Indivíduo x sociedade (?)

Numa carta à Lou Andreas Salomé, escrita em plena guerra (Nov/1914), Freud confessava que “Minha conclusão secreta sempre foi: a mais elevada civilização atual se assenta numa enorme hipocrisia e somos organicamente inadequados à ela” (citado por Marcio Mariguela – link).

O tema reaparecerá com toda força alguns anos depois, às portas da segunda grande guerra, com “Mal-estar na civilização”. Nessa obra, segundo Ernest Jones, “Freud pretendeu representar o sentimento de culpa como o mais importante problema na evolução da cultura, e deu a entender que o preço do progresso no seio da civilização é pago pela privação da felicidade através da intensificação do sentimento de culpa” (também citado por Mariguela, link).

O argumento freudiano é conhecido. A permanência da civilização se alicerçaria em renúncias instintuais; os instintos, agora recalcados, continuariam atuando no inconsciente. Daí, portanto, a culpa. Logo, mais sociedade = mais culpa = menos felicidade (instintual) e, talvez, mais felicidade (social). Uma troca, digamos assim.

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É difícil discordar do argumento freudiano. Todos concordaremos que a vida em sociedade exige algum esforço. Agora: esse esforço precisa significar exatamente o que Freud propôs? Ou, em outras palavras, é necessário que a sociedade se fundamente na renúncia instintual, ou essa renúncia seria contingente, tendo mais a ver com um tipo de sociedade, de arranjo social, com uma visão de mundo específica?

Eis uma enorme questão, que não pretendo responder… Na própria psicanálise não há consenso, e outros entendimentos surgiram, dialogando com a visão freudiana, muito calcada, como vimos, na oposição entre o indivíduo e a sociedade.

Winnicott, por exemplo, entende que mais do que recalque, o que precisa ser feito com o instinto é sua integração; a ponto de dizer que “se a sociedade está em perigo, a razão não se encontra na agressividade do homem, mas na repressão da agressividade pessoal nos indivíduos” (Winnicott, 1958b, p. 355, grifo nosso). Ou seja, o problema não é o instinto em si, mas as formas de integrar e amadurecer esse instinto (se você se interessa pelo assunto, aqui temos um post inteiro sobre as diferenças de visão entre Freud e Winnicott no tocante à agressividade).

Neste texto, queria apenas acrescentar um ponto à argumentação, dessa vez trazida por A. Damásio.

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Em seu ultimo livro (“A estranha ordem das coisas”), Damásio chama a atenção para um fato banal, mas cheio de consequências: existem, na natureza, diversos agrupamentos sociais funcionantes. Escolha seu exemplo: abelhas, formigas, grandes mamíferos e até algumas bactérias (!) funcionam inequivocamente de forma social, e funcionam muito bem.

Ou seja, no extremo oposto do que estava sendo proposto por Freud, nessas sociedades não há, aparentemente, oposição necessária entre o indivíduo e a sociedade – mas sim complementação, uma integração bem articulada. Porque seria diferente com o homem?

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Os exemplos animais são ótimos também porque nos permitem separar um funcionamento social daquilo que, em nossa experiência, parece necessário para esse funcionamento: ou seja, a consciência, a linguagem ou mesmo o esforço e o recalque.

Os animais funcionam bem no seu grupo social; na verdade, o problema acontece quando eles não estão com o grupo.

Acontece que, se tem uma coisa que a clínica tem me ensinado, é que o homem parece funcionar exatamente nesses termos. Isto é, também para nós, muitos problemas decorrem da ausência de grupo, da falta de sensação de pertencimento, de apoio, de suporte, etc…

Isso tem parecido tão importante que eu não me surpreenderia nem um pouco se alguém anunciasse a descoberta de um “instinto social” ou algo assim, uma força poderosa, como a fome ou a sexualidade, que nos leva a buscar nossos semelhantes, a não viver sozinhos, a demandar companhia.

E muito embora a qualidade dessa companhia nem sempre seja adequada, me parece inegável que o desejo de pertencimento (ou de social, do grupo, etc) existe, e é considerável. Penso que o Facebook & coisas afins são um indicativo disso.

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Enfim, para concluir: existe toda uma tradição de pensamento ligando ‘sociedade’ e ‘esforço’; estamos muito habitados a pensar que, para viver em sociedade, precisamos nos esforçar, nos esconder, negociar, deixar de ser espontâneos… Por isso a ideia de uma sociabilidade ‘natural’ (ou até ‘corporal’) me pareceu interessante: porque ela abre margem para outras possibilidades de interpretação do problema.

Por exemplo: e se o ‘esforço’ que percebemos na nossa experiência com o social tem mais a ver com a forma como estamos nos tornando indivíduos do que com o social em si? Ou seja, como dizia Winnicott, e se o problema tem mais a ver com a forma como integramos nossa sociabilidade (nosso ‘impulso social’) com nosso self, e menos com a existência do social enquanto tal?

2 Respostas para “Indivíduo x sociedade (?)

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