Indivíduo x sociedade (?) – 2 : o édipo

Uma das teses mais controversas de Freud é o ‘complexo de édipo’. Entre erros e acertos, foi certamente um dos pontos mais atacados da psicanálise. Acertos, porque ajudou a consolidar a noção – hoje praticamente um consenso – de que a primeira infância é uma fase fundamental na constituição da personalidade, e os pais são figuras importantes nisso. Erros porque é questionável se ele foi efetivamente aceito fora da psicanálise – e mesmo dentro.

A proposta de Freud é muito ousada e ‘resolve’ teoricamente uma série de questões (o que não quer dizer que seja verdadeira…). Basicamente, a ideia é que por volta dos 3 / 5 anos a criança já é capaz de sentir amor pelo genitor do sexo oposto, e consequentemente passa a perceber o genitor do mesmo sexo como rival. A solução normal desse conflito seria abandonar as pretensões de ‘posse’ sobre o ser amado, e identificar-se com a figura antes odiada – a que detém efetivamente o objeto de amor.

Assim, o menino desejaria a mãe e odiaria o pai, para depois abandonar a pretensão de ficar com a figura materna e se identificar com a figura paterna. Na menina, a situação seria análoga.

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O ganho teórico que a tese do complexo de édipo trás é a resolução de três grandes problemas:

  • o problema da diferenciação dos gêneros (como nos identificamos como homens ou mulheres, psicologicamente falando),
  • o problema da agressividade (o ódio ao genitor do mesmo sexo conflita com o amor que também existe por ele, levando a uma ‘repressão saudável’ do impulso agressivo) e
  • o problema do social (abandonar o objeto de desejo e submeter-se à ‘lei’ de que ele pertence ao outro genitor seria o passo inicial para nossa vida em sociedade).

De certa forma, é como se o conflito fosse uma ‘crise natural’ e necessária, atuando como ‘modelo de solução’ para aquelas três grandes questões. Nesse post, vou me deter apenas sobre o terceiro aspecto, relativo à passagem para o social.

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Como no post anterior, é difícil argumentar contra Freud. Suas teses parecem tão naturais, tão simples e bem articuladas, tão integradas à experiência clínica… mas quando saímos do consultório e tentamos pensar em termos de humanidade, as coisas já não ficam tão simples.

No caso do complexo de édipo, diversas foram as críticas. Uma das mais famosas veio de Deleuze e Guattari, no livro que não coincidentemente intitulado “O Anti-édipo”. De forma resumida, os autores argumentam que Freud teria naturalizado uma experiência que seria específica da burguesia dos últimos séculos no ocidente – ou seja, uma experiência ligada ao capitalismo.

Não haveria nada de ‘natural’ e muito menos de necessário no édipo, portanto. Pelo contrário, ele expressava uma forma de dominação que era preciso questionar mais do que tomar por norma.

Outras críticas vieram da antropologia e das ciências sociais. Na psicanálise mesmo, diversos autores relativizaram ou transformaram o conceito, a ponto de algumas leitura de Winnicott sustentarem que ele criou uma psicanálise não-edipiana (ver, por exemplo, Loparic).

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Uma solução alternativa me foi sugerida pela leitura d'”As duas fontes da religião e da Moral”, de Bergson, quando ele argumenta que, nas sociedades humanas, o hábito equivale ao instinto das sociedades animais (pg 22). De seu ponto de vista, precisamos contrair algum hábito, não podemos viver no vácuo – sendo os hábitos tão necessários que praticamente se tornam leis.

Agora, se os hábitos são necessários, seu conteúdo já não importa tanto. As leis podem versar sobre qualquer coisa; podem ter qualquer conteúdo. O que não condiz com a natureza humana, segundo o filósofo, é uma vida social sem nenhuma lei / hábito (desenvolvi uma argumentação semelhante em outro post).

Voltando ao édipo: e se o complexo edipiano for apenas uma forma de atualizar essa ‘necessidade de leis’ que caracterizaria o social humano? Ou seja, uma lei contingente do ponto de vista de seu conteúdo, mas necessária enquanto ‘lei’? Talvez, como querem Deleuze e Guattari, uma lei vinculada à história, à política, mas, de novo, não uma lei necessária?

O interessante, nessa perspectiva, é que ela permite pensar não em termos de oposição entre indivíduo e sociedade – como se depreende da tese freudiana do édipo. Afinal, a lei, como hábitos comuns, serviria, entre outras coisas, para definir a maneira comum de se agir – o modo de agir do grupo. E isso permitiria que os indivíduos se encontrassem num fazer que é de todos.

Em outras palavras, o que seria essencial na lei é essa capacidade de criar o comum, o que pertence ao grupo. Assim, a lei teria vinculação com o social, como percebeu Freud, mas não porque instaura uma proibição ao instinto individual, e sim porque cria um território comum.

Referências:

H. Bergson (1978). “As duas fontes da moral e da religião”. Ed Zahar

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