Whisper of the heart – Sussurros do Coração (Hayo Miyazaki)

gato

 

Quando tentamos contar um sonho, uma das maiores dificuldades é traduzir a multiplicidade de sentidos que o sonho evoca – todos ao mesmo tempo – em uma narrativa linear, com começo, meio e fim. O sonho é várias histórias ao mesmo tempo, e narrá-lo implicaria em falar várias vozes ao mesmo tempo.

 

Isso também acontece na arte. Em termos psicanalíticos, sonho e arte trabalham com o processo primário, aquele característico do inconsciente, para Freud, enquanto nosso entendimento mais racional e organizado pertenceria ao processo secundário, vinculado ao consciente. Passar de um para o outro é, em si mesmo, uma arte, e talvez a psicanálise seja uma arte, nesse sentido.

 

Encontro essa mesma dificuldade quando tento falar sobre os filmes de Hayo Miyazaki. A dificuldade, por um lado, me confirma que se tratam de obras de arte, mas por outro me obriga a um processo de tradução que, como lembrava Freud, muitas vezes beira a traição (traduttore, traditore, em italiano).

 

Por isso, em vez de uma resenha, preferi fazer uma pequena apresentação.

 

***

 

Vou abordar aqui o filme “Sussurros do coração”, um dos meus preferidos. A história  narra o amadurecimento emocional de Shizuku Tsukishima, a personagem principal, através da descoberta e do enfrentamento do amor. Shizuku, então uma simples adolescente, não vive nada de especialmente grandioso ou fora do comum, como costuma acontecer nos filmes de Miyazaki, estando os acontecimentos principais deslocados para o mundo interior da personagem.

 

O filme inicia nos dando uma amostra da vida um tanto tranquila de Shizuku, sua rotina, seus afazeres, sua vida familiar. Como em uma boa tragédia, tudo parece bem encaixado em seus lugares, e não se imagina que algo possa acontecer / evoluir naquele mundinho pacato. Mas então Shizuku percebe que alguém está lendo os mesmos livros que ela na biblioteca do colégio, e se pega pensando em quem seria esse instigante leitor.

 

Ao mesmo tempo somos apresentados a outro estudante, Seiji Amasawa, que principia ocupando o polo justamente oposto ao do ‘leitor instigante’ da biblioteca: Seiji parece esnobe, rude, desprezível, aos olhos de Shizuku. Mas, conforme a história avança, descobrimos que Seiji e o leitor instigante são a mesma pessoa, e uma ligação entre ele e Shizuku começa a se estabelecer.

 

***

 

Um relato objetivo do filme poderia parar por aqui. Mas, como no sonho do livro de botânica de Freud, onde uma única cena deixa margem para páginas e página de interpretação, aqui também é no nível latente que as coisas ganham interesse e se aprofundam.

 

A temática dos livros, por exemplo, que liga os dois alunos, pode ser conectada à sua própria condição de adolescentes: eles estão crescendo, eles estão buscando aprender sobre o mundo, e os livros são parte desse caminho.

 

Intimamente entrelaçado a esse ‘descobrimento’ do mundo vemos a questão do trabalho, da vocação. Shizuku se atormenta por boa parte da história buscando uma solução para esse importante dilema, e os livros eram também uma busca de auxílio.

 

Finalmente, e numa ligação também muito orgânica com os temas citados, vemos a questão do amor, da diferença entre homens e mulheres, do que significa entrar numa relação, sendo trabalhada com muita delicadeza e profundidade.

 

Juntando essas três grandes linhas, quase é possível dizer que o filme narra o que significa a descoberta do “ser”, ou como ser plenamente “si mesmo”, um ser humano pleno, através do esforço (conhecimento), do trabalho (vocação) e do amor (casamento).

 

(E, é impressionante, isso é apenas um resumo, uma esquematização… porque o filme trata de tantas coisas, tem tantas cenas lindas, que conectam com temas tão profundos… mas, como disse, é impossível dizer tudo).

 

***

relogio

 

 

Uma cena memorável, entre tantas, é aquela em que Shizuku conhece o avô de Seiji (ainda antes de saber que ele era seu leitor misterioso). O velho homem possui uma loja de antiguidades (o que o conecta à linha do “conhecimento”), e dentre vários objetos, dois chamam a atenção de Shizuku: uma estátua em forma de gato e um velho relógio.

 

Os dois objetos estão vinculados ao amor, como descobriremos. No caso do relógio, os pequenos anões que aparecem a cada hora cheia pertenceriam a reinos diferentes: o homem e o reino diurno, a mulher e o reino noturno. Ambos, então, se apaixonam, mas, por viverem em reinos diferentes, só podem se ver a cada ciclo completo do tempo, quando então se encena um encontro entre ambos. A cena, singela e sugestiva, põe em evidência que ambos pertencem a mundos diferentes, e não se encontram sempre, mas que existe uma ligação muito forte entre eles, e o encontro é, sim, possível, mesmo que temporário.

 

Nessa mesma linha, a estátua do gato leva o avô a contar a sua história pessoal de amor: a estátua que vemos seria parte de um casal de gatos-estátua. Quando jovem, o avô precisou partir para a guerra, e combinou com sua noiva que se reencontrariam depois, e então as estátuas também se completariam. Mas a vida passou e apenas o “senhor gato” nos é mostrado. Sua contra-parte é apenas imaginada… O que, para mim, faz pensar na dimensão imaginária do amor, ou seja, o quanto o amor é mantido também pelo que se fantasia sobre ele.

 

***

 

A fantasia acaba conectando também os vetores “conhecimento” e “vocação” do filme, porque Shizuku decide, um pouco surpresa consigo mesmo, que quer ser escritora, e grande parte da metade final da história é dedicada a isso. Ela e o avô combinam que ele será o primeiro a ler o livro que ela tenta escrever em apenas dois meses. Para isso ela decide deixar de estudar, e precisa negociar com os pais – numa clara alusão à dimensão adulta que se avizinha – como vai gerir o tempo nesse seu novo momento.

 

É cativante o modo como a narrativa vai sugerindo, através da aventura tensa que Shizuku conta,  que também o trabalho e o conhecimento dependem da fantasia, e assim Miyazaki faz uma defesa – sempre sutil – da arte como verdadeiro elo de ligação entre as diferentes dimensões da aventura humana. No plano manifesto, Shizuku dá as mãos à estátua do “senhor gato” (transformada em herói), e parte para a batalha contra um mundo incerto. Sugestivamente, eles voam por cima das dificuldades, e parece que um final feliz é possível.

 

***

 

 

Juntando essas várias linhas de desenvolvimento, temos a música-tema do filme. Desde o começo, Shizuku tenta traduzir a música “Take me home, country roads”, de Jhon Denver, para a sua língua natal. É interessante ver como a música ressoa com grande parte dos temas que citamos, especialmente o refrão:

 

“Estradas do campo (ou do meu país, nativas, próprias, etc), me levem para casa
Para o lugar a que eu pertenço
Virgínia Ocidental, Mãe das Montanhas
Levem-me para casa, estradas do campo / estradas nativas”

 

Chamo a atenção para os temas do pertencimento, da “casa” para a qual se quer retornar. Acredito que a história dá uma ênfase significativa ao elemento do “nativo”, isto é, aquilo que nos pertence, e ao mesmo tempo aquilo ao qual nós pertencemos. De certa forma, o filme inteiro mostra a criança Shizuku em busca do lugar a que ela pertence, agora que começa a virar adulta; o lugar do humano, um lugar para o qual ela quer retornar, mas cujo retorno é impossível nos mesmos termos da partida. É preciso uma tradução para reencontrar aquilo que fomos naquilo que somos agora.

 

Belíssima é também a cena em que Shizuku canta, com Seiji, a sua versão da música. É o primeiro momento deles, juntos, e prenuncia um encontro que veremos cada vez mais consistente. A voz tímida dela encontra apoio no violino que ele toca ao fundo, e os dois juntos fazem algo um pouco além de cada um. Como se o filme quizesse dizer que a vida a dois, esse encontro de “mundos diferentes” como na cena do relógio, fosse uma música, um dueto, onde cada um toca um instrumento diferente, mas onde algumas coisas são comuns (o ritmo, o tom) e permitem que o resultado soe harmônico.

 

***

 

Para encerrar, uma questão acerca da veracidade dessa leitura: será que é isso mesmo que o filme quis dizer? Conheço pessoas que vêem no filme apenas uma história infantil, sem mais. Bom, o que sei é que essa leitura é parte daquilo que o filme produziu em mim, e essa produção é verdadeira e indiscutível, do meu ponto de vista. Na arte como na análise, cabe a cada um encontrar a sua própria verdade; e creio que o filme está aí, como um espelho, simplesmente para sugerí-las.

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