Damásio, Inteligência artificial & ecologia

ecologia

 

Em seu último livro (“A estranha ordem das coisas”, Cia das Letras, 2018), Antônio Damásio tenta ampliar o alcance de sua ideia original (que já comentamos aqui) fazendo com que não só as emoções e a consciência surjam em nova luz, mas também a cultura.

 

Basicamente, sua ideia é que as emoções são mapas mentais relativos ao estado do corpo no momento presente. Elas refletem quão bem ou quão mal estamos, o que é necessário para que o corpo possa manter certos parâmetros dentro do aceitável – um esforço que conhecemos por homeostase. O somatório desses ‘mapas’, seria a base de um tipo rudimentar de consciência, chamada por ele de “self central”, e sobre esse self central erigiria-se o “self autobiográfico”, ao adicionarmos as memórias vividas pelo sujeito. Aí então teríamos a “consciência”.

 

Ok, mas tudo isso já estava em seu livro anterior (cujo resumo também está no link acima). O que o último livro acrescenta é a ideia de que também a cultura, isto é, nossas criações sociais, são derivadas da homeostase – uma espécie de homeostase em sentido ampliado. Num resumo grosseiro, sua proposta consiste em aproximar comportamentos ‘sociais” presentes já nos organismos unicelulares – os quais são nitidamente orientados no sentido da manutenção e expansão da vida – aos comportamentos de organismos complexos como os nossos. Criaríamos comportamentos sociais para resolver problemas percebidos pelo organismo – com a ajuda de emoção e consciência – e também avaliaríamos o sucesso dessas criações a partir dessa mesma maquinaria.

 

Tudo isso pretendo apresentar melhor num novo resumo, que deve sair apenas no mês que vem. Por hora, queria chamar a atenção para uma consequência geral dessa importantíssima maneira de entender as emoções: Damásio enraíza nossas emoções no real, e faz o mesmo com nossas consciências e culturas.

 

***

 

Até bem pouco tempo atrás (se não ainda hoje), era comum escutar, nas discussões envolvendo psicologia, que ela “não tinha objeto”. De fato, quem é da área sabe, a psicologia sofreu e sofre com uma certa dificuldade de criar consistência teórica, derivada não tanto da clínica e de seus efeitos – palpáveis, afinal de contas – mas da dificuldade mesmo de medir, circunscrever, definir, isolar, seus objetos de trabalho.

 

Não poderia ser diferente, afinal, estamos falando da ciência da subjetividade, daquilo que acontece no mundo interior, do estudo da alma… perceba que todas essas definições de psicologia são meio intangíveis: o que é o “mundo interior”? Em que consiste a subjetividade, afinal?  Falar em “alma”, então… Ora, é bem isso que Damásio vem mudar, porque ele conseguiu traduzir em termos bio/fisiológicos em que consiste, afinal, ter uma emoção. Com isso, nosso mundo interior, nossa subjetividade, nossa alma… ganham consistência, objetividade, materialidade.

 

***

 

O aspecto que me interessa, aqui, no entanto, é o quanto essa materialidade das emoções integra nosso emocional com a realidade de nosso entorno. Dito de outra forma, apreendemos, com clareza, que não temos emoções como um luxo ou um desperdício do cérebro. Nossas emoções tem relação direta com o que está acontecendo conosco; espelham, a seu modo, aquilo que estamos percebendo, e produzem alterações importantes, muitas vezes ajudando a construir o pensamento antes mesmo que ele ocorra.

 

Dito de outra forma ainda: nossas emoções estão em relação direta com o ambiente, com o fora, com o que nos rodeia; são parte da cadeia de percepções que transforma o “objetivo” em “subjetivo”, parte de nossa adaptação ao real. Para dizer tudo: as emoções nos enraizam na realidade, são parte dessa continuidade que liga o ambiente onde vivemos e nossas memórias e pensamentos sobre esse lugar.

 

Nisso, não estamos sozinhos na criação. Pelo contrário, somos a continuidade de uma linha bastante antiga, e tudo em nós, inclusive o pensamento, reflete e integra, em função da homeostase, aquilo que vivemos.

 

***

 

Pois bem, esse “enraizamento no real” que parece (agora) caracterizar nossa existência subjetiva contrasta grandemente com os esforços da Inteligência Artificial, na medida mesma em que ela NÃO está enraizada na realidade. Isto é, não há continuidade entre o que a máquina “sente” – ou percebe, ou raciocina – e o ambiente na qual ela “vive”. Pelo contrário, nosso interesse nas máquinas, em geral, se dá pela sua separação, pelo seu isolamento, em relação às condições concretas de nossa vida.

 

Ficamos tristes quando uma máquina começa a dar sinais de esgotamento. Talvez a ferrugem esteja nos lembrando que, a seu modo, também as máquinas estão ligadas ao tempo, ao desgaste. Mas em nossa cabeça, não: teimamos em acreditar que essas coisas não existem para uma máquina – o que não deixa de ser um certo tipo de crueldade.

 

Enfim: vivemos em continuidade com o todo que nos cerca, e só agora começa a ficar claro o quanto de nosso “Eu interior” depende desse fora, desse ambiente, para se constituir. Essa continuidade, que caracterizei como “ecologia”, implica também aquilo que padecemos – ou seja, nossos limites. Nossa falibilidade, o fato de sermos precários, mortais, é algo que nos foi imposto por essa mesma ecologia que nos liga ao todo.

 

Nosso orgulho, no entanto, busca desde sempre se contrapor a esses limites, justamente nos separando daquilo que nos cerca. Nós mesmos tentamos nos entender como máquinas, como absolutamente independentes, como deuses “ex-maquina”. Nós mesmos tentamos nos separar de nossa condição humana, e a inteligência artificial parece ser apenas a mais nova materialização disso.

 

***

 

O risco – e talvez o novo – que a Inteligência artificial traz, é justamente a promessa de um tipo de inteligência que vá perceber e resolver problemas sem estar ligada a eles por uma espécie de ecologia. Uma inteligência verdadeiramente “ex-maquina”, capaz de tomar decisões sem que essas decisões reflitam suas condições de existência. Uma diferença essencial, pois – e também isso fica claro com Damásio -, a inteligência biológica é essencialmente a projeção, nos dados do problema, da vida do organismo.

 

Avançamos, portanto, em direção ao nosso orgulho, e nos afastamos, ao mesmo tempo, daquele entorno ecológico do qual dependemos.

Uma resposta para “Damásio, Inteligência artificial & ecologia

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