Transformações do suporte social

Winnicott diz em algum lugar, comentando Foucault, que o ‘indivíduo’ provavelmente é um espécime recente no desenvolvimento humano. Por longuíssimo tempo – e aqui já é comentário meu -, vivemos como parte de um grupo, com pouco ou nada de espaço para o indivíduo (aqui, algumas ideias sobre isso).

Historicamente, os reis representam os primeiros indivíduos. Antes disso – e houve um longo tempo antes – simplesmente não havia individualidade, e todos eram mais ou menos expressões do grupo, parte de um todo. A individualidade era inclusive coibida, e até hoje existe um certo limite para o tanto que podemos viver de nossa individualidade em sociedade.

Mas, voltando ao assunto, a realeza, a aristocracia em geral, foram os primeiros ensaios, os primeiros rascunhos dos problemas que, hoje, quase todo mundo enfrenta. Pois ser um indivíduo é um problema.

Entendamos: individualidade implica responsabilidade; implica tomar as rédeas da própria vida e assumir os resultados, bons ou ruins. E isso cansa. É difícil. É Trabalhoso. É Custoso.

Pense na diferença entre a vida de uma criança e a de um adulto. A criança não é livre para fazer o que quer; o adulto, é. Mas isso nem sempre lhe aproveita; é, muitas vezes, um peso. A criança, embora viva num universo bastante delimitado pelos pais, vive mais tranquila. Tanto mais tranquila quanto menos precisa responder por si. Só viver.

***

Quero sublinhar isso: não é necessariamente em nossa individualidade que nos sentimos mais à vontade, mas sim enquanto parte de um grupo com o qual nos identificamos. Especialmente se o grupo também se identifica conosco, e podemos, então, relegar a ele o papel de ser ‘responsável’ e de ‘lidar com as consequências’.

O grupo nos dá apoio, suporte, nos tira a responsabilidade por cada decisão. Não preciso pensar no que fazer, quando simplesmente sigo o grupo. Por outro lado, ser indivíduo não é fácil. Tudo aquilo que foi conquistado para nossa individualidade acaba tendo também um outro lado, onde se torna um peso.

Antigamente, por exemplo, uma vez casados, era para sempre. E então, simplesmente não havia o que fazer, senão adequar-se a situação. Claro que era ruim, mas resolvia o problema da individualidade. Melhor dizendo: não dava espaço para o problema do indivíduo.

Hoje, que podemos nos separar, nossa individualidade entra em cena, e então começamos a ser responsáveis por nossos casamentos. E então surgem situações, como: “Se eu posso escolher qualquer um, e mesmo assim o casamento vai mal, a culpa só pode ser… minha”. Assim, cada conquista de liberdade implica num tanto a mais de responsabilidade. E, possivelmente, de culpa.

Outro exemplo: no tempo de nossos avós, conseguir um emprego já era o máximo que se esperava. Não havia espaço para realmente escolher uma profissão. Abraçava-se a profissão disponível, e era isso, acabou-se a questão. Hoje, com várias profissões disponíveis e ainda mais a necessidade de que o emprego ‘nos realize’, decidir o que fazer tornou-se muito mais difícil.

***

Não estou dizendo que devemos jogar fora os celulares e voltar correndo para as cavernas. A individualidade é, sim, um avanço, e certamente ampliou nossas possibilidades de existência. Só que todo avanço tem um custo, nem sempre visível. E esse custo é pago em maturidade emocional, o que, sempre, implica em algum tipo de trabalho.

Felizmente, não vivemos entre absolutos. A individualidade e a liberdade individual são um processo, uma mudança gradual na sociedade, que vai acontecendo aos poucos. Outras áreas de nossa vida, no entanto, permanecem naquele estágio anterior, aonde o suporte do grupo nos permite dar ‘férias’ à nossa responsabilidade, e , simplesmente… viver.

Nossas roupas, por exemplo. Você acha realmente que se todo mundo fosse ‘livre’ para escolher como se vestir, veríamos tanta gente com roupas parecidas? A calça jeans é tão bonita assim? É óbvio que, nessa área da experiência, a liberdade vai só até um certo ponto, algo como “escolha entre as quatro ou cinco opções que estão na moda agora”. E ok, isso tem suas vantagens: seria muito mais difícil escolher verdadeiramente uma roupa dentre as centenas que já foram inventadas. O parâmetro do grupo nos ajuda, nos desresponsabiliza, facilita as coisas.

Com a comida ocorre coisa semelhante. Tendemos a ‘escolher’ entre as opções que nosso grupo oferece. O grupo nos serve de referência. E em diversas outras áreas, ser um pouco limitado nos ajuda, facilita as coisas.

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Posso imaginar com facilidade que aqui, como na natureza, “nada se cria, tudo se transforma”. Isto é, a vida mais tranquila, menos cheia de escolhas e responsabilidades que vivemos em períodos anteriores da história, era também mais limitada, mais formatada pelo social. Esse limite era ao mesmo tempo um suporte, pelo menos em alguns aspectos.

Hoje esse limite se transformou, e ficamos ao mesmo tempo mais livres e menos ‘suportados’ pelo social. Estamos “à deriva de nossa própria individualidade”, e isso, obviamente, constitui tanto nossa liberdade quanto nosso peso existencial.

Como disse Nietzsche certa vez, a liberdade é, afinal, uma conquista; e a natureza, de certa forma, é aparentada com a coerção. Estamos muito mais preparados para a coerção social do que imaginamos; e, ao contrário, a liberdade parece ser muito mais questionável. Será que estamos realmente prontos para todas as liberdades que almejamos? Segue um aforismo nesse sentido:

§188 de “Além do Bem e do Mal”: Toda moral é, em contraposição ao deixar ir (laisser aller) um pouco de tirania contra a “natureza”, e também contra a “razão” […] O essencial e inestimável na moral é o fato de ela ser uma demorada coerção. Para entendê-la, veja-se a coerção da rima e do ritmo com relação à escrita: essa coerção produziu a liberdade no escrever, a soberania sobre esses obstáculos mesmo. Tudo o que há de liberdade, segurança, dança magistral sobre a terra desenvolveu-se graças à essa tirania […]. E talvez isso mesmo seja “natureza”, e não aquele laisser aller. Todo artista sabe como sua inspiração é obediência à mil leis, que troçam de conceitos justamente por serem muito mais firmes e precisas. O essencial é que se obedeça por muito tempo, numa direção: daí sempre surge algo pela qual vale a pena viver na terra. […] Parece que a escravidão é o meio indispensável para o cultivo espiritual. A natureza NA moral é que ensina a obedecer (e não moral em oposição à natureza).

2 Respostas para “Transformações do suporte social

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