Psicologia e momento histórico

confucio

 

Diz-se que essas são as 4 leis da espiritualidade na Índia:

 

A primeira diz: “A pessoa que vem é a pessoa certa“.
A segunda lei diz: “Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido“.
A terceira diz: “Toda vez que você iniciar é o momento certo“.
E a quarta e última afirma: “Quando algo termina, ele termina“.

(fonte: https://www.pensador.com/frase/MTMxOTU3Ng/)

 

Não sei se isso é verdade, mas resume bem, creio eu, o espírito de muitas culturas antigas. Como podemos ver, elas salientam a importância da aceitação / resignação diante das coisas.

 

De fato, como aprendemos na escola, até a idade média as pessoas tendiam a ocupar os mesmos lugares sociais de seus pais. E até onde sei, isso ainda é verdade para a Índia, que apenas recentemente estaria iniciando um processo de transição para um regime social mais “moderno”.

 

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Apenas bem recentemente na história mundial, e especialmente com a aceleração do sistema capitalista, teríamos naturalizado uma outra forma de estar no mundo, onde não mais nos esforçamos para aceitar o que acontece, mas para moldar os acontecimentos. Todos fomos transformados em “agentes” de nós mesmos, buscando nos promover – progredir – à todo custo.

 

É flagrante a contradição entre essa visão de mundo e a visão que aquelas 4 leis da espiritualidade exemplificam. E, obviamente, isso traz enormes consequências para todo tipo de pensamento sobre o ser humano.

 

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A psicologia é uma ciência muito jovem, e, como tal, gasta boa parte de sua energia buscando “provar” o seu valor diante das outras ciências – como toda criatura insegura, poderíamos dizer. Nesse afã, é possível que nos deixemos contagiar, e passemos a enxergar a psicologia como uma ciência natural, isto é, como um apanhado de leis e variáveis que seriam imutáveis (ou quase) ao longo das eras.

 

Podemos, com justiça, almejar esse ideal. Mas seria prematuro dizer que o alcançamos. Sobretudo se não levamos em conta as diferenças no manejo social do indivíduo, como vimos acima. Porque, claramente, as expectativas de uma época sobre o papel de cada um diante da existência têm um peso inegável na gerência que cada um faz de si.

 

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Tomando a teoria do amadurecimento emocional de Winnicott como exemplo, podemos dizer que, nela, o papel da relação entre o sujeito e o ambiente é fundamental, e os problemas do desenvolvimento expressarão sempre um problema relacional, relativo aos encontros – ou desencontros – desses dois atores principais.

 

Não existiriam, portanto, doenças ou problemas psicológicos “em si” – mas apenas problemas circunstanciais, isto é, sempre e apenas problemas relativos a uma específica relação entre o sujeito e o seu tempo, seu ambiente mais próximo.

 

Com isso quero dizer que Winnicott nos permite entender o ser humano como um emaranhado de possibilidades que podem – no encontro com um ambiente disponível – se desenvolver e amadurecer, mas isso também pode não acontecer – e o significado desse “não amadurecimento” não pode ser definido a priori – porque vai depender essencialmente de como o tempo, a cultura, se relaciona com isso.

 

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Para retomar o exemplo com que abrimos o post, podemos então imaginar que na Índia medieval, aonde talvez predominasse aquele espírito de resignação diante dos acontecimentos, a falta de desenvolvimento emocional de uma criança seria encarada como mais uma coisa a se adaptar, como algo diante do qual não temos que nos revoltar ou procurar mudança, e sim adaptação e aceitação.

 

Já hoje, em contraste, somos continuamente convidados a “não aceitar” essas paradas no desenvolvimento, a buscar soluções para elas, a nos desenvolver plenamente.

 

O que gostaria de ressaltar aqui é o quanto essa atitude de aceitação possibilitava, talvez, um ambiente mais propício para o desenvolvimento emocional estagnado do que nossa  atual atitude, que se preocupa com cada problema que surge.

 

Isto é, até que ponto a aceitação que existia na sociedade não permitia uma aceitação mais fácil dos problemas também a nível subjetivo? – fazendo com que os próprios sujeitos sentissem suas ‘falhas’ de forma mais leve?

 

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Difícil dizer; queria mais era registrar esse fragmento de questão. Mas, se levarmos a questão a sério, é quase como se a sociedade, ao deixar a postura da ‘aceitação’ de lado, tivesse “forçado” o surgimento da psicologia como um substituto especializado desse acolhimento que, antes, existia disseminado por todo o tecido social.

 

Quem sabe? Assim se explicaria que tanto da sabedoria antiga se pareça com a psicologia de hoje – mas sem psicologia.

 

(mais adiante posto um apanhado de frases antigas que caberiam muito bem na nossa moderna psicologia  ;D )

 

 

 

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