O papel do ‘outro’ em Freud

Escrevi um post esses dias argumentando que existiria uma diferença importante entre Freud e os autores posteriores: todos esses teriam valorizado o papel do ‘outro’ na constituição da subjetividade, enquanto isso não teria acontecido tão claramente em Freud.

Entretanto, relendo o texto sobre “Psicologia das massas e análise do Eu”, encontrei maneiras de defender também a posição contrária, ou seja, a de que o papel do ‘outro’ na formação da subjetividade estava, sim, bem reconhecido e justificado também para o pai da psicanálise. 

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Nesse texto, Freud propôs que a subjetividade individual e a subjetividade grupal – isto é, o funcionamento dos indivíduos nos grupos – se constituem de maneira análoga. Ou seja, tanto numa quanto noutra existe uma relação de amor ou de identificação com um objeto externo, que é, em algum momento, introjetado, e passa a atuar desde dentro do sujeito, mantendo sua autoridade.

Vejamos o exemplo do apaixonamento: um sujeito apaixonado tende a se identificar com o objeto de seu amor. Quem nunca viveu algo assim? Conforme o grau de paixão, sabemos que o apaixonado deixará de gostar das coisas que gostava antes, deixará alguns interesses próprios de lado, e em casos mais extremos deixará até de cuidar de si mesmo, tudo para corresponder às exigências do objeto amado.

O que Freud está nos dizendo é que esse apaixonamento também acontece nos grupos: um objeto externo, ao qual nos afeiçoamos, é introjetado, e passa a atuar desde dentro na subjetividade dos sujeitos. Ou ainda: passa a ocupar o lugar que antes era desempenhado pelo ‘Eu’ (ou pelo ideal de Eu). O que caracterizaria os grupos seria essa identificação de todos com esse objeto – o general, no Exército, ou Cristo, na religião, por exemplo – ao mesmo tempo que todos se identificam entre si como ‘irmãos no amor’.

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A consequência é clara: o que Freud está dizendo é que nosso ‘Eu’ também é o resultado de um objeto exterior introjetado. Nossas identificações com os objetos de amor durante o desenvolvimento emocional acabam constituindo nosso “Eu”; e, durante o apaixonamento, ou nos fenômenos de grupo, outro objeto é colocado nesse lugar, mantendo, no entanto, a mesma autoridade que o ‘Eu’ tem sobre ‘nós mesmos’. (Melhor dizendo, a mesma autoridade que o objeto de amor tem sobre nós).

Isso ainda permite a Freud dar um passo adiante no entendimento da hipnose ou da sugestão: porque o que aconteceria aí seria, também, uma tentativa de substituição do “Eu” do sujeito pela figura do hipnotizador; uma vez que essa figura tenha sido introjetada, ela passa a ocupar o mesmo lugar e ter a mesma autoridade que tinha o ‘Eu’.

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Dito isso, ainda penso que existe uma diferença entre Freud e a posteridade psicanalítica, relativa agora à maneira como se dá esse processo de formação subjetiva a partir do outro.

Em Winnicott, por exemplo, a percepção do outro como outro e a relação de amor e identificação com ele são etapas distintas. Posso, por exemplo, estar identificado com meu ambiente numa etapa inicial do desenvolvimento , mas isso justamente porque ainda não efetuei a separação entre o que seria “Eu” e o que seria o “outro”.

Winnicott parece trabalhar mais nas premissas da constituição da subjetividade, sugerindo que, antes desse momento em que já há um “Eu” para se identificar com um “outro”, efetivamente vivemos o amor como uma indiferenciação, uma mistura, entre o que, depois, virá a se constituir como ‘Eu’ ou ‘outro’. Isto é, o amor objetal repete, de certa forma, uma relação constitutiva da subjetividade que é anterior à própria individualização. Anterior à própria relação de objeto, a rigor (e por isso, também, anterior à própria ideia de instinto ou pulsão, pelo menos na minha leitura).

Nesse sentido, Winnicott aprofunda a sugestão freudiana de que um objeto externo pode se colocar no lugar do “Eu”, apenas indicando que, nesse processo, ocorreria na verdade uma reedição da condição primeira da subjetividade, que era de pura indiferenciação entre o sujeito e o ambiente. (notar as semelhanças disso com a identificação, que o próprio Freud reconhece como a forma mais antiga de relação de objeto; mas no caso, estamos falando de algo ainda anterior).

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Essas diferenças ficam claras quando pensamos no modo como, afinal, o “Eu” se separa do outro. Em Freud, isso não é muito trabalhado, e prende-se à questão de nossa relação com a realidade, tributária da busca de prazer que nos caracterizaria. Ou seja, é algo quase natural [1]. Já em Winnicott, existe a percepção de que não só essa separação pode não acontecer como, quando acontece, é algo difícil, trabalhoso, frustrante.

Afinal, Winnicott parte de um cena onde a mistura entre o sujeito e o ambiente já está dada – sempre que exista uma adaptação funcionante do ambiente, claro. O problema será, então, como abandonar essa mistura, como suportar, subjetivamente, que somos separados, que somos ‘indivíduos’.

A resposta, como vimos em outros posts, está num paradoxo: suportamos a separação do ambiente na medida em que confiamos na possibilidade de encontrar novamente o ambiente. Isto é, conforme acumulamos experiências de encontro (continuidade) com o ambiente, podemos, paradoxalmente, suportar as experiências de DES-encontro. Como se uma equilibrasse a outra.

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Assim, experiências de encontro com o ambiente permitiriam suportar cada vez mais os desencontros, numa espécie de círculo virtuoso onde confiar no encontro e suportar os desencontros vão se alternando / equilibrando / intensificando. Em algum momento desse processo, o “Eu” vai poder ser sustentado como algo diferente do “outro” – o que é, ao mesmo tempo, frustrante e parte do crescimento.

Frustrante porque implica em abandonar essa experiência subjetiva de continuidade com o ambiente. Isso ajuda a entender porque estar amando é tão importante para o sujeito, para além do que possa existir de pulsional aí: essa situação simplesmente repete aquela indiferenciação vivida no início do amadurecimento.

Isso deixa muito claro que, para além do aspecto libidinal ou pulsional que possa estar atuando em cada relacionamento (casais, amizades, hipnose, fenômenos de grupo, etc), boa parte do processo pode ser explicado pela busca do retorno dessa experiência de continuidade com o outro. Ou seja, trata-se mais de algo ligado ao SER do que à PULSÃO. Mas isso é matéria para outro post….

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Notas:

(1) – Na verdade, Freud baseia sua argumentação no princípio de realidade, isto é, na ideia de que, na busca de seu prazer, o sujeito seria obrigado a levar a realidade em consideração, e com isso se afastar de seu mundo de realização alucinatória do desejo. Ao nosso ver, no entanto, esse argumento apenas transporta a questão de um ponto a outro, naturalizando o problema (passar ao princípio da realidade nos permitiria separar o Eu do Outro, mas como suportá-lo sem a realidade da adaptação ativa do ambiente no início do amadurecimento?)

Uma resposta para “O papel do ‘outro’ em Freud

  1. Pingback: O inconsciente depois de Freud – segunda parte: O “Eu”, o “outro” e o amor. | eu(em)torno·

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