“O sonhar restaurado” – resumo da 1ª parte

sonhar

 

Posto na sequência o resumo da primeira parte do belíssimo livro de Tales Ab’Sáber, sobre o sonho na psicanálise. Essa primeira parte trata mais especificamente de Bion, e consegue ser ao mesmo tempo esclarecedor e profundo. Recomendo vivamente a leitura, para quem se interessa pelo assunto – mas já aviso que são questões de psicanálise avançada.

 

Como sempre, a numeração entre parêntesis – “( )” – no final dos parágrafos corresponde a numeração da edição utilizada. Tudo que estiver entre colchetes – “[ ]” – é comentário meu.

 

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O sonhar restaurado – Tales A. M. Ab’Sáber

1ª Edição, 2005, São Paulo: Editora 34

INTRODUÇÃO (11)

Conta sobre o sonho / pesadelo que teve com o filme do Frankstein – sonho que o acordou, e impossibilitou de dormir – , e como a mãe dele o acolheu, dizendo que o sonho era como um filme na cabeça, com tranquilidade, e isso ajudou. (11-14)

Há uma certa continuidade entre certas formas que nos marcam em nossos sonhos e nossa história. Assim, EU não lembrava dessa experiência de infância (o sonho) qdo fiz cinema, aos 20 anos, nem isso estava presente quando optei, depois, pela psicanálise. O sonho mostra justamente como o espaço da imaginação tem um limite – e os problemas de atingir esse limite. (14/15)

Por outro lado, o acolhimento pronto da mãe mostra a capacidade terapêutica e a importância da devoção materna primária – ou seja, a capacidade de reverie da mãe [ou seja, a mãe continuar o sonho aonde o sonho dele atingiu seu limite]. Mostra também a potência da eficácia simbólica do encontro humano com um outro humano; o próprio repetir as palavras do filho, lançando-as em outra narrativa, mostra isso. O sonho que adoece é o mesmo sonho que cura, na presença de uma alternativa simbólica que saiba acolher isso. (15)

Qdo comecei a trabalhar como psicólogo me deparei com queixas sobre não poder sonhar, sonhos que não produziam associações, ou que rompiam violentamente o sono, ou experiências reais, corporais, que se enraizavam em sonhos, sonhos puro-caos, etc. Enfim, sonhos que não reproduzem a experiência clássica da psicanálise. (16)

Essa impossibilidade de sonhar o levou à Bion e à Winnicott, que pareciam ter indagações semelhantes, ou seja, sobre os limites e a reconstituição do sonhar. Nisso – nessa nova abordagem sobre o sonho – ele resume a transformação que a psicanálise sofre em seu primeiro século. (16)

O problema do sonho acompanhou todo o percurso criativo desses dois pós-freudianos, assim como ocorreu com Freud. Entende que todo o sistema teórico deles brota dessa nova posição sobre o sonhar. E que a maioria dos demais desenvolvimentos pós-freudianos sobre os sonhos comparece na obra dos dois. (17)

Winnicott e Bion chegaram a discutir pontos de suas teorias sobre o sonhar; W. percebeu que havia pontos em comum (mostra carta de W para Bion). (17). Comenta outros desenvolvimentos psicanalíticos que tentaram dar conta dos “maus sonhadores” que foram surgindo (18)

Conta sobre Jung, que apresentou um paciente que não sonhava, mas que qdo foi levado a sonhar, pela análise, trouxe um sonho com tamanha carga regressiva e de desamparo que o sonho equivalia a um surto psicótico. O sonho constitui, então, mais do que uma apresentação da estrutura ou da história do sujeito, estava na borda, no limite, de seu processo psicológico. (18/19)

O problema é, então, o do sonhar que põe em risco o processo de desenvolvimento global – em vez de o constituir. Entende que Winnicott vai propor uma solução original e sem paralelo para esse problema(19)

Ao introduzirmos Winnicott o conceito psicanalítico e sua experiência se abrem necessariamente a um campo de interação mútua – o que resulta na terceira área da experiência, que é tanto o brincar quanto o sonhar.

O DESPERTAR DE JOANA (21)

A primeira visão que temos de um paciente (e seus efeitos sobre nós) sempre comunicam algo de um padrão particular que está em busca de reconhecimento, e que tende a se perder com o movimento da linguagem. (21)

Como veremos, um dos medos de Joana era encontrar no outro a imagem refletida de sua imensa destrutividade interna. (21)

Se destacava nela uma vulgaridade estruturada, que me convidava vivamente a contê-la, a ajudá-la. Sua histeria moderna se mostrava na forma como usava a sexualidade, e a relação, para não se relacionar realmente – como se a relação fosse impossível. Ela se dizia devastada por uma síndrome do pânico, que vinha sem aviso e sem lógica, e a afastava das pessoas e também da cultura – impedindo-a de habitar aquela terceira área. Estava profundamente drogada – por remédios e outras coisas – e tinha medo de largar os remédios pq não sabia o que poderia fazer – e tinha uma filha de 08 anos. Morava com os pais, difíceis, e um irmão “normal” que a irritava muito. (21/2)

Em sua família diziam que era louca, e não sabia como lidar com esse ‘não lugar’. Conta uma cena: estava vendo TV, com uns 6 ou 7 anos, e nela passam a imagem de uma operação no cérebro, abrem a cabeça do paciente, etc. Ela está vivamente interessada naquilo, mas vem a mãe de repente e diz que aquilo não era pra ela, que ela saísse dali e sumisse (22)

Acolhe/interpreta então que ela está falando de como ela se interessava desde cedo pela possibilidade de mexer na cabeça e na mente, mas a mãe nunca deu espaço pra isso, nunca lhe permitiu isso – e que essa falta de espaço é uma parte da própria doença, até hoje. (a fala dissipa a raiva da paciente; ela concorda, emocionada, que é isso mesmo) [o analista abre espaço para pensabilidade e acolhimento na própria sessão; falar disso apenas relança esse espaço em outro nível] (23)

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Joana era filha mais velha de um patriarca que tinha várias mulheres. A mãe de Joana vivia aprisionada à casa e a um ciúmes infindável, e culpava Joana, por entender que ela era mais próxima do pai (como se fosse outra rival dela). O Pânico de Joana sempre se conectava a algo agressivo, como na fantasia de que nunca andava com algo pontiagudo (uma faca, etc) pq, se pechasse em alguém, “jurava que matava o indivíduo”, etc. Impressionava ai o tom afetivo, expressão de uma vitória sádica sobre um objeto que não merece nenhuma confiança. Esse mesmo tipo de relação se dava em sua vida amorosa. (23/5)

Aos poucos, esse panorama foi se transformando, e ela passou a se sentir abertamente atacada pela mãe. Toda conversa ou tentativa de experiência terminava sempre com uma alusão à ‘loucura’ da filha, o que realmente a ‘enlouquecia’. A mãe sempre depositava suas angustias e impossibilidades com o marido em Joana, e se ela tentava sair dessa posição era ‘certamente’ porque apoiava o pai, logo tbém traia a mãe, e merecia todo o seu ódio (25)

Joana desfiava o rosário das muitas ansiedades, impossibilidades e ataques que sentia na relação em que se fechara com a própria mãe. Lembrava de qdo perguntou à mãe de onde ela tinha vindo, e a mãe disse, secamente: “de um repolho”, enquanto atravessava um repolho com uma faca. Sentia-se em permanente estado de tensão e risco diante da mãe, situação que a impedia de descansar e de viver estados menos integrados [ = condição do sonho, mas que precisam ser apoiados no ambiente…], base de toda criação (25/6)

Tudo isso convergia para duas lembranças: uma, de qdo a mãe queria que ela parasse de usar fraldas, e qdo ela fez coco de novo na fralda a mãe esfregou a fralda suja na cara dela. A segunda lembrança era sobre as brincadeiras sádicas que ela sofreu na mão de um rapaz um pouco mais velho, qdo tinha uns 08 anos. Ele a amarrava e abusava dela. Ela se espantava com os seus pais, como não viam aquilo? (26/7)

Essas memórias colocavam permanentemente o enigma da existência daquela moça, e levaram tbém a uma certa introjeção do sadismo na própria estrutura do sonhar. (27) [Ele está supondo que a introjeção do AMBIENTE estrutura a própria possibilidade do sonho? E assim o sadismo do ambiente se torna sadismo na estrutura do sonhar???]

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Com o tempo fomos compreendendo a profundidade histórica dos ataques maternos a ela, e quais as possíveis fantasias organizadoras, na mãe, de tal sistema. Tais fantasias, como um mito [ = sonho] criado entre analista e paciente, se apoia na hipótese de que há algo em nós que é a imagem impressa, mas invertida, da forma psíquica do outro (como na fotografia) [ou seja, ele ‘via’ na paciente também algo que era de sua mãe, etc] (27)

Foi assim que, com o tempo, reconstruímos a seguinte narrativa, que começava a tornar simbolizável o que antes só podia se manifestar como angústia: a origem de Joana estava ligada a um campo psíquico de impasses em seus pais. A mãe, moralista e vinda de uma família tradicional, engravidou sem estar casada; o pai não queria casar, e manteve relações extraconjugais o tempo inteiro, o que lançou a futura mãe em um campo impensável sobre seu próprio futuro. Por fim o pai aceita casar, mas deixa claro que só o faz pela criança [ = origem do ciúme / desvalia da mãe], e nunca é realmente um marido. Isso desperta o ódio da mãe contra a criança, que acaba virando a prova do desamor do pai por ela, mãe. AO mesmo tempo o amor que o pai passou a sentir pela filha feria ela, a mãe, que se sentia privada desse amor. O grande pânico da mãe era que o marido a deixasse, vivência que a remetia ao tempo de desamparo de sua gravidez; ela então manipulava a filha para mantê-la em casa [= a manutenção ATIVA da loucura na filha], e assim manter o marido (27/8)

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Passa à matéria do sonho ausente de Joana. Tratava-se de um campo de ansiedades que afloravam ao redor do sentido que o dormir [ = não-integração] tinha pra ela. Aspectos do dormir e do acordar apareciam com frequência mas isolados. Percebemos tbém que ela parecia estar sempre semi-adormecida, nunca inteiramente desperta. Isso parecia se associar com a mãe, que a despertava aos berros sempre muito cedo, impedindo um verdadeiro despertar e minando justamente a fronteira entre o sono (e o sonho) e a vida de vigília. (28/9)

Ela conduziu os horários de atendimento de forma que se desse sempre muito cedo, perto das 07hs. Notei que ela vinha acordar na sessão, e isso era importante para ela. Eu sustentava uma continuidade através da dissociação normal entre sono e vida desperta (em contraste com a mãe, que a invadia nessa transição) (29)

Foi importante pra ela quando Tales lhe disse que vinha despertar na sessão. Parecia importante pra ela poder ter segurança no pleno e PRÓPRIO despertar (relacionar isso com a mãe que a acordava aos berros, caoticamente, impossibilitando qualquer chance de um verdadeiro despertar). Ela comenta que as vezes acordava já no trânsito, tendo dirigido um bom tempo ‘dormindo’. Dessa dissociação entre o dormir e o despertar ela transitou para a impossibilidade de dormir, junto com a vivência sofrida de que não dormia já há muitos anos (29) [ OBS: dissociação como defesa necessária CONTRA o dormir => estados não integrados => estados que justamente se originam da introjeção do ambiente; logo, ela dissociava pq sentia que precisava se defender do ambiente ]

Todas essas questões entre dormir / despertar apontavam, segundo Bion, para a existência de ansiedades psicóticas (ou elementos Beta) [ psicose remete a uma falha ambiental]. Assim, preparou-se para o surgimento, na relação, desses elementos (como um tipo de ansiedade impensável, inominável). Algo disso ocorreu quando ela mencionou que queria contar algo horrível, mas que mal podia falar naquilo… Tales a auxilia entendendo que ela teme que essa coisa seja tão ‘material’, tão presente [ = pura sensorialidade, sem simbólico; ver mais adiante], que só de falar / pensar nela a paciente podia realizar a tal coisa temida. Ela se tranquiliza com essa compreensão, e com a não exigência de que falasse [=um continente]. Um mês depois ela conta um tipo de sonho / fantasia infantil, onde era perseguida por um homem com facas, e a única maneira de escapar era acordando. Mas ele sempre voltava, e era angustiante, até que um dia ela pega as facas, mata o homem, o corta em pedaços e o enterra. (30/1)

Tales entende que para ela essa vivência tinha peso de realidade; ela sentia que realmente tinha matado alguém (pela falta de simbolização da experiência, que era muito bruta – el. beta), e implicava na própria morte do espaço do sonhar. Ao conter essa narrativa na relação, ao lhe dar um outro direcionamento, vinculado aos símbolos já construídos entre eles, já se iniciava a passagem Beta -> alfa. O medo da paciente era de que ela viesse a ‘matar’ também a relação entre eles; daí o poder transformador de conter isso na relação e manter viva a relação [ = o ambiente], transfigurando a fantasia associada ao trauma/sonho. Para Tales, esse sonho explicava porque ela não podia dormir (porque ai ela perdia o controle, na desintegração própria ao sonho, e se expunha à violência do homem das facas –que era a violência dela tbém) e tbém as atuações concretas, as ansiedades não-elaboradas no sonhar (tornado impossível), que – por isso – retornavam em estado bruto no real. Numa palavra, o ataque ao espaço simbólico elimina o despertar (31/2). [ o que implica que despertar – a consciência – tem como pré-condição o estar sonhando / fantasiando, ou poder fazê-lo; a consciência como resultado de sonhar o real – ?]

Esse nível das ansiedades concretas, destruidoras do sonhar e invasoras não elaboradas da vida desperta, tinha conexão com o problema real da mãe violenta e sádica [a questão de que o ambiente se internaliza como espaço do sonho]. Algum tempo depois ela conta que voltara a sonhar com o homem das facas. Isso por sí só era um acontecimento, pq a) era um retorno do sonhar, e b) implicava na capacidade (readquirida) de o sonho conter o conteúdo ‘homem das facas’ e sonhá-lo [= digerí-lo, simbolizá-lo, transformá-lo => esquecê-lo, incorporá-lo; o sonho entre a mente e o corpo? ]. No novo sonho, a paciente salva a mãe de um incêndio na casa deles, enfrentando com sucesso tanto o medo do homem das facas [que era expressão da própria agressividade dela] quanto o pai, que queria deixar a mãe lá. Esse sonho teve profundo efeito em sua vida posterior (32/4).

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O SONHO DE BION (37)

Bion procurou traduzir o sonhar e o pensar em uma direção menos saturada, ‘des-substancializada’, já que via os conceitos tradicionais muito carregados de concretude sensorial . Isso fez com que o sonhar ocupasse lugar de destaque em seu sistema. Ele se tornou um inovador na psicanálise ao retomar o velho tema freudiano dos sonhos. Muito importante aí é a relação que Bion tenta sustentar entre sonho e pensamento, de um lado, e não-sonho e alucinação, de outro. (37/9)

Bion será marcado pela busca do originário no psiquismo, herança que colhe em Klein. Com Freud Bion encontra apoio para sua conceitualização própria. (39/40)

Nos trabalhos dos anos 50, vê-se Bion às voltas com pacientes cujas ansiedades depressivas / psicóticas impossibilitavam a conquista de um universo simbólico. Isso colocava no centro da questão os ataques, pelos pacientes, às ligações de sentido psíquico. (conta o sonho do carro, do paciente “gêmeo imaginário”) (42/5)

Nesse paciente aparece claramente que qualquer tentativa de expansão psíquica é difícil, porque o paciente vive essa expansão como um contato maior [uma integração?] com os próprios objetos internos persecutórios / violentos / geradores de ansiedade. Esses objetos, antes de serem integrados, são algo semelhante aos elementos BETA que Bion vai propor, elementos que não criam traço psíquico utilizável, e só podem ser evacuados. O paciente ataca, então, o sonho, vivendo o resto do dia com ansiedades (que são os conteúdos que o sonho não consegue conter, e que ‘vazam’ como elementos Beta indigeridos). (46/8)

Esses sonhos rompidos por serem demasiado reais (não elaborados, Beta) não podem ser esquecidos, pois o ataque ao sonho expulsa também o próprio continente que permitiria a elaboração – e o esquecimento (49).

O sonho é então o processo ‘digestivo’ do mental – como o brincar, para W. Em pacientes que não conseguem sonhar, a alucinação pode cumprir esse papel – como uma tentativa de extrair um sonho da relação com a realidade (49) O mundo da ilusão é a base de toda vida simbólica (52)

A fantasia e o sonho como os MEIOS para PENSAR problemas (50/1)

O quanto os pacientes já sabem sobre seus problemas, mas precisam contar à alguém que os ajude a se APROPRIAR deles [que os aceitem para que eles se aceitem? Notar como contar para outro (que não sabe) o que eu ‘já sei’ espelha a relação cs / ics do paciente]. Isso no contexto de Freud comentando como o sintoma surge no lugar de algo que o paciente consegue reprimir; qdo a repressão funciona, surge o sintoma em seu lugar. (51 e nota 22)

Haveria uma ligação de causa e efeito entre chegar à PD (posição depressiva de Klein) – poder integrar objetos totais – e o pensamento verbal (54)

Entende que os conceitos de Bion permitem uma maior “insaturação” à psicanálise, facilitando sua desvinculação também da noção médica de CURA: ao salientar o “não saber” necessário ao analista (sem memória e sem desejo), Bion reforça a diferença entre uma psicanálise e uma cura médica – esta, baseada na evidência material, aquela, na CONSTRUÇÃO de um sonho possível ENTRE o material e o vivido (54/5)

[ É possível que Bion nos permita dar uma nova resposta à indagação de Nietzsche: “pra que, consciência, se podemos fazer tudo pelo ics?”. N. vinculava isso à necessidade de comunicação [[GC, 354??]]; Bion nos permite pensar que a consciência é um efeito do sonho sobre o real; isto é, “domamos” a capacidade [biológica] da percepção inserindo nela nossa fantasia; essa “mistura” entre percepção e sonho É A CONSCIÊNCIA; ou ainda, a CS seria esse espaço onde nossa fantasia se mistura com nossa percepção da realidade; logo, a CS seria necessária para facilitar nossa relação com o real, permitindo que nos apropriemos dele A PARTIR da fantasia – não alucinação, mas jogo, aceitando ao mesmo tempo a realidade como tal E nosso sonho, o que preserva nossa onipotência, como quer W]

Bion teria feito uma mistura interessante de Freud c/ Klein, mostrando como os ataques do esquizofrênico ao objeto passam a poder ser entendidos também como ataques à realidade e ao aparelho para percebê-la (o que inclui também a realidade interna) (56) [dito de outro modo, sustentar uma relação integrada com o real implica em poder conter tanto a perda da onipotência que isso implica quanto a destrutividade dos objetos / complexidade de relação que isso implica]

A articulação entre a experiência sensorial e o sentido psíquico vem para o primeiro plano; e o conceito de “ataque à ligação” – o que impede / desmonta o pensamento – permite fazer essa articulação (57)

A alucinação seria o resultado bizarro dos ataques à função psíquica avançada [=o sonho, a elaboração, que permitem digerir o real ao preço do abandono da posição esquizo / não integrada]

Bion deixa bem claro o papel de intermediário do psiquismo: ele não acredita que alguma vez o ego se afaste inteiramente da realidade (como quer Freud para a psicose), mas sim que o contato com a realidade é (sempre) mascarado pelo predomínio de uma fantasia onipotente (que visa destruir a realidade e SUA – da realidade – onipotência (59)

A diferença entre neurose e psicose não seria, portanto, irrecuperável, estrutural, sendo possível conviverem no mesmo sujeito personalidades neuróticas e psicóticas (59)

O modo bioniano de apreender a psicose foi focar-se nos ataques que o psicótico faz às próprias percepções – ele usa o pouco psiquismo que tem para IMPEDIR qualquer outra construção psíquica (já que avançar nessa construção do psiquismo cobra um preço caro em integração – ver acima]. Entretanto, mesmo nesse uso distorcido da psique, a alucinação ainda é uma tentativa de construção de sentido – de instauração de um necessário sonho [ = intermediário, terceira área – W] na relação com o real. (60)

Daí a ideia de que as mais variadas produções de sentido humano (os vários vértices – religioso, estético , científico, etc) podem ser entendidas do mesmo modo que as alucinações: como tentativas de produção de sentido (ou de barramento de algo) (61)

Bion pensa a alucinação como um processo ativo de cisões e identificações projetivas que atacam tanto o objeto quanto a relação emocional com ele, e mais: atacam tbém as próprias condições de percepção do dado sensorial, as condições de síntese e construção da experiência psíquica (e, logo, a memória, a razão, a atenção…) (62)

Após fragmentar o objeto e aspectos da personalidade relacionados à percepção, esses fragmentos são expulsos para dentro de algum objeto da vida, que passa a CONTER aspectos da personalidade, agora cindidos e expulsos. É mantido parte do sentido do objeto fragmentado (por exemplo, um gramofone) e parte do objeto que o engoliu (por ex, um quadro). Assim, o psicótico dirá que “aquele quadro está tocando uma música”. O Paciente toma as palavras pelas coisas; ele igualiza, mas não simboliza. (63/4)

Será através dessa vivência de fragmentação e projeção que o paciente chegará ao pensar – e isso leva Bion a propor que esse tipo de funcionamento constitui um tipo de pensamento anterior à linguagem – um pensamento ideogramático (que já vai na direção da dessensorialização de “O”) (64/5)

Essas minúsculas partículas de sentido dariam origem aos ‘ELEMENTOS ALFA’ da formulação do Bion posterior (65/6)

Há uma tradição, que começa em Ferenczi e Abraham, e passa por Klein e seus discípulos (Bion, Rosenberg, Segal, Winnicott, etc) que tenta sustentar a transferência necessária ao embate com a psicose, criando os meios técnicos para habitar a loucura do outro e encontrar o referencial compartilhado do simbólico e da realidade mesmo no inferno imaginário desses pacientes (67)

(Relata casos de cura de esquizofrenia; não haveria distinção estrutural irreversível entre psicose e saúde 67)

O esforço do psicótico por impedir o pensar se torna mais compreensível se entendermos, como propõe Bion, que O PENSAMENTO EXISTE ANTES DO PENSAR, e que “pensar”, de alguma forma, envolve lidar [=integrar?] com os pensamentos já formados (68)

No novo modelo que Bion vai desenhando, o ICS será esse aparelho para pensar os pensamentos, [e, portanto, em certo sentido FALTA AO PSICÓTICO O ICS], e sua constituição depende da integração da fase depressiva e da instauração do reprimido (que preserva separados CS e ICS). (69)

Onde o neurótico usa repressão, o psicótico usará identificação projetiva (69)

O TRABALHO ONÍRICO TRANSFORMA O MATERIAL [= pensamentos?] EM INCONSCIENTE !!(nota 48, pg 70)

Diferente de Freud, para quem a defesa que levaria ao estado psicótico seria um afastamento progressivo da realidade e uma regressão narcísica muito marcada, para Bion trata-se da impossibilidade de sustentar a integração de objetos totais (70)

Esses objetos não sustentados, ou esses fragmentos de objetos projetados, seriam, mais adiante, os “elementos BETA” – que não podem ser usados para pensar, para ligar elementos, nem para construir memória (74)

Notar que Bion está revolucionando a estruturação da simbolização psicanalítica clássica, a qual parte do sonho (e da repressão) como pressupostos, ao passo que, para Bion, existe um ‘mental’ anterior ao sonho, que inclusive se esforça por negá-lo, na impossibilidade de conter a integração que o sonho aponta (74)

Na análise do psicótico, o analista, sua capacidade de ser não retaliativo, de elaborar, de conter [= de ser reverie materna, de ser ego, função alfa], são usados pelo psicótico para justamente chegar a sonhar. (79) [a continência / integração que o psicótico não introjetou na relação com o ambiente, ele pode construir agora, sustentado na relação analítica]

Aproxima a tentativa epistemológica do Bion dos anos 60 (c/ a dessensorialização dos conceitos, a introdução das incógnitas, de conceitos insaturados, etc) dos matemas de Lacan, embora este se assente mais numa estrutura linguístico/teórica (daonde Bion parece imaginário demais) enquanto aquele se assenta mais numa posição clínico/transferencial (daonde Lacan parecerá teórico demais). (80/1 e notas)

A função-alfa converte os dados sensórios em elementos alfa, passíveis de serem usados pelo pensamento onírico [= o ics?] (86);

A função-alfa tornaria o self perceptível a si mesmo = tornaria CONSCIENTE (narrativa, el. Alfa) parte da experiência do self = o que implica que parte da experiência fica de fora, E ISSO SERIA O ICS. Daí que, AO CRIAR A CONSCIÊNCIA, a função-alfa CRIA, NO MESMO MOVIMENTO, A INCONSCIÊNCIA. Esse seria o entendimento de Bion sobre o RECALQUE PRIMÁRIO (87)

[entendi que essa transformação em el alfa DEPENDE do ‘exemplo’ introjetado da reverie materna; isto é, aprenderemos a fazer essa transformação pelo ambiente, e ISSO CRIARÁ A FORMA DE NOSSO CS E ICS!! Dito de outra forma, O TRABALHO EMOCIONAL – elaborativo – que o ambiente fizer em mim servirá de modelo para a minha função-alfa; se não existe esse trabalho no ambiente, eu também terei que me haver com mecanismos mais primários – como projeção, cisão, etc [povos primitivos, religião? Toda a questão é encontrar LUGARES DE SUSTENTAÇÃO – simbólicos, de grupo, rituais, etc – para as emoções que me surgem, conforme minhas estruturas / vida]]

Dormir e despertar condensam o MOVIMENTO BASCULAR da alma em direção aos elementos oníricos (87)

[não será a CS um movimento ainda muito insipiente e perigoso, POR ISSO demandando um mergulho no sono / sonho toda noite? A vida CS das experiências do corpo é que é a novidade; ela entregou toda experiência animal Á UMA LUZ SOCIAL, a qual colore e dá contornos claros ao EU ENQUANTO CONSTRUTO social / relacional. Isso abriu a natureza ao indeterminado do social – à loucura – daí a necessidade do sonho como CURA, periódica, para a loucura da razão. ]

Em Freud, o sonhar está suposto; todos ‘teriam’ capacidade de sonhar – e de dormir. Bion coloca a pergunta que faltava: quem não sonha, dorme? Quem não dorme, sonha? Na psicose, há sono – e sonho? (88/9)

O sonho apresenta muitas funções de censura e resistência – através dos quais o sonho [=função alfa?] delimita e diferencia cS de ics, AO CRIAR NARRAÇÃO (= combinar elementos oníricos a elementos alfa)  (89/90)  [dito de outro modo: ao criar uma sequência de el alfa QUE POSSAM SER COMBINADOS [=INTEGRADOS] NUMA NARRATIVA, a função-alfa permite ao sonho separar CS de ICS – pq a cs É ESSA NARRATIVA??]

Essa sequência de el. Alfa forma a BARREIRA DE CONTATO, que a um tempo SEPARA E UNE – pôe em contato – CS e ICS (90)

O sonhar como a maneira como a mente funciona – inclusive nas horas de vigília (91)

A origem do sonho é uma experiência emocional – e essa experiência é elaborada (racionalizada) para produzir o sonho, o conteúdo manifesto. Para Bion, o conteúdo latente é o resultado da transformação que o psicanalista faz – não necessariamente a origem do sonho (91)

Se a experiência emocional do paciente não se transforma em elementos-alfa, ele não pode sonhar; uma das funções do sonho é preservar o sono [= o ics].

 O trabalho do analista é estar no lugar da funçao-alfa (Bion recupera a atividade sonhadora do próprio analista); o analista precisa ser capaz de sonhar a análise enquanto ela vai ocorrendo (93) [a dica é essa mesmo: atenção flutuante, como dizia Freud.. Sonho, devaneio, e integração pontual dessas duas ‘conversas’ com os movimentos do paciente…]

O rochedo onde a análise naufraga é a intromissão dos desejos e lembranças do analista (95)

A sessão analítica necessita de um clima onírico para funcionar (nota em 96)

O que acontece quando a função alta não se consolida? A psicose, ou o predomínio desse funcionamento sobre outros, ou ainda, o predomínio de elementos BETA (97)

Elemento-beta, DEFINIÇÃO: elementos que não podem ser contidos no continente psíquico, não deixam traços psíquicos utilizáveis aos pensamentos oníricos, não servem à memória, não constituem continente psíquico (97)

Um dos usos dos el Beta é a ATUAÇÃO: a criação de fatos que dêem destino à coisa-em-si que é o el. Beta [produzir no real ALGO que de sentido, que permita a evacuação, a projeção, dos el. Beta em algo, algo que ‘contenha’ esses betas] (97)

Uma característica do psicótico seria uma busca por objetos, que em algum momento ele busca, o que permite pensar tbém no capitalismo, em nível social, como uma espécie de ‘psicose’ social [visando substituir o sentido das relações vivas [=neurose] pelo puro concretismo da posse de coisas quase sem sentido vivo; ver Deleuze no Anti-Édipo] (101/2)

Os estados de confusão psicóticos (=crises?) seriam a expressão fenomênica da tela de elementos-beta (104)

Para produzir sentido psíquico é necessário separar CS de ICS (104)

Diante da impossibilidade de o psicótico produzir sentidos, Bion acaba propondo o ‘estar em O’ – a realidade última, a verdade emocional – como um lugar técnico da análise [‘O’ como a realidade concreta que o psicótico maneja?] (104/6)

Uma resposta para ““O sonhar restaurado” – resumo da 1ª parte

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