Winnicott e a causalidade psíquica – o transicional

Relendo um trecho do ótimo “A teoria do amadurecimento de D.W. Winnnicott”, de Elsa Oliveira Dias, cujo resumo quero postar por aqui um dia desses, chamou-me a atenção o seguinte título: “Abandono do determinismo causal” (pg 126).

Lendo o mencionado capítulo, ficamos sabendo que Winnicott teria rejeitado uma visão determinista acerca do ser humano, já que “com a única exceção da tendência à integração e da criatividade originária, todas as características possíveis do bebê precisam ainda ser criadas” (pg 127), e criadas, como o texto deixa claro, no encontro, sempre imponderável, com um ambiente facilitador.

Pode-se dizer, então, que a causalidade direta, essa que geralmente pensamos quando nos referimos à causa (por exemplo: o tiro foi a causa da morte; ou a faísca causou o incêndio), estaria excluída do pensamento winnicottiano relativo à natureza humana.

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Essa não é uma discussão nova. Na verdade, puxando pela memória, lembro que, ainda na graduação, muitas e muitas vezes nos debatemos com a questão de saber se a noção de causalidade aplicável ao mundo material seria aplicável também ao mundo psíquico .

Avançando (para trás) na história, vemos que se trata de uma questão muito antiga, relacionada à outra questão fundamental, que é a de saber se há, afinal, alguma diferença entre o mundo ‘material’ e o mundo ‘psicológico’.

‘Causalidade’ e ‘dualidade mente x corpo’ se conectam, então, de alguma forma. Enquanto essas questões não se decidem, temos apenas teorias… e as noções que a experiência clínica nos sugere.

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O que me chamou a atenção no texto de Elsa é que Winnicott parece ter resolvido as duas questões com uma tacada só; e isso de uma forma bem… dele. Essa tacada seria, no meu entender, a terceira área da experiência, ou o espaço transicional. Falamos um pouco sobre esse espaço nos posts:

Resumidamente, a terceira área da experiência seria uma área intermediária entre o que é percebido como externo e o que já pôde ser considerado interno (ou sob a área de onipotência do sujeito). O grande exemplo é o brincar. Nele, tanto a realidade ‘real’ (mundo externo) quanto nossa imaginação (mundo interno) participam do jogo. Para Winnicott, essa terceira área é o início de toda a experiência cultural. Daí ele dizer que vivemos a maior parte de nossa vida psicológica nesse espaço.

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Ok, mas como isso resolveria o duplo problema da causalidade e da dualidade mente x corpo? Vamos por partes.

Primeiro, o problema da causalidade: trata-se de saber se é possível aplicar aos ‘elementos’ da psique (sejam quais forem) as mesmas relações determinadas que são aplicadas às variáveis do mundo externo. Para isso devemos poder supor que qualquer elemento, por exemplo, uma memória específica, se esgota em si mesmo, isto é, está dada inteiramente num certo momento, ou pode ser isolada de outros elementos.

Já o problema da dualidade mente x corpo implica em saber como, justamente, esses dois âmbitos convergem para a formação da experiência subjetiva comum.

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Ao sugerir que o lugar (psicológico) aonde vivemos a maior parte do tempo é a terceira zona da experiência, Winnicott nos diz que, por um lado, não se trata de ‘resolver’ a questão da dualidade mente x corpo, mas de conviver com ela (e o espaço transicional seria justamente um grande aliado nessa convivência).

Por outro lado, talvez estejamos nos valorizando um pouco demais quando pensamos na possível determinação que a mente teria sobre o corpo. É assim que leio o seguinte trecho de Winnicott, também no livro da Elsa:

“Frequentemente se pensa […] que fazemos os nossos filhos e lhes ensinamos tudo. Exatamente o oposto é a verdade, pois ‘não podemos nem mesmo ensiná-los a andar, embora a sua tendência inata para andar em certa idade precise de nós como figuras de apoio” (pg 128)

Fica claro, creio eu, o quanto a ideia de determinação é enganosa. Porque não poderíamos ensinar uma criança a andar se ela já não estivesse altamente organizada e preparada corporalmente para isso. O papel dos pais, ou da ‘mente’, nesse caso, é muito pequeno – embora necessário.

Da mesma forma, se vivemos nesse espaço de criação, onde justamente a realidade não tem jurisdição absoluta – ela existe, mas podemos desconsiderá-la um pouco, como no brincar -, isso quer dizer que a causalidade, no sentido duro do termo, não se aplica tanto à nossa vida subjetiva. A terceira área é justamente uma área de mistura entre interno e externo; a pretendida determinação ou o isolamento de elementos subjetivos não cabe aqui, já que se trata justamente de mixar elementos criativamente.

3 Respostas para “Winnicott e a causalidade psíquica – o transicional

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