Psicanálise e ciência 2

Historicamente, a ciência moderna surge como uma alternativa ao pensamento religioso medieval. Num contexto onde tortura era um meio legítimo para ‘descobrir’ bruxas e o argumento de autoridade imperava – você podia dizer qualquer absurdo, desde que encontrasse um autor de peso que o endossasse – um método que apenas reconhecia o que era provado pela experiência era simplesmente revolucionário.

De fato, para se ter uma ideia do atraso que o argumento de autoridade representou para o avanço das ciências, basta dizer que passaram-se mais de mil anos antes que se tornasse consenso que Galeano, o mais famoso anatomista grego, na verdade dissecava animais, e não seres humanos. Sim, imagine isso! Por mais de um milênio, os médicos aprenderam sua prática em livros de anatomia baseados em animais, e ‘transplantados’, por analogia, para o ser humano…

A autoridade de alguns autores e a visão dominante valiam muito mais do que a experiência. Assim, por exemplo, Galileu teve problemas com a inquisição, porque os dados que descobria e publicava – dados obtidos por experiências – não ‘batiam’ com aqueles defendidos pela igreja – alcançados através da lógica e da autoridade. É interessante ler sua ‘confissão’ de que estava errado, pois nela percebemos o peso da autoridade religiosa na época.

***

A ciência venceu essa batalha. Muito da tecnologia e dos avanços que temos hoje vieram daí, e é inegável que demos um passo adiante no caminho do conhecimento quando reconhecemos o método científico como o melhor método disponível para nos aproximarmos da verdade. Sem contar os ganhos em qualidade e potencialidades de vida.

Obviamente, a ciência, como qualquer coisa, não é boa nem ruim em si: tudo depende do uso que fazemos dela, e certamente, hoje, muitos desses usos podem ser problematizados. Basta dizer que, de revolucionária, a ciência muitas vezes passa a ocupar o papel de balizadora do status quo. Mas isso, para repetir, não decorre dela em si mesma, mas sim de seus usos.

Por isso tenho dificuldades em entender a posição de alguns psicanalistas, que insistem, à semelhança dos sábios de antigamente, em não “olhar pelo telescópio”, talvez para não ver aquilo que confronta sua visão de mundo.

Isto é, não entendo a recusa, bastante comum no meio psicanalítico, de aproximações entre o saber adquirido por meio da clínica e da introspecção e aquilo que pode ser medido e confirmado através de experiências objetivas e replicáveis.

A questão, para mim, pode ser assim resumida: existe conhecimento suficiente, na psicanálise, para garantir que nada do que é descoberto na clínica pode ser replicado – ou traduzido – em termos objetivos por outros métodos de pesquisa? Ou, dito de outro modo, podemos ter absoluta certeza de que a ciência normal vai sempre falhar ao tentar articular os dados da clínica com os seus próprios meios?

E a resposta me parece clara: não, não temos como saber de antemão se a pesquisa poderá ou não conquistar também esse território. Logo, não temos porque impedir essas tentativas. Ademais, soa ingênuo, ou mesmo autoritário, acreditar que “já temos tudo o que precisamos”. Quem pode se dar ao direito de legislar sobre o futuro? Como podemos ter certeza de que, ao impedir / desvalorizar a pesquisa, não estamos também afastando possibilidades melhores de tratamento?

***

Trata-se, no fundo, da velha oposição entre o objetivismo e o subjetivismo, em matéria de ‘ser humano’ – uma longa história. A discussão que me parece válida é aquela que critica as tentativas reducionistas, como as que tentam apresentar o humano apenas como o reflexo dos genes X, Y e Z. Isto é, aquelas tentativas que parecem esvaziar a importância da experiência concreta na vida das pessoas – como se o lado ‘subjetivismo’ não tivesse importância alguma. Qualquer um que tenha vivência clínica sabe que, sim, a clínica transforma; é então muito provável que esse aspecto experiencial tenha que ser levado em conta, se é pra se levar em conta aquilo que o ser humano é.

Agora, mesmo em relação a esse aspecto experiencial, não podemos ter certeza. Isto é, não é impossível que mesmo a abertura do humano à experiência implique a genética em alguma medida. Bastaria pensar numa genética um pouco mais espiritualizada, assim como numa espiritualidade – ou ‘experiencialidade’ – um pouco mais material.

Dito de outra forma, a oposição objetivismo (ou materialismo) x subjetivismo só se sustenta se dissociamos os dois aspecto de forma absoluta, e tudo nos leva a crer que não é assim que as coisas são. Tanto nosso corpo, no lado material, é muito mais aberto à experiência do que pensávamos, quanto nossa ‘alma’, do lado subjetivo, tem muito mais condicionantes do que costumamos reconhecer.

***

Outro argumento comum para os psicanalistas seria o de que o saber adquirido na clínica e vivenciado na transferência seria “incomensurável” com o saber produzido pela pesquisa normal. Mas, volto à questão: como podemos ter certeza dessa incomensurabilidade?

A resposta padrão consiste em dizer que o ser humano tal qual abordado pela psicanálise é único e singular; e a pesquisa científica busca, pela própria exigência de ser replicável, alguma regularidade, alguma repetição. Seriam, portanto, conhecimentos incompatíveis. Mas então eu pergunto: se não há nada de comum entre os pacientes, sobre o quê escreveram Freud, Lacan e tantos outros? Há um livro para cada paciente, ou há estruturas e tendências básicas que se repetem, nos tornando humanos, a variação existindo somente a partir de um certo ponto?

Aqui, também, a questão me parece clara. É óbvio que o diferencial da psicanálise está exatamente na singularidade de cada sujeito, no modo único como cada um escreveu / ou foi escrito em sua história. Mas a existência da singularidade não implica na exclusão de uma série de regularidades que podem, tranquilamente, ser captadas pela pesquisa normal.

***

Essa discussão é bastante atual, na medida em que novas tecnologias têm permitido acompanhar o funcionamento cerebral em tempo real, associando pela primeira vez o que acontece no nível objetivo do corpo com aquilo que é experimentado subjetivamente.

Volta a questão do objetivo x subjetivo, mas dessa vez como uma tendência a generalizar que “tudo é cérebro”, e que a experiência, a história de vida, não contam – o que claramente é um excesso. Já comentamos aqui como a subjetividade – a liberdade individual – é em geral um peso, um fardo. Mesmo que o cérebro seja também parte da história, ainda é forçoso reconhecer o peso da história.

Mas meu ponto aqui é que não vamos ‘salvar’ a história de cada um fugindo da pesquisa objetiva. E talvez nem tenhamos que fazer isso: há bons motivos para acreditar que a importância da história pessoal também esteja enraizada no cérebro, em mecanismos evolucionários relacionados ao social. As pesquisas de Damásio são um exemplo. Ou seja, é possível que o ‘cérebro’ seja, afinal, um bom substituto para a ‘alma’ – sem perdas de suas potencialidades. Basta, como disse abandonar um pouco a dissociação absoluta entre corpo e mente, materialidade e subjetividade.

Sendo um pouco otimista, é possível que estejamos nos dirigimos para uma superação da oposição materialidade x subjetividade, a partir da descoberta de um corpo que pode muito mais do que supúnhamos: há toda uma ‘alma’, nele, um funcionamento aberto, indeterminado. Seria irônico – para não dizer triste – pensar que justamente a psicologia vai se colocar contra a descoberta dessas potencialidades do corpo, isto é, contra a descoberta do que até aqui foi chamado de ‘alma’.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s