Religião – religare

relilgare

 

Aqui, um texto antigo que achei entre algumas quinquilharias. Gostei da ideia e por isso o reproduzo aqui, sem grandes retoques. Notar como a ideia de Damásio sobre as origens da cultura e seu vínculo com as emoções (isto é, no fundo, a homeostase) casam bem com a proposta do texto.

 

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Hoje vivemos num mundo dessacralizado. Dizer “Deus” ou “inferno” ou “outro” não significa muito, são só palavras. Não evocam mais do que seu CONTEÚDO informativo. Linguagem é informação.

Mas por muito tempo não foi assim: as palavras estavam associadas com seu conteúdo, e dizer “Deus” era realmente EVOCAR Deus, mexer com o divino. Por isso não se falava d’Ele “em vão”.

Havia toda uma SOBREPOSIÇÃO entre o material e o espiritual (seja o divino, seja o psicológico). Jung mostra, por exemplo, como no processo de mumificação não era apenas um ritual QUIMICO que ocorria alí, mas um ritual LITURGICO-PSICOLÓGICO. Cada fase (química) correspondia à uma fase ontológica; cada passo no processo correspondia a um movimento divino, uma participação no divino.

Não sei se fica claro o quanto isso é diferente, e o quanto isso ATRASOU a pura manipulação dos materiais que temos hoje?

Pense só: para fazer qualquer coisa, nesses tempos antigos, não bastava “saber o processo” (por ex, fazer pão): era preciso INTEGRAR O PROCESSO material – o fazer o pão – com os processos cósmicos (como essa feitura de pão se ligava com as estrelas, que época do ano se fazia pão, no mês de jupter se usava tal farinha, etc).

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E no entanto as coisas funcionavam! Eles conseguiam integrar vários processos, ligar o individual ao cósmico. E, o que talvez fosse fundamental: a alma se sentia integrada. Nada era feito ao acaso, nada era “laico”; tudo o que era feito pertencia ao mesmo tempo ao indivíduo, à sociedade e aos deuses; assim, tudo era ligado, e qualquer ATO era ao mesmo tempo uma espécie de oração. O homem estava ligado ao cosmos por qualquer de suas atividades.

(o que aparecia ainda na idade média, como resquício: ninguém SE pensava SEPARADO do divino, então a MENTIRA – um ato pessoal – era envolta numa névoa, porque sempre pairava a dúvida: ‘será que Deus não estará vendo?’. SER, de maneira individual, separado das coisas e dos demais, não era bem visto; então as pessoas não mentiam; se alguém PENSAVA que Deus estava errado – mesmo sem dizer nada pra ninguém – ela precisava confessar, pois, no fundo, SE ELA SABIA, DEUS SABIA. Foi um grande passo em direção à individualidade perceber que se ‘pode’ mentir; que os outros (ou Deus) não sabem o que mantemos conosco – embora, diria um psicólogo, NÓS ainda saibamos, e isso se expresse de mil maneiras pelo corpo -).

Um aparte nesta história é como a linguagem era também parte dessa interconexção entre o humano e o divino. Lembro da história de Damásio e do papel central das emoções: ainda hoje, expressamos muito do que queremos através da ENTONAÇÃO, não é apenas a “informação” que passa o conteúdo da mensagem: há também essa integração entre A SITUAÇÃO DO ORGANISMO, AS EMOÇÕES QUE ELE PRODUZ E AS MENSAGENS QUE ELE PASSA através da linguagem.

Pensa na diferença entre dizer “que bom te ver” (com entonação de cansaço) e a mesma frase, mas com entonação de alegria; é completamente diferente.

E no entanto sentimos até mesmo essa pequena integração que “sobrou” como uma dificuldade, e gostaríamos de controlar inclusive o corpo, para que pudéssemos falar (e dar o tom) àquilo que quiséssemos, ou seja, o controle (e a consciência) querem ainda mais…

(ROGERS tem uma expressão para esse coincidir entre o que se sente e o que se expressa: a congruência. Para ele, devemos buscar ser congruentes em todas as situações da vida. Perceba que não é fácil… Comentei um pouco sobre isso aqui)

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Voltando à questão da dessacralização, é impressionante o quanto nossa indústria presente só pode existir porque nossa ação foi dessacralizada: imagine a matança de galinhas que é nossa indústria da carne, e como isso exigiria, antes, uma série de atos de “purificação”. Seria impraticável – na verdade, seria impensável; ninguém de outra época pensaria numa ‘indústria’, NÃO porque faltasse a tecnologia, mas fundamentalmente porque a ESTRUTURA MENTAL era outra, e ela EXIGIA a integração entre os atos e o cosmos.

Isso atrasou o desenvolvimento tecnológico, por um lado, mas preservou a integração entre o indivíduo , a sociedade e o cosmos (o divino – ou o destino, ou o sentido da vida do homem, etc)

Talvez hoje vivamos uma espécie de dissociação entre nós, como indivíduos, e nós enquanto sociedade. Já nem digo apenas em termos de nossa indústria, mas da sociedade como “ambiente”, nos termos de Winnicott, aquela reserva de cuidado e holding (sustentação). NOSSA PRÓPRIA SOCIEDADE REFORÇA O MOVIMENTO EM DIREÇAO À INDIVIDUALIDADE (você deve se preparar; deve estar em constante formação; deve estar sempre sabendo mais, fazendo mais; só pode confiar em você, etc).

Isso não significa nada menos do que o esvaziamento da sociedade enquanto ambiente. Isso deixa o indivíduo sozinho, realmente sozinho – E NÃO FOMOS FEITOS PARA ISSO, ao menos é o que a psicologia sugere; somos animais sociais. (Não apenas sozinhos, mas… isolados, sem mitos, sem crenças vinculantes, sem religião… nossa independência se parece mais com o abandono do que com outra coisa.)

Eu vincularia fácil fácil o aumento do número de psicoses a esse tipo de transformação SOCIAL. Há ainda o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, e a diminuição consequente do tempo (e da qualidade do tempo!) que as mães passam com os filhos, uma transformação social com prováveis consequencias psicológicas.

Dito de outra forma, estamos ‘dessacralizando’ – tirando a integração – entre a criação de sujeitos humanos (o que até agora acontecia através do CUIDADO materno e da MUTUALIDADE materna – o amor mútuo entre mãe e filho(s)) E A FAMÍLIA. Doravante, essa criação vai cada vez mais acontecer através de máquinas, remédios E NORMATIZAÇÃO (disfarçada de orientação/preparação para o ‘mercado de trabalho’, claro).

Resta ver se nossa psicologia aguentará (se ela é maleável o suficiente, e estamos então apenas nos movendo em uma nova direção) ou se isso ultrapassa algum limite da psique, o que me parece ser o caso. Mas sempre posso estar errado.

(nota de rodapé: notar como o sagrado revitaliza tudo: a poesia não é só a palavra que busca o belo, mas a ligação entre o homem e o belo divino – não uma ligação exterior, mas uma ponte mesmo; É ATRAVÉS da poesia que esse belo se integra ao sujeito. Da mesma forma uma dieta: ela não é apenas uma seleção de alimentos em função da ‘saúde’ – conceito abstrato e exterior – mas um MEIO de encontrar uma saúde enquanto DIVINDADE NO CORPO. Escrever uma narrativa não é contar uma historinha inteligente, mas uma forma de reestabelecer a ligação entre o sujeito e o cosmos. Talvez a boa arte consiga isso, ainda hoje; só não gostamos de usar esse palavreado religioso )

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