, porque eles exercem uma função útil na seleção dos indivíduos mais rápidos e saudáveis. Mesmo que a existência de uns implique na morte de outros, essa consequência está intimamente amarrada à sustentabilidade de ambos.

 

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Nosso progresso nos permitiu escapar desses limites; e isso nos trouxe, na mesma medida, uma nova responsabilidade – à qual não prestávamos atenção antes, simplesmente porque… não precisávamos. Não éramos ainda tão poderosos.

Mas agora somos. Nossa tecnologia nos permite, já hoje, ultrapassar em muito a medida daquilo que seria sustentável para o ambiente. Pense nas bombas de hidrogênio, mas não só; pense nas demandas de energia, espaço, nutrientes, água, que nossa espécie impõe. Teríamos perecido em outros tempos, a depender somente de nosso cuidado com o meio.

Toda a nossa tecnologia pode ser lida como a progressiva construção de um ambiente propriamente humano ao lado – ou sobre? – o ambiente natural. Olhe à sua volta: provavelmente, 90% ou mais do que vê será um artifício humano – paredes, casas, prédios, janelas, postes, luz elétrica, computadores, carros… Há muito não vivemos em um ambiente ‘natural’…

O que é relativamente novo, nessa história, é a necessidade de atentar para o que excluímos da ‘nossa’ morada – o resto da natureza inteira, as outras espécies todas, antes resguardadas pela lei férrea do ambiente, e agora enormemente desamparadas.

 

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E porque seria necessário atentar para as outras espécies? Primeiro, por simples empatia; somos parte de um mesmo processo vivo, e perdemos algo quando sistematicamente matamos nosso entorno. Apesar das promessas da biotecnologia, hoje ainda dependemos do planeta para sobreviver. Talvez, amanhã, seja outra história. Mas ainda temos que chegar lá vivos.

Mas há motivos mais pragmáticos também: por exemplo, ainda não fomos capazes de criar substitutos artificiais melhores do que uma alimentação natural. Pense ainda no papel imprescindível das plantas e algas para a manutenção das taxas de oxigênio na atmosfera. Ou no papel das abelhas na polinização das arvores frutíferas.

Há também um motivo menos palpável, mas igualmente importante, e que se relaciona  com esse caráter sistêmico ou em rede que parece ser intrínseco à vida: não sabemos até que ponto a vida – a nossa e a do planeta – se sustenta ao perder alguns de seus pilares. O exemplo da polinização das abelhas é apenas um; mas quantos pilares desconhecemos?

 

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A verdade é que esses exemplos fazem pensar mais em nossa incapacidade de existir de maneira sustentável num contexto ambiental mais amplo do que nos poderes de nossa boa vontade. Se não conseguimos nem criar uma alimentação artificial suficientemente boa, porque seríamos capazes de criar formas de viver em harmonia com o resto do planeta, algo muito mais difícil e, provavelmente, muito mais custoso para nós, como espécie?

Estamos numa encruzilhada. Até aqui, tudo que nos fez ‘humanos’ foi alcançado ultrapassando as medidas do ambiente. Nós aprendemos a voar, a controlar o curso dos rios, a ligar continentes pelo mar. Criamos nossas próprias casas, e chegamos a caçar animais muito maiores do que nós. Mas quanto mais “humanos’ nos tornamos, mais deixamos atrás de nós os rastros de nossa ‘hybris’, de nossa desmedida [2].

A única alternativa para manter algo do planeta vivo seria, então, continuar essa ‘ultrapassagem’ do ambiente pelo homem, mas agora num sentido interno: o homem ultrapassando em si mesmo essa vontade de poder incontornável que é, no fundo, ainda, natureza. Mas nós teremos humanidade suficiente para isso?

 

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Referências:

[1] Yuval Noah Harari, em “Sapiens – uma breve história da humanidade”, editora L&PM, Porto Alegre, 2018 – pg 09

[2] Ver Harari, op. cit., pgs 95 a 110.

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