A constituição do “Eu” e a realidade em Freud e Winnicott

Em “A teoria estrutural e o futuro de uma (nova) ilusão”, Andrade (2017) defende que a teoria do narcisismo permaneceu como um corpo estranho na obra de Freud (pg 71). Para o autor, o conceito põe em jogo justamente o processo pelo qual o “Eu” vem a se constituir a partir do objeto amado/identificado, abrindo na teoria freudiana um espaço para o ‘outro’ com o qual, talvez, Freud não estivesse tão à vontade.

Esse ponto de vista é compartilhado por diversos autores (Loparic, Fulgêncio, Elsa Dias, etc). Eu mesmo publiquei um texto com argumentação parecida (Revista Rabisco, volume 7, nº 1).

Como bem nota Andrade, Freud percebe que a primeira relação emocional nos seres humanos é a identificação (pg 74), a qual precede a relação objetal propriamente dita. Isso quer dizer que, antes de poder estabelecer com certeza o que pertence ao “eu” e o que pertence ao “outro”, o sujeito sente o outro como parte do eu; ele se identifica com o outro, torna-se idêntico a ele – ou, o que vem a dar no mesmo, constitui-se (também) a partir dele.

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Em Freud, essa confusão inicial entre o ‘eu’ e o ‘outro’ tende a ser utilizada como um complicador a mais para o desfecho da conflitiva pulsional, ao menos na minha leitura. Mas Freud não chega a extrair dela todas as consequências para o estabelecimento da relação do “Eu” com a realidade; ele tende a dar por estabelecida essa relação. Já em Winnicott, essa será uma das questões centrais.

Como vimos em outros textos (por exemplo, aqui e aqui), esse co-pertencimento entre o ‘Eu’ e o “outro” no início da constituição da subjetividade representa, para Winnicott, a base sobre a qual vai se constituir a relação entre o ‘Eu’ e a realidade. Dito de outro modo, a realidade tende a ser vivida, pelo sujeito, como parte do ‘Eu’.

Depois, como já sabemos, essa sensação de identidade ou co-pertencimento tende a se complicar cada vez mais; até o ponto em que o sujeito acaba percebendo a realidade de forma mais objetiva (o que supõe a capacidade de suportar o término da identificação inicial).

Isso não se dá apenas por um acréscimo da maturidade perceptiva, mas, e talvez principalmente, pela ampliação da capacidade do sujeito de lidar com a frustração. Afinal, a identificação é uma forma de amor; logo, ser ‘objetivo’ com a realidade significa abdicar de um apaixonamento constitutivo, basilar.

E como ampliamos nossa capacidade de suportar a frustração? Pelo acúmulo de experiências de identificação, ou seja, por experiências repetidas de encontro entre o “Eu” e a realidade – ou parte dela; nomeadamente, o ambiente mais próximo, os outros significativos do sujeito.

Fecha-se um circuito, onde uma primeira etapa de identificação / apaixonamento é a condição para que possamos, mais tarde, suportar a perda desse “amor” ao real, ganhando em troca uma visada mais objetiva. Note-se que mesmo minguando a identificação, ainda esperamos uma relação previsível, confiável, com o real; e a falta disso é motivo de grande sofrimento (e assunto para outros posts).

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A conclusão que Winnicott nos permite tirar dessa sequência é um tanto paradoxal, mas bem a seu gosto, me parece: para chegarmos a uma relação objetiva (isto é, não identificada) com a realidade, precisamos primeiro ter tido com ela uma relação subjetiva – ou seja, identificada.

Isso nos permite entender muitas situações do cotidiano. Por exemplo, parte do fascínio das redes sociais provavelmente tem a ver com sua forma autorreferida de funcionamento, já que assim elas nos devolvem um pouco daquela ilusão de que a realidade = Eu.

Fica claro também porque é tão difícil lidar com situações muito ego-distônicas, e porque diferentes pontos de vista nem sempre são “apenas” diferentes pontos de vista: o que se discute muitas vezes é um pedaço de realidade que alcançamos a muito custo, uma questão emocional que remete àquela antiga identificação Eu = realidade, e não a questão em sua objetividade pura e simples (veja-se de novo o exemplo das redes sociais).

Entendemos também porque parece haver uma ligação entre a estruturação do “Eu” e a dificuldade de suportar a realidade na psicose, fato já apontado por Freud mas não bem resolvido teoricamente, como nos parece. Ocorre que parte de nossa “crença” no real (ou nossa capacidade de suportá-lo fora da identificação) deriva da confiança / identificação que pudemos estabelecer no Eu quando ele era parte do real, isto é, naqueles primórdios indiferenciados. Logo, a boa estruturação do “Eu” é fundamental para que possamos suportar a realidade enquanto ‘não-Eu’.

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Finalmente, temos na proposta winnicottiana um entendimento daquilo que em esquizoanálise ficou conhecido como a “afirmação da diferença”: afirmar a diferença seria justamente poder integrar esse ‘outro’, esse ‘não-eu’, naquilo que somos, o que resume mais ou menos a direção do amadurecimento emocional conforme Winnicott.

A vantagem que vejo em Winnicott é que ele nos permite entender porque em alguns casos não basta, apenas, “afirmar a diferença”, isto é, ele nos indica as condições concretas a partir das quais essa afirmação se torna possível.

Em minha experiência clínica, muitas vezes me deparei com situações onde o imperativo “afirmar a diferença” parecia fazer sentido, mas era simplesmente impossível para a pessoa em questão. Faltava, hoje eu sei, justamente aquele suporte emocional anterior, aquela identificação mínima entre o “Eu” e algo da realidade a partir da qual nos é possível afirmar mesmo uma realidade “diferente”.

Obviamente, esse suporte não precisa vir apenas da clínica. Qualquer relação capaz de sustentar a identificação necessária pode ser eficaz (como familiares, grupos de amigos, padres, relações comunitárias, etc); o que a clínica tem de diferencial talvez seja uma escuta (em tese) mais apurada, mais sensível, justamente para essas necessidades emocionais mais básicas.

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Referências:

ANDRADE, Victor Manoel, 2017. “Freud e a psicanálise afetiva do século XXI”. Appris editora, Curitiba – PR.

Uma resposta para “A constituição do “Eu” e a realidade em Freud e Winnicott

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