Algo sobre neuropsicanálise, ou: a materialidade do psicológico

A psicologia, desde sempre, se debateu com a questão de sua origem – ou, o que dá quase na mesma, para os nossos fins: com a questão de seus limites. Fundamentalmente, o problema pode ser apresentado como: “qual o estatuto do psicológico?”. Ou então: “Qual o estatuto causal do psicológico?”. Ou ainda: “O psicológico pode ser pensado como um campo separado do biológico?” (e, aqui poderíamos acrescentar: ‘do social?’, ‘do econômico?’ , etc).

Várias questões se desdobram dessa problemática, como se vê. A própria forma de colocar o problema permite perceber como a experiência psicológica é, no fundo, o resultado de diversos campos do saber. É difícil imaginar que você se sentiria exatamente como você se sente, hoje, se tivesse nascido em outro contexto, em outra época, etc. Por ser um campo em permanente desenvolvimento, é natural que as fronteiras entre a psicologia e seus ‘vizinhos’ também seja móvel, mutante, assim como as próprias definições do que seja ‘psicologia’.

O psicológico é, por si mesmo, o resultado de variadas causas (biológicas, históricas, sociais, etc). Ao mesmo tempo, os limites entre essas diversas causalidades nem sempre são estanques ou estão claramente delimitados, dando margem a um processo permanente de ‘demarcação de posse’ entre as várias áreas implicadas. Esse processo de ‘demarcação’ sofre, ele mesmo, diversas influências (do mercado, da visão predominante numa certa época, etc).

Temos então uma situação que pode ser caracterizada como uma luta, uma disputa, onde os diversos campos do saber procuram legitimar sua ‘posse’ sobre fenômenos ainda não bem ‘demarcados’ – isto é, cuja causalidade não encontrou ainda um consenso suficiente. Obviamente, haver consenso não quer dizer que a causalidade em questão seja a correta, mas é um passo nessa direção.

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No caso específico das disputas entre psicologia x medicina (ou biologia), temos já uma longa história. Um caso bem documentado para o lado biológico foi o de Phineas Gage, que mudou totalmente de comportamento após sofrer lesões cerebrais. Do lado da psicologia, temos os casos de histeria, por exemplo, onde Freud conseguiu relacionar mesmo um sintoma corporal – como a cegueira – à uma causação puramente psicológica. A hipnose seria outro exemplo de que uma experiência puramente psicológica pode produzir efeitos surpreendentes ao nível do corpo (não sentir dor, por exemplo).

Na ‘disputa demarcatória’ de que estamos falando, cala lado usa esses casos como argumento favorável à sua causalidade, e a disputa prossegue.

Nesse contexto, a neuro-psicanálise surgiu como uma tentativa de estabelecer um diálogo produtivo entre as neurociências e a psicanálise. Isso porque algumas teses psicanalíticas encontraram respaldo nas pesquisas das neurociências, o que pareceu suficiente para alguns pesquisadores para propor um novo campo de estudos que juntasse as duas perspectivas.

Como era de se esperar, isso dividiu os representantes de cada campo: alguns entenderam que a proposta tem validade; outros defendem que não seria possível ‘traduzir’ uma forma de conhecimento nos termos do outro grupo. Aqui, um ‘mapa’ dos debates em torno dessa questão.

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Vamos, então, ao meu ‘pitaco’ sobre esse assunto. Vou falar especificamente da psicanálise, que é o campo onde me movo com mais liberdade, mas o raciocínio vale, creio, também para a psicologia.

A meu ver, algumas coisas tem que ser consideradas antes de que nos posicionemos nesse debate. Por exemplo: existe um consenso dentro da psicanálise sobre a causação do psicológico? Quando vejo as várias teorias existentes (Lacan, Winnicott, Klein, Freud…) me parece que a resposta é um sonoro ‘NÃO’. Logo, não estamos em condições de demandar a ‘posse’ de muitas coisas, enquanto não resolvermos algo disso (e entendo que a pesquisa científica é um aliado nesse sentido).

Ao mesmo tempo, há uma coisa com a qual a maioria dos psicanalistas – e mesmo dos psicólogos – concordaria: existe uma causação puramente psicológica. A clínica seria o grande exemplo disso; afinal, se ela não tivesse efeito nenhum, não perduraria. A questão me parece ser, portanto, relacionada ao estatuto dessa causação.

Uma resposta possível, e que me parece também a mais provável, implica em entender o psicológico como mais efetivo do que o fazemos atualmente. Quero dizer com isso que, hoje, as pessoas dão pouca importância ao fato de, por exemplo, estarem pensando em X, ou estarem sentindo Y. Emoções e pensamentos parecem ser coisas descartáveis, sem importância, ou então algo que deveria estar ‘sob controle’, sobre o domínio de nossa vontade.

Essa é exatamente a postura que caracteriza (em seus extremos) a perspectiva da causação puramente biológica: toda experiência psicológica não é mais do que a expressão de um estado de coisas biológico, que, esse sim, nos interessa. O psicológico é secundário, não causa nada, não vale nada. É um epifenômeno.

O que me parece ter sido parte da revolução freudiana foi justamente reunir dados para argumentar que sim, pensar em X ou sentir Y fazem muita diferença, tanto quanto o estado cerebral propriamente dito. Isto é: Freud trabalhou no sentido de dar materialidade ao pensamento e ao sentimento.

E o interessante na questão da neuropsicanálise é que alguns neurocientistas estão conseguindo encontrar essa materialidade do psicológico no corpo. Penso em A. Damásio e sua pesquisa sobre as emoções. Seu trabalho é interessantíssimo no sentido de dar fundamentos objetivos para esse acréscimo de materialidade ao nosso mundo subjetivo – mais ou menos como, no meu entendimento, Freud procurou fazer.

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Não sei se fica claro, mas, a meu ver, isso transforma a questão. O psicológico torna-se mais objetivo e ‘material’ – logo, ele existe realmente, ele pode ser causa -, ao mesmo tempo em que não necessariamente precisa ser subsumido ao orgânico. Haveria um grande aumento da continuidade entre o corpo orgânico e seu entorno; e a linha da causalidade poderia começar em diversos pontos, desde o social, continuando no corpo físico, continuando nas emoções e percepções, continuando no psicológico… a experiência psíquica final seria o resultado de uma longa série de continuidades transformadas em cada elo da corrente, podendo, inclusive, retornar sobre o social, perfazendo uma verdadeira ecologia do comportamento, um ciclo onde causas e efeitos se alternam e se implicam mutuamente, uma espiral que pode partir de vários lugares (cada elo pode ser uma causa) e transmitir sua alteração para qualquer ponto.

O psicológico e o orgânico seriam elos diferentes, momentos diferentes de transformação, mas interligados. Tenderíamos a pensar no psicológico como um elo ‘separado’ porque nossa estrutura subjetiva nos permite agir sobre nós mesmos, num funcionamento “em espelho” onde somos ao mesmo tempo sujeito e objeto de uma ação. Nossa capacidade de auto-determinação cria uma espécie de ‘reverberação’ onde um impulso (que pode ter começado no social ou no corpo) percorre ‘em loop’ uma parte apenas do circuito (o psicológico), dando essa impressão de autonomia.

E, de fato, se Freud é pra ser levado a sério, nesse ‘loop’ psicológico nossas memórias também atuam como causas, direcionando o impulso para elos diferentes, conforme nossa história.

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