O transicional e a alienação do sujeito

Não sei se é verdade, mas parece que uma primeira versão do texto sobre o estágio do espelho foi apresentada por Lacan enquanto Freud ainda estava vivo; sem escutar toda a apresentação do analista francês, Freud teria feito um gesto para a administração do evento para encerrar a coisa por ali mesmo.

Verídica ou não, a história é ao menos verossímil, porque, com esse texto, Lacan engrossava as fileiras daqueles que, como Ferenczi e Winnicott, iriam propor que a constituição do sujeito em psicanálise passa necessariamente pelo outro.

E Freud não queria isso. Ao menos na minha leitura, Freud sempre tendeu a reconduzir a psicanálise para uma teoria “monádica” do sujeito. Mesmo quando suas próprias percepções sugeriam que havia algo mais do que um circuito fechado de pulsões.

Assim, quando as questões de Jung sobre a psicose fizeram Freud, de forma genial, pensar no narcisismo, o qual punha em questão justamente os limites entre o “eu” e o outro, logo Freud, o ‘hermenêutico’, atacava novamente, e, com a pulsão de morte, reestabelecia os limites, criando uma subjetividade que se bastava sozinha. O outro, já se vê, não tinha nenhum papel nisso.

E nesse contexto, vem Lacan e propõe que a constituição do sujeito, na psicanálise, é necessariamente alienada ao outro.

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Na teoria marxista, o trabalhador é dito “alienado” da sua força de trabalho porque ele não se basta a si mesmo. Morador dos centros urbanos, sem terras ou outros meios de produção, o trabalhador a que Marx se referia só possuía sua força de trabalho, mas – e esse é o detalhe – ele não podia exercer sua própria capacidade de trabalho a não ser no maquinário do ‘outro’ – nas grandes fábricas.

Como essas máquinas não lhe pertenciam, sua força de trabalho restava ‘alienada’ – isto é, não lhe servia. O trabalhador ‘alienado’ era um trabalhador ‘despossuído de si mesmo’; não podia se valer de sua própria força de trabalho, já que ela dependia do ‘outro’ para se exercer, para fazer sentido.

Creio que o uso da palavra ‘alienado’ por Lacan não é casual, portanto, já que o que ele vai propôr com o estágio do espelho é uma espécie de alienação necessária da subjetividade ao outro. Assim como para o trabalhador marxista, mesmo existindo no sujeito algo que lhe seja próprio, que lhe pertença, esse algo só faz sentido – só vira subjetividade – quando encontra suporte no outro. Ao menos é assim que entendo a proposta de Lacan.

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Se a minha leitura faz sentido, os pontos de contato dessa proposta com Winnicott são muitos. Winnicott também vai propor uma espécie de alienação necessária da subjetividade infantil, já que ela necessita do papel facilitador do ambiente para se constituir. Os processos de maturação emocional, por si sós, não funcionam sem um ambiente suficientemente bom, diríamos. O papel do ‘outro’ – ou do ambiente – é fundamental. Assim, é necessária uma certa ‘alienação’ – ou dependência, nos termos de Winnicott – para que a subjetividade se produza.

Porém, há uma diferença importante.

Em Winnicott, o início do processo subjetivo NÃO se dá na alienação; isto é, no início da vida psicológica, o sujeito e o ambiente estão misturados, confundidos (do ponto de vista do bebê), e o papel do ambiente é justamente SUSTENTAR essa ilusão de continuidade ENTRE O SUJEITO E O AMBIENTE, sustentar essa ausência de limites claros.

É somente a partir dessa confiança de que continuidade entre o sujeito e o ambiente – ainda misturados do ponto de vista subjetivo, repito, embora separados para o observador externo – que a subjetividade infantil vai conseguir, aos poucos, estabelecer os limites, “aceitar” que existe algo que é “não-eu”, permitir que algo funcione fora da sua área de onipotência (Cf. DIAS, 2017, pg 190)

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O que estou querendo dizer com isso é que, para Winnicott, no início, ainda não há um sujeito que possa ser ‘alienado’ ao ambiente; esse sujeito só vai aparecer depois, num processo de construção que acontece … apoiado no ambiente, mais do que ‘alienado’.

Embora nesse segundo momento seja possível falar em ‘alienação’ no sentido que expus acima – ser ‘despossuído de si mesmo’ – a verdade é que mesmo aqui a alienação não é necessária. Pois em Winnicott existe a figura do ambiente ‘suficientemente bom‘, que seria um ambiente muito identificado com a criança, e por isso capaz de ser relacionar com ele sem intrusão, estabelecendo um jogo de mutualidade e trocas que, mais uma vez, faz lembrar daquele tempo de mistura e co-pertencimento inicial.

Esse espaço de mistura e pertencimento comum é a matriz do que, mais tarde, será o espaço transicional – lugar onde, para Winnicott, vivemos a maior parte de nossa vida, na saúde. Ora, mas o que o espaço transicional quer dizer, no contexto do que estamos analisando, é que os limites entre o “eu” e o “outro” nunca se resolvem – ao menos não em termos absolutos. Há sempre uma área de mistura e indefinição que constitui justamente o espaço da cultura, da brincadeira, da arte… e é nesse espaço que vivemos, segundo Winnicott.

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Na minha leitura, tanto na ideia de alienação da força de trabalho em Marx quanto na ideia de alienação ao outro de Lacan, é preciso que essa entrega, esse “despossuir-se”, seja absoluto. Senão, o problema da alienação não acontece.

Voltando à analogia, um trabalhador que possuísse outros meios de produção já não seria mais obrigado a vender sua força de trabalho por qualquer preço; ele possui algum meio de fazer uso da própria força de trabalho, e portanto não está absolutamente alienado.

Em termos de subjetividade é mais difícil de pensar isso, mas lembro de um exemplo elencado por DIAS (2017), onde Winnicott nos adverte que os pais, mesmo que quisessem, nunca conseguiriam ensinar um filho a andar se ele já não tivesse um impulso nessa direção. É necessária toda uma programação e uma construção no corpo da criança para que o andar se efetive. Ou seja, trata-se mais de cooperação do que de alienação – pelo menos nos melhores casos.

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Por fim, entendo que, com isso, Winnicott nos oferece uma resposta para uma das questões mais espinhosas da psicologia, que é a questão da individualidade: como é possível ser sujeito, ter autonomia, etc, se toda nossa constituição subjetiva se dá a partir de um outro (já constituído) que nos apresenta tudo – a linguagem, os sentidos, os modos de agir…? Acho que a resposta winnicottiana abarca também o problema do senhor e do escravo, que está no pano de fundo da proposta lacaniana.

Se pensarmos em termos absolutos – a posse absoluta de si, o despossuir-se de forma completa, etc – realmente será difícil não pensar em alienação. Da mesma forma, se partirmos de uma concepção de subjetividade passiva, isto é, que a criança (ou algo nela) não tem papel algum no seu processo de formação subjetiva, também seremos levados a pensar em alienação.

Winnicott resolve isso a partir de duas frentes, como vimos: primeiro, propondo que a questão, na realidade, nunca se dá em termos absolutos. Em segundo lugar, propondo que existe uma tendência natural à integração no sujeito; logo, ele não é totalmente passivo (mesmo que essa tendência, por si só, não seja suficiente).

Eis porque, para mim, Winnicott pode ser caracterizado como o teórico do ‘entre’ (entre o eu e o outro; entre subjetivo e objetivo, etc). Muitas de suas proposições inovam não tanto por trazer novas respostas , mas por sugerir que a nossa melhor solução, como humanos, está em manter as coisas no nível da pergunta. Ou, ainda: em nem mesmo perguntar… às vezes permanecendo entre a pergunta e a resposta… às vezes dissociando a pergunta de sua resposta, de maneira a responder – e não responder – ao mesmo tempo… Mas isso já é matéria para outro texto…

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Referências:

Elsa Dias de Oliveira (2017): “A teoria do amadurecimento de D.W.Winnicott”. 4ª edição. DWW Editorial. São Paulo. SP

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